07 setembro 2017

25 agosto 2017

Ciclo "Carlos Seixas: O Esplendor do Barroco"


Retrato póstumo de Carlos Seixas – gravura realizada pelo francês Jean Daullé (1703-1763), a partir de desenho da autoria de Vieira Lusitano.
Legenda na moldura: «JOSEPHUS ANTONIUS CARLOS & SEYXA5 Vixit Annos 38. Obiit die 25. Augusti Anno 1742» [José António Carlos e Seixas viveu 38 anos. Morreu no dia 25 de Agosto do ano de 1742].
Legenda inferior: «Hanc merui citharam stellis radiantibus addi: Dissona nec vitae moribus illa fuit» [Mereci que à citara se juntasse a estrela radiante: Dela não foram dissonantes a vida e os costumes].


Nascido em Coimbra em 1704 [11 de Junho], José António Carlos de Seixas era filho do organista da Sé desta cidade Francisco Vaz, a quem sucedeu nesse lugar em 1718. Em 1720 foi admitido como organista e vice-mestre da Capela Real de Lisboa, tornando-se igualmente um professor de música bem cotado, como nos mostra a seguinte passagem do Diário do [...] 4.º Conde de Ericeira, escrita em 1731: «Os Viscondes de Barcarena deram ao músico Joseph Antonio para o seu casamento presentes que se afirma valerem 3 mil cruzados, porque este músico não leva dinheiro pelas lições que dá à Senhora Viscondessa, e a suas filhas». Tendo adquirido o ofício de contador do Mestrado da Ordem de Santiago, em 1738 consegue obter o hábito de cavaleiro da Ordem de Cristo, após nove anos de insistências e de dificuldades, relacionadas com o facto de ter um avô carniceiro e outro alfaiate, e de suas avós serem «mulheres de segunda condição». Vem a falecer em 1742 [25 de Agosto], com 38 anos apenas.
A vida de Carlos Seixas decorre durante uma importante época de viragem na História musical portuguesa, a qual, durante todo o século XVII, permanecera numa situação de quase total isolamento em relação à Europa transpirenaica e de dependência em relação à Espanha. Esse isolamento só se veio verdadeiramente a romper com a subida ao trono de D. João V, em 1706. A abertura à música italiana ocorrida a partir dessa altura foi uma das consequências artísticas da prosperidade financeira decorrente da descoberta do ouro do Brasil, e da utilização dessa prosperidade na prossecução de uma política de prestígio interno e internacional. A enorme importância e influência que a Igreja detinha na sociedade portuguesa da altura explica que D. João V tivesse investido essa nova prosperidade sobretudo no prestígio das instituições religiosas em geral e da sua própria Capela Real em particular, a qual conseguiu ver elevada a Sé Patriarcal logo no início do seu reinado. A reforma das instituições musicais e a importação de músicos italianos está directamente ligada à reforma dessa Capela. Em 1713 foi criado o Seminário da Patriarcal, que iria ser a principal escola de música em Portugal durante o século XVIII, e em 1729 outra escola para o ensino do canto capucho no Convento de S. Catarina de Ribamar, para cuja direcção foi contratado o mestre de capela de S. João de Latrão, Giovanni Giorgi. Com fundos da Patriarcal, D. João V mandou igualmente um certo número de bolseiros estudar música em Roma, entre eles Francisco António de Almeida, João Rodrigues Esteves, Joaquim do Vale Mexelim e António Teixeira.
O contacto preferencial com a música romana está também relacionado com a famosa embaixada do Marquês de Fontes ao Papa. Na embaixada de Portugal em Roma se cantaram nesta época diversas serenatas de Nicola Porpora, Alessandro e Domenico Scarlatti, e Francesco Gasparini. Ao mesmo tempo, entre 1717 e 1719 quatro cantores abandonaram a Cappella Giulia do Vaticano para virem para a Capela Real, e nesse último ano ou no seguinte chegou a Lisboa para ocupar o lugar de mestre desta Capela, o próprio mestre da Cappella Giulia, Domenico Scarlatti. À roda de 1730, havia já 26 cantores italianos na Capela Real e Patriarcal, assim como diversos instrumentistas italianos e de outras nacionalidades. Entre estes, devemos destacar o violinista e compositor genovês Pietro Giorgio Avondano, primeiro de uma longa linhagem de músicos da qual Pedro António Avondano foi o membro mais destacado, e os bolonheses Alessandro Paghetti, director da Academia da Trindade, o primeiro teatro de ópera existente em Lisboa, e Lodovico Filippo Laurenti, autor de um volume impresso de sonatas para violoncelo e baixo contínuo.
Ao contrário dos bolseiros acima citados, Carlos Seixas nunca saiu de Portugal. Mas sem dúvida que através do contacto diário com os seus colegas da Capela Real teve a oportunidade de se familiarizar perfeitamente com as novas correntes musicais italianas. Ao que sabemos, Seixas nunca terá sido chamado a compor nenhuma das serenatas que se cantaram na corte em celebração dos aniversários e festas onomásticas dos membros da família real, ou alguma das raras óperas que no seu tempo aí foram levadas à cena durante o Carnaval. Dele se conhecem somente diversas obras religiosas, uma sinfonia e uma abertura à francesa, um concerto para cravo e orquestra de cordas, e cinco sonatas para cravo, clavicórdio ou órgão, de um total de setecentas que lhe são atribuídas pelo seu contemporâneo Barbosa Machado, na sua Biblioteca Lusitana. Como autor de sonatas para tecla, Seixas ocupa um lugar cimeiro e isolado, no tempo e na importância, entre os nossos compositores do século XVIII. Podemos admitir que dessas sonatas, as mais complexas e virtuosísticas do ponto de vista formal e técnico fossem destinadas aos saraus musicais da corte, ou àqueles que as famílias da primeira nobreza, em imitação daquela, promoviam igualmente em suas casas. Estão neste caso, por exemplo, as sonatas n. °s 19 e 24. Além disso, enquanto organista da Capela Real e Patriarcal, ele terá tido de compor também sonatas ou tocatas para executar no início ou no fim da missa, assim como durante a comunhão ou outros momentos da liturgia que permitiam a execução de solos instrumentais.
Por outro lado, enquanto que Scarlatti teve uma discípula de eleição na pessoa da Princesa Maria de Bragança, uma parte importante das sonatas de Seixas terá sido escrita para alunos principiantes, ou para amadores. Quanto à possível influência de Scarlatti em Seixas, há que ter em conta por um lado que ignoramos totalmente que parte das sonatas de Scarlatti foram escritas durante a sua estadia em Portugal e por outro que se trata de duas sensibilidades musicais muito diferentes. Se bem que possivelmente apócrifa, vale a pena citar a propósito a seguinte anedota contada pelo violinista José Mazza no seu Dicionáno Biográfico, escrito nos finais do século XVIII:

quis o Sereníssimo Senhor Infante D. António [irmão do rei D. João V] que o grande Escarlate, pois se achava em Lisboa no mesmo tempo, lhe desse alguma lição, regulando-se por aquela ideia errada de que os Portugueses por mais que façam nunca chegam a fazer o que fazem os estrangeiros, e o mandou ao dito; este apenas o viu pôr as mãos no Cravo, conhecendo o Gigante pelo dedo, lhe disse «Vossa Mercê é que me pode dar Lições!», e encontrando-se com aquele Senhor lhe disse «Vossa Alteza mandou-me examinar, pois saiba que aquele sujeito é dos maiores professores que eu tenho ouvido!».

O gosto de Carlos Seixas, como o do compositor espanhol Antonio Soler, por uma escrita repleta de motivos suntuosos à maneira de sequências barrocas, numa floresta de modulações — processo de construção que Domenico Scarlatti não empregou — provém, segundo Santiago Kastner, do facto de eles se terem formado musicalmente no estudo dos tentos de Manuel Rodrigues Coelho, Francisco Correa de Araúxo, Juan Cabanilles, etc.. Seixas emprega mais frequentemente que Scarlatti as estruturas irregulares dos períodos musicais. Além disso ele dá grande importância ao aspecto arquitectónico da sonata ditemática nascente, expandindo consideravelmente a segunda parte de muitas das suas sonatas, onde um pequeno número de motivos é objecto de uma longa série de modulações ao longo de tonalidades mais ou menos afastadas da fundamental. A escrita é habitualmente menos densa e polifónica do que a de Scarlatti. De acordo com a prática do baixo contínuo, ela caracteriza-se frequentemente por uma melodia destinada à mão direita, e acompanhada por uma linha de baixo relativamente simples. Tal escrita, destinada sobretudo aos alunos principiantes, não exclui a possibilidade de o executante poder enriquecer harmonicamente a textura sonora, improvisando aqui e além alguns acordes. As suas linhas melódicas têm por vezes o sabor de uma cantilena lírica, prestando-se este tipo de escrita especialmente bem às possibilidades sonoras e expressivas do clavicórdio. A frequência com que, por outro lado, encontramos associado às sonatas de Seixas pelo menos um minuete, cujo tema é por vezes aparentado com o tema principal do andamento inicial da sonata, revela de que maneira a influência da moda e do gosto francês se faziam sentir em Portugal nesta época.

Manuel Carlos de Brito [texto publicado no álbum "Carlos Seixas: Sonatas para Cravo, por José Luis Uriol", PortugalSom/Secrataria de Estado da Cultura, 1981]




Em Março e Abril de 1992, por ocasião dos 250 anos da morte de Carlos Seixas, a Antena 2, então dirigida por Fernando Serejo, emitiu um interessantíssimo ciclo temático consagrado ao insigne compositor e à época em que decorreu a sua curta vida, a qual coincidiu com o período áureo do reinado de D. João V. A maioria desses programas foi reposta no espaço "Memória", e por três vezes – em 2013, em 2014 e em 2015. É de louvar a iniciativa, mas lamenta-se que o ciclo – de inegável interesse, reafirmamos – não fosse resgatado na íntegra, pois, como abaixo de pode verificar, alguns programas foram ignorados.
No dia em que se completam 275 anos sobre o falecimento de Carlos Seixas, destacamos o referido ciclo, aproveitando para deixar expresso o pedido de que sejam ainda resgatados os programas em falta. Um pedido que é extensivo a outros memoráveis ciclos temáticos como, por exemplo, um sobre Antero de Quental e outro dedicado a João Domingos Bomtempo.


CICLO "CARLOS SEIXAS: O ESPLENDOR DO BARROCO"

Programas Nucleares

A Música Sacra nas Igrejas Joaninas
Autor: Gerhard Doderer
Locução: Maria Dinora e Victor Nobre
Assistência técnica: Moreira de Carvalho e Silva Alves
Realização: Bernardino Pontes
Obras musicais de: Carlos Seixas, António Teixeira, Jayme de la Té y Sagáu, e João Rodrigues Esteves.
Emissão: 08 Mar. 1992 | 2 Mai. 2015 [>> RTP-Play]

Carlos Seixas versus Domenico Scarlatti
Autor: Gerhard Doderer
Locução: Maria Dinora, Carlos Achemann, Victor Nobre
Assistência técnica: Silva Alves e Ana Clara
Realização: Bernardino Pontes
Obras musicais de: Carlos Seixas e Domenico Scarlatti
Emissão: 22 Mar. 1992 | 9 Mai. 2015 [>> RTP-Play]

A Música de Câmara nos Palácios da Sociedade Joanina
Autor: Gerhard Doderer
Realização: Bernardino Pontes
Emissão: 05 Abr. 1992

A Música Dramática nos Palcos Palacianos e Públicos
Autor: Miguel Ângelo
Locução: Maria Dinora e Henrique Canto e Castro
Assistência técnica: Matos Faria
Realização: Bernardino Pontes
Obras musicais de: Sebastián Durón, Carlos Seixas e Francisco António de Almeida
Emissão: 19 Abr. 1992 | 16 Mai. 2015 [>> RTP-Play]


Programas Complementares

As Artes na Época de D. João V (I)
Autor: Margarida Calado
Locução: Maria Manuela Albuquerque, Luís Mendonça e Carlos Achemann
Assistência técnica: Matos Faria e António Pereira
Sonorização: Rogério de Vasconcelos
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 18 Mar. 1992 | 27 Jun. 2015 [>> RTP-Play]

As Artes na Época de D. João V (II)
Autor: Margarida Calado
Locução: Maria Manuela Albuquerque, Carlos Achemann e Luís Mendonça
Assistência técnica: Matos Faria, Henrique Soares e António Pereira
Sonorização: Rogério de Vasconcelos
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 1 Abr. 1992 | 4 Jul. 2015 [>> RTP-Play]

A Literatura Portuguesa na Época de D. João V (I)
Autor: Carlos Achemann
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 15 Abr. 1992

A Literatura Portuguesa na Época de D. João V (II)
Autor: Carlos Achemann
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 22 Abr. 1992


Programas de Mapa

LUGAR À HISTÓRIA
Portugal no Tempo de D. João V (I)
Colaboração: Oliveira Ramos
Realização: Eugénio Alves
Emissão: 19 Mar. 1992 | 23 Mai. 2015 [>> RTP-Play]

LUGAR À HISTÓRIA
Portugal no Tempo de D. João V (II)
Colaboração: Oliveira Ramos
Realização: Eugénio Alves
Emissão: 2 Abr. 1992

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO
Mafra: Obra Emblemática de D. João V
Colaboração: José Augusto França
Locução: Maria Alexandra Corvela
Assistência técnica: Silva Alves, Guilherme Guimarães e Ana Clara
Sonorização: José Manuel Gouveia
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 12 Mar. 1992 | 30 Mai. 2015 [>> RTP-Play]

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO
Águas Livres
Colaboração: Irisalva Moita
Locução: Carlos Faria e Maria Alexandra Corvela
Assistência técnica: Silva Alves, Ana Clara e João Silva
Sonorização: Pedro Alvarez
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 26 Mar. 1992 | 6 Jun. 2015 [>> RTP-Play]

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO
A Capela de S. João Baptista, na Igreja de S. Roque
Colaboração: Maria João Madeira Rodrigues
Locução: Maria Dinora
Assistência técnica: Silva Alves e Ana Clara
Sonorização: José Manuel Gouveia
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 9 Abr. 1992 | 13 Jun. 2015 [>> RTP-Play]

MEMÓRIA DO ESQUECIMENTO
A Igreja dos Clérigos e Nicolau Nasoni
Colaboração: Jaime Ferreira Alves
Locução: Maria Dinora
Assistência técnica: António Pereira (exterior), Henrique Soares e Silva Alves (estúdio)
Sonorização: Pedro Alvarez
Realização: Maria Manuela Albuquerque
Emissão: 23 Abr. 1992 | 20 Jun. 2015 [>> RTP-Play]

CIÊNCIA E TECNOLOGIA: A PROCURA SEM FIM
Carlos Seixas: A Cultura Científica e Tecnológica do Seu Tempo
Autor: António Manuel Baptista
Locução: Júlia Maria
Assistência técnica: António Pereira
Sonorização: José Manuel Gouveia
Realização: Álvaro Lourenço
Emissão: 13 Abr. 1992 | 11 Jul. 2015 [>> RTP-Play]

AUDITÓRIO
Vida e Obra de António José da Silva, "O Judeu"
Autor: Luís Lima Barreto
Realização: Maria Emília Correia
Emissão: 21 Abr. 1992

NOITE DE TEATRO
"Guerras do Alecrim e Manjerona"
Autor: António José da Silva, "O Judeu"
Adaptação: Leopoldo de Araújo
Emissão: 24 Abr. 1992



Capa do CD "Carlos Seixas: Sonatas para Cravo, por José Luis Uriol (PortugalSom/Secretaria de Estado da Cultura, 1988)
A primeira edição, em vinil, é de 1981.



Capa do CD "Carlos Seixas: Concerto para Cravo e Orquestra de Cordas | Sinfonia | Abertura | Concerto para Cravo e Orquestra (Anónimo), por János Sebestyén (cravo) & Orquestra de Câmara Ferenc Liszt, dir. János Rolla" (PortugalSom/Strauss, 1997)
A primeira edição, em vinil, é de 1986.



Capa do CD "Carlos Seixas: Sonatas para Cravo, por Cremilde Rosado Fernandes" (PortugalSom/Secretaria de Estado da Cultura, 1991)

12 agosto 2017

31 julho 2017

Dino Meira: "Nas Estradas a Guiar"



A evocação do cantor Dino Meira, com a canção "Meu Querido Mês de Agosto", que David Ferreira fez hoje na sua rubrica da Antena 1, "David Ferreira a Contar" [>> RTP-Play], deu-me o mote para aqui apresentar o tema "Nas Estradas a Guiar", um espécime mais interessante (a meu ouvir) e que não podia vir mais a propósito, agora que muitos dos nossos patrícios emigrados nas Franças e Alemanhas estão prestes a fazerem-se à estrada, rumo ao torrão natal.
Com votos de boas férias a todos os emigrantes!



Nas Estradas a Guiar



Letra e música: Dino Meira
Arranjo: Ramon Galarza
Intérprete: Dino Meira (in single "Adeus Paris, Até Lisboa / Nas Estradas a Guiar", Philips/Polygram, 1983; CD "O Melhor de Dino Meira", col. Coração Português, Mercury/Universal, 1999; CD "O Melhor de Dino Meira", Universal, 2007)




[instrumental]

Cruzaste horizontes
Entre curvas e montes...
Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar!
Passaste montanhas,
Estradas estranhas...
Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar!
Vens de tão longe, guiar bem é teu querer...
Há tantas vidas perdidas p'ra recordar...
Olha que a ti também te pode acontecer:
Na estrada a morte espreita,
Não a queiras encontrar!
Tens a vida p'ra viver
E tantos sonhos p'ra sonhar...

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p'ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p'ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p'ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p'ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

[instrumental]

Cruzaste fronteiras
Com tantas canseiras...
Ó emigrante, eu quero apenas te ajudar!
Vens sorridente,
Feliz e tão contente...
Ó emigrante, eu quero apenas te lembrar!
Há tantas festas, romarias p'ra bailar...
A vida são dois dias, não te deixes descuidar!
Que tenhas sorte por aqui no teu país!
Que sejas bem feliz
Nas estradas a guiar!
Tens a vida p'ra viver
E tantos sonhos p'ra sonhar...

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p'ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p'ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p'ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p'ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p'ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p'ra chegar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!

Trazes saudades contigo, vem devagar!
Tem cuidado, emigrante,
Nas estradas a guiar!
Trazes saudades contigo p'ra festejar
Tanto tempo ausente,
Há sempre tempo p'ra chegar!...


Nota: «A canção "Nas Estradas a Guiar" é dedicada aos emigrantes que viajam pelas estradas, e um alerta para milhões de pessoas, na intenção de ajudar a minorar os acidentes.» (Dino Meira)



Capa do single "Adeus Paris, Até Lisboa / Nas Estradas a Guiar" (Philips/Polygram, 1983)
Fotografia por Tó Morais (agradecimento ao ALFA LISBOA - HUSA HOTEL)

21 junho 2017

Janita Salomé: "Reino de Verão"


Silva Porto, "Colheita - Ceifeiras", c.1893, óleo sobre tela, 90,5x120,3 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto


Quem conhece razoavelmente o repertório poético-musical português sabe que ele é profuso em belos espécimes alusivos às estações do ano, designadamente à Primavera e ao Estio. Ora este dia de solstício, que marca o início da mais cálida das estações, é um bom pretexto para pôr-mos em destaque uma dessas canções: "Reino de Verão", na voz de Janita Salomé, com música da sua autoria sobre poema de Maria Manuela Espinho.
Não podia a Antena 1 incluir esta canção na sua lista de difusão musical, vulgo 'playlist'? Podia e devia! E isso vale igualmente para muitas outras gravadas por Janita Salomé, um dos mais categorizados artistas do nosso panorama musical mas que – absurda e criminosamente – não está representado na referida lista.



Reino de Verão



Poema: Maria Manuela Espinho
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Em Nome da Rosa", Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2014)




Os dias sem vento.
As horas paradas
suspensas do tempo
da calma
do não haver sombra nem fresco.
A vida entardecendo
ante o olhar
como pintura de mestre.
A terra e o céu
acontecendo
numa espera dourada.
E a beleza a cumprir-se
no cantar da cotovia...


* Janita Salomé – voz
Filipe Raposo – piano
Mário Delgado – guitarra acústica
Pedro Jóia – cümbüs
Quiné Teles – bateria e percussão
António Quintino – contrabaixo
Direcção musical e arranjos – Filipe Raposo
Produção executiva – Cantar ao Sol, Lda.
Gravação – Rui Guerreiro, André Tavares e José Maria Sobral, nos Atlântico Blue Studios, Paço d'Arcos, de Julho a Agosto de 2013
Mistura – Rui Guerreiro
Masterização – Tó Pinheiro da Silva



Capa do CD "Em Nome da Rosa", de Janita Salomé (Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2014)
Concepção por Egle Bazaraite

_________________________________

Artigos relacionados:
Galeria da Música Portuguesa: Janita Salomé
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional
Petição pública: por uma ANTENA 1 mais divulgadora da música portuguesa
Considerações sobre a 'playlist' da Antena 1
Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional (II)

10 junho 2017

Camões recitado e cantado (III)


Retrato de Luís de Camões (gravura), pelo flamengo Andries Pauli (Antuérpia, 1610-1639). Pertence, desde 1964, ao acervo do Rijksmuseum, de Amesterdão.


«As 10 Canções de Camões, que integravam a primeira edição de 1595 das suas "Rimas", são uma obra-prima da poesia maneirista portuguesa. Porque são alguns dos poemas de que mais gosto, e ler em voz alta é a melhor maneira de conhecer a poesia, li-as em voz alta e gravei-as com o Vasco Pimentel em 1995, há 15 anos, para a extinta Comissão dos Descobrimentos Portugueses. Não se encontra já essa edição que tinha uma capa da Cristina Reis. É essa mesma gravação, uma das que mais gosto de entre todas as que fiz, que aqui se reedita.».
Assim começa a nota de Luís Miguel Cintra para a reedição, com chancela Presente, das primeiras dez Canções saídas do punho do maior vate de língua portuguesa. E como, muito apropriadamente, refere o actor, «ler [e ouvir] em voz alta é a melhor maneira de conhecer a poesia», este 10 de Junho afigura-se um excelente pretexto para aqui apresentarmos as três primeiras, em jeito de acepipe ao manjar mais substancial que o conjunto das demais constitui.
Intercalando esses três poemas, magistralmente ditos por Luís Miguel Cintra, deixamos as outras tantas redondilhas que José Afonso musicou e cantou para edição discográfica. Serve também de homenagem ao autor de "Cantares do Andarilho", agora que se assinalam os trinta anos do seu desaparecimento.

E o que fez a rádio pública em celebração de Luís de Camões neste dia que lhe é consagrado? Quase nada! E dizemos "quase" e não simplesmente "nada" porque David Ferreira teve o cuidado de abrir o seu programa alargado de hoje, "David Ferreira a Contar... Consigo" [>> RTP-Play] com a reposição de uma rubrica emitida há quatro anos, contendo excertos dos três poemas camonianos (uma cantiga em redondilha e dois sonetos) que Amália primeiramente gravou, mais "Endechas a Bárbara Escrava" por José Afonso.
Era assim tão trabalhoso pegar numa quinzena de poemas de Camões (uns ditos/recitados e outros cantados) e transmiti-los ao longo do dia, ao ritmo de um por hora? O esforço seria pouco mas ficar de braços cruzados sempre dá menos trabalho. Mas é para termos uma rádio mandriona que somos desembolsados, a cada mês que passa, de 2,85 euros?



CANÇÃO I



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Fermosa e gentil Dama, quando vejo
a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,
a boca graciosa, o riso honesto,
o marmóreo colo e branco peito,
de meu não quero mais que meu desejo,
nem mais de vós que ver tão lindo gesto.
Ali me manifesto
por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo
nas lágrimas que choro;
e de mim, que vos amo,
em ver que soube amar-vos, me namoro;
e fico por mim só perdido, de arte
que hei ciúmes de mim por vossa parte.

Se porventura vivo descontente
por fraqueza de esprito, padecendo
a doce pena que entender não sei,
fujo de mim e acolho-me, correndo,
à vossa vista; e fico tão contente
que zombo dos tormentos que passei.
De quem me queixarei
se vós me dais a vida deste jeito
nos males que padeço,
senão de meu sujeito,
que não cabe com bem de tanto preço?
Mas ainda isso de mim cuidar não posso,
de estar muito soberbo com ser vosso.

Se, por algum acerto, Amor vos erra,
por parte do desejo cometendo
algum nefando e torpe desatino;
se ainda mais que ver, enfim, pretendo;
fraquezas são do corpo, que é de terra,
mas não do pensamento, que é divino.
Se tão alto imagino
que de vista me perco — peco nisto —,
desculpa-me o que vejo;
que se, enfim, resisto
contra tão atrevido e vão desejo,
faço-me forte em vossa vista pura,
e armo-me de vossa fermosura.

Das delicadas sobrancelhas pretas
os arcos, com que fere, Amor tomou,
e fez a linda corda dos cabelos;
e, porque de vós tudo lhe quadrou,
dos raios desses olhos fez as setas
com que fere quem alça os seus, a vê-los.
Olhos, que são tão belos,
dão armas de vantagem ao Amor,
com que as almas destrui;
porém, se é grande a dor,
co a alteza do mal a restitui;
e as armas com que mata são de sorte
que ainda lhe ficais devendo a morte.

Lágrimas e suspiros, pensamentos,
quem deles se queixar, fermosa Dama,
mimoso está do mal que por vós sente.
Que maior bem deseja quem vos ama
que estar desabafando seus tormentos,
chorando, imaginando docemente?
Quem vive descontente
não há-de dar alívio a seu desgosto,
por que se lhe agradeça;
mas com alegre rosto
sofra seus males, para que os mereça;
que quem do mal se queixa, que padece,
fá-lo porque esta glória não conhece.

De modo que, se cai o pensamento
em algũa fraqueza, de contente
é porque este segredo não conheço:
assi que com razões, não tão-somente
desculpo ao Amor de meu tormento,
mas ainda a culpa sua lhe agradeço.
Por esta fé mereço
a graça, que esses olhos acompanha,
o bem do doce riso;
mas, porém, não se ganha
cum paraíso outro paraíso.
E assi, de enleada, a esperança
se satisfaz co bem que não alcança.

Se com razões escuso meu remédio,
sabe, Canção, que, porque não vejo,
engano com palavras o desejo.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Na Fonte Está Lianor



Poema: Luís de Camões (cantiga em redondilha maior) (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Baladas e Canções", Ofir/Discoteca Santo António, 1964, reed. EMI-VC, 1997, EMI, 2012)




Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]

Nisto estava Lianor
o seu desejo enganando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]

O rosto sobre ũa mão,
os olhos no chão pregados, [3x]
que, de chorar já cansados,
algum descanso lhe dão. [3x]

[instrumental / vocalizos]

Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios da RTP, Monte da Virgem - Vila Nova de Gaia
Remasterização e restauro digital – Paulo Jorge Ferreira



Na fonte está Lianor

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 812-813)


          MOTE ALHEIO

Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando,
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor?

          VOLTAS

Posto o pensamento nele,
porque a tudo o amor obriga,
cantava, mas a cantiga
eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
o seu desejo enganando,
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre ũa mão,
os olhos no chão pregados,
que, de chorar já cansados,
algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
suspende de quando em quando
sua dor; e, em si tornando,
mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
que não quer que a dor se abrande
amor, porque, em mágoa grande,
seca as lágrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
soube, novas perguntando,
de improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!



CANÇÃO II



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
— suaves, se duraram longamente —,
direi, por dar à vida algum sossego;
que pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.
E se o passado bem co mal presente
me endurece a voz no peito frio,
o grande desvario
dará de minha pena sinal certo;
que um erro, em tantos erros, é concerto.
E pois nesta verdade me confio
— se verdade se achar no mal que digo —,
saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já co a Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Já Amor fez leis, sem ter comigo algũa;
já se tornou, de cego, arrazoado,
só por usar comigo sem-razões.
E se em algũa cousa o tenho errado,
com siso grande dor não vi nenhũa,
nem ele deu sem erros afeições.
Mas, por usar de suas isenções,
buscou fingidas causas por matar-me;
que, para derrubar-me
no abismo infernal de meu tormento,
não foi soberbo nunca o pensamento,
nem pretende mais alto alevantar-me
daquilo que ele quis; e se ele ordena
que eu pague seu ousado atrevimento,
saiba que o mesmo Amor, que me condena,
me fez cair na culpa e mais na pena.

Os olhos que eu adoro, aquele dia
que desceram ao baixo pensamento,
n'alma os aposentei suavemente;
e pretendendo mais, como avarento,
o coração lhe dei por iguaria,
que a meu mandado tinha obediente.
Porém, como ante si lhe foi presente
que entenderam o fim de meu desejo,
ou por outro despejo,
que a língua descobriu por desvario,
de sede morto estou posto num rio,
onde de meu serviço o fruto vejo;
mas logo se alça, se a colhê-lo venho,
e foge-me a água, se beber porfio.
Assi que em fome e sede me mantenho:
não tem Tântalo a pena que eu sustenho.

Despois que aquela em quem minh'alma vive
quis alcançar o baixo atrevimento,
debaixo deste engano a alcancei:
a nuvem do contino pensamento
ma afigurou nos braços, e assi a tive,
sonhando o que acordado desejei.
Porque a meu desejo me gabei
de alcançar um bem de tanto preço,
além do que padeço,
atado em ũa roda estou penando,
que em mil mudanças me anda rodeando,
onde, se a algum bem subo, logo deço.
E assi ganho e perco a confiança;
e assi de mi fugindo, trás mi ando;
e assi me tem atado ũa vingança,
como Ixião, tão firme na mudança.

Quando a vista suave e inumana
meu humano desejo, de atrevido,
cometeu, sem saber o que fazia,
(que de sua beleza foi nacido,
o cego Moço que, co a seta insana,
o pecado vingou desta ousadia),
e afora este mal que eu merecia,
me deu outra maneira de tormento:
que nunca o pensamento,
que sempre voa dũa a outra parte,
destas entranhas tristes não se farte,
imaginando sobre o famulento,
quanto mais come, mais está crecendo,
por que de atormentar-me não se aparte;
assi que para a pena estou vivendo,
sou outro novo Tício, e não me entendo.

De vontades alheias, que roubava,
e que enganosamente recolhia
em meu fingido peito, me mantinha.
De maneira o engano lhe fingia
que, depois que a meu mando as sojugava,
com amor as matava, que eu não tinha.
Porém, logo o castigo que convinha
o vingativo Amor me fez sentir,
fazendo-me subir
ao monte da aspereza que em vós vejo,
co pesado penedo do desejo,
que do cume do bem me vai cair.
Torno a subi-lo ao desejado assento;
torna a cair-me; embalde, enfim, pelejo.
Não te espantes, Sísifo, deste alento,
que às costas o subi do sofrimento.

Dest'arte o sumo bem se me oferece
ao faminto desejo, por que sinta
a perda de perdê-lo mais penosa.
Como o avaro a quem o sonho pinta
achar tesouro grande, onde enriquece
e farta sua sede cobiçosa
e, acordando, com fúria pressurosa
vai cavar o lugar onde sonhava,
mas tudo o que buscava
lhe converte em carvão a desventura;
ali sua cobiça mais se apura,
por lhe faltar aquilo que esperava;
dest'arte Amor me faz perder o siso.
Porque aqueles, que estão na noite escura,
nunca sentirão tanto o triste abiso,
se ignorarem o bem do Paraíso.

Canção, nõ mais, que já não sei que digo;
mas por que a dor me seja menos forte,
diga o pregão a causa desta morte.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Endechas a Bárbara Escrava



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, ree. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Endechas a Bárbara Escrava

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 770-771)


          Endechas a ũa cativa
          com quem andava d'amores na Índia,
          chamada Bárbara.

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Ũa graça viva,
que neles lhe mora,
pera ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.



CANÇÃO III



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ũa suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.

A manhã bela e amena,
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
branda, suave, angélica, serena.
Oh, deleitosa pena!
Oh, efeito de Amor tão preeminente!
Que permite e consente
que onde quer que me ache, e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura.

A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.

Assim como acontece
a quem a cara vida está perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algũa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora,
a esta alma que em vós mora
(enquanto da prisão se está apartando)
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Oh, ditosa partida!
Oh, glória soberana, alta e subida!
Se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida.

Porém, a Natureza,
que nesta vista pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado,
ou vós, onde ele vive tão isento,
que causastes tão longo apartamento,
porque perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso,
(um homem sou só, de carne e osso),
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso.

Canção de cisne, feita na hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura
já me impede o dia.


* Gravado por Vasco Pimentel, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Verdes São os Campos



Poema: Luís de Camões (cantiga em redondilha menor) (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Traz Outro Amigo Também", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




[instrumental]

Verdes são os campos,
da cor de limão:
assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração;
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Verdes são os campos,
da cor de limão:
assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.


* José Afonso – voz
Carlos Correia (Bóris) – viola
Luís Filipe Sousa Colaço – 2.ª viola
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Verdes são os campos

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 807-808)


          MOTE ALHEIO

Verdes são os campos,
de cor de limão:
assi são os olhos
do meu coração.

          VOLTAS

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
d'ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Gados, que pasceis,
co contentamento
vosso mantimento
não no entendeis:
isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.



Capa da primeira edição das "Rimas", de Luís de Camões, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita (Lisboa, 1595)



Capa do CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)
Concepção por Cristina Reis

_________________________________

Artigos relacionados:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)

01 junho 2017

Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"



Assinalamos este Dia Mundial da Criança apresentando a belíssima canção "Os Ponteirinhos", por Júlio Pereira com Sara Tavares, retirada do álbum "Faz de Conta" (2003). É apenas um exemplo entre o muito repertório de excelente qualidade (cantigas, músicas instrumentais, poemas ditos e histórias contadas) que até hoje se gravou em Portugal [cf. "A infância e a música portuguesa"], mas que – e infelizmente – perde em visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) para a abundante ganga que se produz (e propagandeia nas televisões) para consumo do público infantil.
Nesse esforço de divulgação do que de melhor existe, a estação pública podia (e devia) desempenhar um papel fulcral, mas só a 19 de Setembro de 2016 é que surgiu uma rádio online vocacionada para as crianças, chamada ZigZag.
Porém, não chega! É importante que haja no espaço hertziano um programa regular – diário ou semanal – que dê às crianças que não têm internet em casa a oportunidade de ouvirem as histórias, os poemas, as cantigas e as peças instrumentais que artistas de mérito gravaram especialmente para elas. E qual a rádio mais indicada para acolher esse programa? A Antena 3, evidentemente!



Os Ponteirinhos



Letra e música: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* com Sara Tavares (in CD "Faz de Conta", EMI-VC, 2003)


[instrumental]

Tic-tac, tic-tac,
Martelinhos maneirinhos.
Tic-tac, tic-tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

Diz "bom dia!" ao tic-tac!
Abre os olhos fechadinhos!
Vai p'rá escola! Tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]

[instrumental / vocalizos]

Boa tarde, tic-tac!
Vai brincar aos adivinhos!
E cansados, cansadinhos,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

[instrumental / vocalizos]

Boa noite, tic-tac!
Vai sonhar com os moinhos!
Lá no escuro, tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]

Tic-tac, vão dançando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

[instrumental / vocalizos]


* Júlio Pereira – instrumentação e voz
Convidada especial:
Sara Tavares – voz
Participação especial de:
Simão e Julinha – vozes
Conceito original e produção – Júlio Pereira
Assistente de produção – João Luís Oliva
Programação, sintetizadores, mistura e masterização – Quico Serrano
Gravado e misturado em 2002



Capa do CD "Faz de Conta", de Júlio Pereira (EMI-VC, 2003).


Artigo relacionado:
A infância e a música portuguesa

24 maio 2017

Em memória de Baptista-Bastos (1934-2017)



Defendo a tese de que o jornalismo é uma disciplina superior da literatura e que a reportagem, a crónica e a entrevista são géneros literários.
A primeira reportagem da nossa História é a carta de Pêro Vaz de Caminha, com as novas do achamento do Brasil, que ele escreveu para D. Manuel I.

                    BAPTISTA-BASTOS


Jornalista, romancista e ensaísta, Armando Baptista Bastos nasceu no bairro da Ajuda, em Lisboa, a 27 de Fevereiro de 1934.
Estudou na Escola Industrial de Arte Aplicada António Arroyo (denominada, a partir de 1948, Escola de Artes Decorativas António Arroio) e aprendeu francês no pólo do Beco do Tijolo (junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara) do Liceu Francês Charles Lepierre.
Na pré-adolescência, ao mesmo tempo que ganhava o gosto pela leitura, Baptista-Bastos foi aprendiz de diversos ofícios: tipógrafo, torneiro mecânico, marceneiro, empregado de drogaria, empregado de confeitaria. «O meu pai tinha livros. Havia as coisas do Zola, peças tradicionais numa família de anarquistas, de comunistas, de socialistas. E havia as bibliotecas públicas. Começo a despertar para a leitura por causa do "Mosquito". Não eram os quadradinhos, mas o que lá estava escrito. Havia um homem, Rofer, que anos depois conheci como revisor do "Diário Popular", Roberto Ferreira. As histórias que ele escrevia é que talvez me tivessem despertado. Quando deixámos a Ajuda, fomos para a Rua da Bombarda, junto ao Largo do Intendente. Havia ali a biblioteca da Escola 1 ou 2. Eu atravessava a Almirante Reis, ia para lá e um homem chamado Freitas era o bibliotecário. Deu-me o Emilio Salgari. Foi a grande descoberta. E entretanto trabalhava. Fui aprendiz de droguista, trabalhei uma semana numa confeitaria. Foi importante para o meu conhecimento do mundo do trabalho, onde o trabalho é muito violento. Ia aos sítios pedir emprego – com calções! Trabalhei numa marcenaria que fazia tampos para máquinas de costura, uma coisa pesadíssima. Um dia puseram-me um daqueles carros-de-mão cheio daqueles tampos e demorei muito tempo a chegar à oficina, que era ali na Penha de França. E a minha madrasta [Baptista-Bastos perdeu a mãe aos seis anos de idade], uma mulher extraordinária, andou em Lisboa à minha procura. Apanhou-me, estava eu já esfalfado, já noite, quase a chegar à oficina. Insultou o homem de tudo: "O senhor faz isto a um garoto!" Também fui aprendiz de torneiro mecânico. Queria ter dinheiro para o cinema e para queijo fresco.» [entrevista concedida a Alexandra Lucas Coelho, in "Público: suplemento Ípsilon", 26-Jun-2007]
Influenciado pelo pai, tipógrafo, acaba por abraçar o jornalismo. «O meu pai foi fundador de jornais – pertenceu à equipa inicial do "Diário Popular" e do "Diário Ilustrado" mas antes disso tinha trabalhado no jornal "A Voz" (monárquico e católico) – e terminou a vida no jornal "O Século", como tipógrafo e chefe das tipografias. Eu era órfão de mãe, o meu pai fizera 35 anos, não tinha onde deixar-me e levava-me para o trabalho, onde todos me tratavam com carinho. É a partir daí que germina a vocação de escrever. Com 14 anos, comecei a escrever na página infantil do "Diário Popular", dirigida pelo José de Lemos, que criava histórias para crianças de uma forma admirável e era um desenhador prodigioso, talvez o maior do segundo modernismo. Comecei em miúdo a escrever para miúdos, mas as minhas histórias possuíam uma conexão social, eram histórias de meninos dos bairros pobres, que se me impunham sem eu as procurar. Mais tarde descobri o porquê: terá sido a circunstância de eu ter vivido sempre em bairros populares e de ter uma relação muito sentimental com a pobreza e com a miséria. Ainda hoje, ao ver na televisão miúdos com fome e desempregados de 40 e 50 anos, digo-te, é uma coisa que me comove muito e que se acentuou com a idade... Eu acho que a idade desperta certas cordas sentimentais e uma atenção emocionada para essas coisas, para o sofrimento dos outros. Foi o João Paulo Guerra quem escreveu um dia que eu toda a vida tinha feito reportagens com lágrimas nos olhos. Penso que é verdade. A páginas tantas, tive a presunção de ser a voz daqueles que a não tinham. E tive a sorte de poder escrever isso de várias maneiras... Ainda há tempos – quando me homenagearam pelos meus 50 anos de actividade literária e jornalística – o Adelino Gomes, que tem uma série de recortes de reportagens minhas (nem eu as tenho!) leu uma que me emocionou até às lágrimas. E perante um auditório de 400 pessoas, ele disse uma coisa muito bonita: "A partir de uma certa altura, o Baptista-Bastos já não era o jornalista, era o jornalismo português!"». [entrevista concedida a Avelino Rodrigues, in http://perfildojornalista.eusou.com/].
À secção infantil do "Diário Popular", segue-se o semanário "Cartaz" para o qual escreve reportagens sobre casas assombradas e, pouco depois, muda-se para a prestigiada revista "O Século Ilustrado", na qual vem a assinar uma coluna de crítica, "Comentário de Cinema", evidenciando um estilo jornalístico inovador, polémico e polemizante. «O "Cartaz" era um jornalzinho semanal de um grupo de amigos feito na tipografia do "Diário Popular". (Faziam-se jornais com muito pouco dinheiro, naquela altura... e ganhava-se também muito pouco). O chefe de redacção era um jornalista chamado Armindo Blanco, que nos anos 40/50 era um grande talento, um grande crítico cinematográfico. Pois eu comecei a fazer aí umas reportagens sobre casas mal-assombradas – tinha para aí os meus 17 anos, a picar os 18 – e as minhas casas mal-assombradas tiveram uma certa repercussão na época, até que a Censura começou a cortar, vá-se lá saber porquê (vejo hoje que as casas mal-assombradas no fundo podiam ser uma metáfora do Portugal daquele tempo). Aquilo começou a chatear-me. O Armindo Blanco já tinha saído para o grupo "Século" dos Pereira da Rosa, e é nessa altura que recebo um convite para trabalhar, como colaborador, na revista "O Século Ilustrado", de que o Redondo Júnior era chefe de redacção. Estava lá todos os dias mas recebia à peça. Eu aí começo também a fazer um determinado tipo de reportagem social, tanto quanto era possível fazer na época [inícios da década de 50]. Depois, o Armindo Blanco vai para o Brasil e eu substituo-o nos comentários de cinema, enquanto o Redondo Júnior escrevia sobre teatro. Aquilo que eu fazia não era nada uma crítica de cinema, aquilo era uma tribuna política. Estava-se em pleno McCarthismo, a perseguição aos cineastas americanos e isso servia-me de pretexto para discretear sobre a inexistência de democracia nos Estados Unidos.» [ibidem]
A notoriedade que esse trabalho lhe dá abre-lhe as portas do próprio jornal "O Século", que era comummente considerado a grande universidade do jornalismo em Portugal, e aí vem a adquirir elevado traquejo no mister de jornalista. «Em 1952, sou chamado pelo chefe de redacção do jornal "O Século", o Acúrcio Pereira, figura lendária do jornalismo. Eu nunca tinha entrado na redacção do jornal, mesmo trabalhando no mesmo edifício. Aquilo metia respeito, uma catedral do jornalismo (como lhe chamou o Zambujal). Então, o Acúrcio diz-me que o sr. Rosa e o sr. dr. Guilherme – era assim que se falava do velho magnata João Pereira da Rosa e do filho que lhe sucedeu como director – enfim, eles queriam-me na redacção do jornal. E pela primeira vez fui jornalista do quadro, com a categoria de redactor. Os Pereira da Rosa respeitavam o meu trabalho e entendiam-me, mesmo sabendo que eu era contra o regime e eles eram a favor. Aquilo era outra gente, hoje já não há patrões assim. [...] Eu fui muito bem acolhido n' "O Século". Toda a gente gostava de mim, de esquerda, de direita... Aliás, a redacção d' "O Século" era muito curiosa, porque tinha de tudo, era uma autêntica democracia. Tinha fascistas, monárquicos, comunistas, socialistas, anarquistas. A malta convivia admiravelmente. O Acúrcio nem sequer permitia qualquer quezília por motivos de ordem política – e as pessoas respeitavam isso. A gente saía dali às 3 ou 4 da madrugada, de maneira que a redacção era inundada, digamos assim, pelas grandes figuras do teatro e do fado. Eu recordo-me de ver lá o Villaret, que era muito amigo do Acúrcio Pereira, chegava e começava a recitar para a redacção; recordo-me, por exemplo de um cantador de fados, o Filipe Pinto, que ia lá com os guitarristas... E depois a gente mandava vir as ceias do "Arroz Doce", um restaurante ali perto. Levavam-nos lá um bacalhau com grelos e um vinho tinto e a gente estava ali até às tantas a conversar... [...] Deixavam-me trabalhar com a liberdade possível. Fui várias vezes ao estrangeiro em reportagem internacional, e fiz reportagem por todo o país. Acabei por ser expulso em 1960, porque me envolvi na "Revolta da Sé".» [ibidem]
Baptista-Bastos conta-nos qual era o seu papel na revolução e os termos em que veio a ser demitido do jornal, volvido mais de um ano: «Tinha 24 anos quando fui inscrever-me na campanha do Delgado em 1958, ali na Avenida da Liberdade. Foi aí que conheci o grande arquitecto Cassiano Branco, estava lá à porta da sede, todo careca, um homem temível. Eu era um miúdo desenvolto e ele gostou de mim e entusiasmou-me. A campanha deu no que deu... e, no começo de 59 sou convidado pelo Urbano Tavares Rodrigues – hoje já se pode dizer – a participar num golpe de Estado em preparação e que tinha todas as condições para triunfar – garantia ele – porque estavam envolvidos largos sectores do Exército, dos católicos e da sociedade civil. Lá vou eu... Qual era a minha função? Abrir as portas d' "O Século" aos revolucionários e preparar um artigo para a vitória, o artigo de fundo do jornal, que tinha por título um cacófato: "O triunfo da Revolução sem sangue". (Ainda tive muitos anos o original, depois perdi-o, deve estar aí, não sei onde...) Estava tudo previsto para 12 de Março desse ano de 1959. A certa altura da noite, devia chegar o Urbano com os seus amigos, para tomar conta do jornal, eu iria falar com os tipógrafos, estava tudo aparentemente preparado... Mas o golpe falhou. Acabei por ser denunciado por uma das três pessoas que tentara aliciar na redacção (não digo o nome, porque já morreu e essas coisas eu perdoei, enfim...). E passado um ano, vejam bem, cai-me em cima o Carmo e a Trindade: no dia 10 de Abril de 1960, estava a substituir n' "O Século Ilustrado" o Redondo Júnior que tinha ido aos Estados Unidos, saí para ir beber um café na Brasileira e, quando volto, estava tudo à minha procura e uma telefonista chamada Madalena disse-me: "Olhe que os patrões estão reunidos e estão à sua espera!". Eu não fazia a mínima ideia do que era... sou chamado, vejo aquela gente toda com cara de caso, os patrões, com excepção do velho João Pereira da Rosa, enfim, os Pereira da Rosa todos, o Guilherme e o Carlos Alberto, os tios e o sobrinho. E depois perguntam-me: "Então você esteve metido numa coisa destas?" E eu: "Sim, quer dizer, eu não concordo com esta política portuguesa, com a Censura, eu tenho viajado pelo estrangeiro, lá fora gosto daquilo... e tal... e quando volto a Portugal sinto uma angústia terrível e então..." Nisto, o Carlos Alberto Pereira da Rosa, que era um homem admirável, cuja memória eu venero e respeito, acho até que era meu amigo, quis dar-me uma 'abébia' diante dos outros, que estavam todos em silêncio: "Bem, isso já se passou praticamente há um ano! Em idênticas circunstâncias o que é que você faria hoje?" E eu: "Faria exactamente o mesmo!". E ele, pesaroso, estendendo-me a mão: "Tenho muita honra em apertar-lhe a mão, você portou-se como um homem, tenho muita pena mas tenho de o despedir, e muito obrigado por ter trabalhado n' "O Século". Assim...» [ibidem]
A justificação dada à polícia política para o despedimento seria, no entanto, outra. «Felizmente não fui preso. Por uma circunstância que só agora conto, pela primeira vez, acho eu: quando a PIDE foi ao "Século" perguntar aos patrões porque é que eu tinha sido corrido (porque eles suspeitavam que havia qualquer coisa), o Carlos Alberto, o Guilherme Pereira da Rosa e o Henrique Pavão disseram: "Foi por uma causa interna, é que ele publicou umas coisas sobre o Fidel Castro". E a verdade é que n' "O Século Ilustrado" tinha saído uma série de fotografias com o Fidel Castro a ler "L'Esprit des Lois" de Montesquieu e... bem, eu tinha mandado aquilo para as máquinas sem ir à Censura. E eles arranjaram esse pretexto. Mas a PIDE andava atrás de mim e eu, que estava habituado à cervejaria "Ribadouro" todas as noites, deixei de frequentar lugares públicos e isolei-me. Até que um dia o Fernando Curado Ribeiro, velho companheiro das noitadas no "Ribadouro", está a conversar comigo na casa dele, "Espera aí um bocadinho!", apaga as luzes todas, chama-me à janela: "Estás a ver aquele carro, lá em baixo? Está todas as noites à tua espera". Durante uns tempos andei a saltar por quartos alugados e depois o Fernando Lopes, este que é realizador de cinema, indicou-me um quarto na Avenida de Roma, num andar que pertencia a uma tia dele. E pronto, foi assim... com alguns anos de desemprego.» [ibidem]
Nesse tempo de semi-clandestinidade, o ganha-pão de Baptista-Bastos é a tradução de livros, e pondera seriamente emigrar, até que recebe um convite de todo inesperado: ser redactor de notícias na RTP. «Vivia a traduzir livros. E um dia o Fernando Lopes disse-me que havia uma pessoa que queria falar comigo. Fomos almoçar ao Parque Mayer e aparece o Manuel Figueira, que eu não conhecia de todo. Era o director de Informação da televisão. E diz-me assim: "Nós sabemos que você se prepara ou se preparou para sair do país. Mas você não quer ficar? Olhe lá, você quer fazer os noticiários da televisão neste período das férias?" Como não podia receber o vencimento em meu nome, arranjou-se um pseudónimo. Na RTP, eu era o Manuel Trindade. E lá fui fazer as notícias internacionais: pegava na "Visnews", eles mandavam os 'dop-sheets' em inglês e eu traduzia aquilo com um cronómetro na mão. E fiz uns testes que correspondiam mais ou menos às características vocais de cada um dos locutores que leriam a minha prosa. Criei com todos uma grande simpatia: com o Fialho [Fialho Gouveia], com o Gomes Ferreira, com o Henrique Mendes, com o Manuel Caetano (que era irmão do Marcelo Caetano). Depois acabou aquilo tudo, o Manuel Figueira foi afastado...» [ibidem]
Nessa fase da sua vida, Baptista-Bastos escreveu também textos para documentários realizados por Fernando Lopes ("Cidade das Sete Colinas", "Os Namorados de Lisboa", "Este Século Em Que Vivemos") e por Baptista Rosa ("O Forcado", 1965, com fotografia de Augusto Cabrita e música de Miles Davis – "Scketchs of Spain").
Em Fevereiro de 1962, vai com Fernando Lopes para a Ericeira, a fim de fazer, durante um mês, a adaptação para cinema do romance "Domingo à Tarde", de Fernando Namora. É nesse retiro que escreve o seu primeiro livro de ficção, o romance "O Secreto Adeus". «Em 1959 e 1962 publiquei dois ensaios: "O Cinema na Polémica do Tempo" e "O Filme e o Realismo". A seguir é que descobri a ficção. Eu estava desempregado, não podia trabalhar nos jornais, por ter sido despedido d' "O Século", como já disse. Estava próximo do Fernando Lopes e o Baptista Rosa convidou-nos para fazer a adaptação cinematográfica de "Domingo à Tarde", do Fernando Namora. Eu já tinha trabalhado no cinema com o Lopes e, mais tarde, haveríamos de fazer o "Belarmino" [1964]. Como eu dizia, o Baptista Rosa contratou-nos aos dois e instalou-nos na Ericeira, por um mês, para escrever o guião. Acabámos por fazer aquilo em dez dias e eu resolvi aproveitar os vinte dias que restavam para escrever um livro. De regresso a Lisboa, mostrei o original ao meu querido amigo Carlos de Oliveira e ele não esteve com meias-medidas: "Você vai publicar isto imediatamente!". Assim nasceu "O Secreto Adeus", livro de denúncia do jornalismo que se praticava na época, com uma trama agressiva, a que não faltava o sexo e a aventura e aquele romantismo do jornalista na noite lisboeta. O nosso "Domingo à Tarde" ficou na gaveta (mais tarde o António de Macedo fez o filme com outro guião) mas "O Secreto Adeus" teve um êxito fulgurante, já fez quase uma dezena de edições e ainda hoje é lido, sobretudo pelas camadas jovens.» [ibidem]
Impedido de continuar a trabalhar na RTP, por ordem expressa do director do Secretariado Nacional de Informação, César Moreira Baptista («Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»), Baptista-Bastos fica mais uma vez desempregado, passando sazonalmente pela redacção da agência France Press, em Lisboa.
Em meados de 1963, ingressa no jornal "República". Em finais de Março de 1964, desloca-se ao Brasil, como secretário do actor Raul Solnado, que tinha sido contratado pela TV Rio (antecessora da TV Record). A sua chegada coincide com o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, e as notícias que envia para aquele vespertino não passam no crivo da Censura.
Em 1965, é admitido noutro vespertino, o "Diário Popular", ao qual permanecerá ligado até 1988. Neste jornal, vem a publicar, no dizer de Afonso Praça, «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século». «Quando cheguei ao "Diário Popular", o Brás Medeiros [patrão e estratega do jornal] pôs-me logo à vontade: "Eu sei como que é que o senhor pensa, sei onde é que esteve metido e vou dizer-lhe uma coisa: os patrões nunca lhe vão cortar uma linha – mas se a Censura cortar, isso é um problema seu e da Censura.". E foi assim mesmo. E nesta aventura do "Diário Popular" passei eu 23 anos! Viajei por mais de trinta países, escrevi sobre tudo e em todos os géneros, desde as notícias do dia aos artigos de fundo. Uma vez, em 1968, mandaram-me em serviço à Alemanha Ocidental, eu aproveitei e dei um saltinho à RDA comunista, clandestinamente. De regresso, achei que devia contar-lhes. E o Brás Medeiros: "Já escreveu?". Ele disse isto com uma severidade no olhar que eu sabia interpretar. Nunca tinha pensado falar da RDA, mas fui a correr e escrevi a reportagem, mandei-a para a tipografia e ele enviou o artigo para a Censura. Eles retiveram as provas uma data de tempo, até que um dia entra ele na redacção e pergunta: "As palavras do Bastos? Ainda não vieram? Há quanto tempo estão lá?". Quando lhe disseram que o meu artigo já estava demorado dez dias, ele agarrou no telefone, ligou para o coronel Galvão, que era um dos grandes da Censura, e disse: "Eu mandei o Baptista-Bastos à RDA, mandei-o escrever a reportagem, eu li a reportagem dele, é uma reportagem rigorosa e, se as provas não estiveram cá dentro de duas horas, amanhã mete artigo de fundo, porque eu digo ao Prof. Martinho Nobre de Melo que quem mandou escrever o artigo fui eu, quem manda na minha casa sou eu!". Um quarto de hora depois estavam lá as provas, aprovadas. Hoje em dia já não há histórias destas, já ninguém faz isto por ninguém. E também é o retrato da época em que havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista. E isso verificou-se em vários jornais, tem piada, no "Jornal do Comércio" do Fausto Lopes de Carvalho, n' "O Século" dos Pereira da Rosa, no "Diário de Lisboa" dos Ruella Ramos.» [ibidem]
Baptista-Bastos pertenceu, também, aos corpos redactoriais de outros jornais e revistas: "O Diário", "Europeu", "Almanaque", "Seara Nova", "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Época" e "Sábado".
Foi um dos fundadores do semanário "O Ponto", que teve existência efémera (inícios dos anos 80), no qual publicou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época, posteriormente coligidas no volume "O Homem em Ponto" (1984).
Em 1999, no âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Revolução dos Cravos, a direcção do "Público" convidou-o a realizar dezasseis entrevistas, subordinadas ao tópico "Onde É Que Você Estava no 25 de Abril?", as quais desencadearam alguma polémica e constituíram um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-ROM (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), distribuído juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele matutino.
Na mesma ocasião, a convite da direcção do "Diário de Notícias", Baptista-Bastos teve também a seu cargo o enquadramento do capítulo "O Efémero", da edição especial "O Milénio", iniciativa do mesmo jornal.
Como cronista e crítico, colaborou nos mais diversos órgãos da imprensa diária ou periódica: "Jornal de Notícias", "A Bola", "Tempo Livre", "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", "Expresso", "Jornal do Fundão", "Correio do Minho", "Diário Económico", "Diário de Notícias", "Jornal de Negócios" e "Correio da Manhã".
A crónica radiofónica também não lhe escapou, tendo lido aos microfones da Antena 1 e da Rádio Comercial as suas sempre avisadas reflexões sobre casos e episódios da vida pública portuguesa. Na TSF - Rádio Jornal, foi o primeiro comentador da popular rubrica "Crónicas de Escárnio e Maldizer". Antes, em 1970, a convite de Carlos Cruz, gravara um EP com quatro crónicas, musicalmente ilustradas por António Victorino d'Almeida, que foi apreendido pela PIDE.
Em 1990, Baptista-Bastos foi um dos entrevistadores do Prof. Agostinho da Silva, na memorável série "Conversas Vadias" (RTP-1) e, a partir de Novembro de 1996 até Janeiro de 1998, manteve nas noites da SIC o programa "Conversas Secretas", no qual entrevistou uma vasta galeria de pessoas célebres (e menos célebres) oriundas dos mais variados sectores da sociedade portuguesa. Retomou a realização de entrevistas para o canal SIC-Notícias, no programa "Cara-a-Cara", de Janeiro a Agosto de 2001.
No campo da ficção, após o já referido "O Secreto Adeus", publicou os seguintes romances: "O Passo da Serpente" (1965); "Cão Velho entre Flores" (1974), «obra das mais fortes e belas da literatura portuguesa deste século», nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues; "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura" (1981), que Óscar Lopes considerava «o livro dos livros novelísticos da sua geração, senão de toda a literatura portuguesa de aquém 1950»; "Elegia para um Caixão Vazio" (1984), "A Colina de Cristal" (1987), galardoado com o Prémio Literário Município de Lisboa e com Prémio P.E.N. Clube Português de Narrativa; "Um Homem Parado no Inverno" (1991); "O Cavalo a Tinta-da-China" (1995); "No Interior da Tua Ausência" (2002), agraciado com o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários; e "As Bicicletas em Setembro" (2007).
Baptista-Bastos está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês.
Muitas das suas crónicas e entrevistas estão publicadas em livro. Um desses títulos, "As Palavras dos Outros" (1969), é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão», na opinião de dois dos seus pares, Adelino Gomes e Fernando Dacosta, respectivamente, tendo sido recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.
Entre os numerosos prémios que recebeu, na qualidade de jornalista ou de ficcionista, contam-se: Prémio Feira do Livro (1966), Prémio Artur Portela da Casa da Imprensa (1978), Prémio Nacional de Reportagem/Prémio Gazeta do Clube de Jornalistas (1985), Prémio Casa da Imprensa (1986), Prémio "O Melhor Jornalista do Ano" (1980 e 1983), Prémio Porto de Lisboa (1988), Prémio Gazeta de Mérito do Clube de Jornalistas (2004), Prémio de Crónica João Carreira Bom da Sociedade de Língua Portuguesa (2006) e Prémio Alberto Pimentel do Clube Literário do Porto (2006).


BIBLIOGRAFIA ACTIVA:

Ensaio, crónicas e entrevistas:
- O Cinema na Polémica do Tempo (ensaio), Lisboa: Gomes & Rodrigues, Lda., 1959
- O Filme e o Realismo (ensaio), Lisboa: Arcádia, 1962; Porto: Nova Crítica, 1979
- As Palavras dos Outros (crónicas, reportagens e entrevistas), Mem Martins-Sintra: Publicações Europa-América, 1969; Lisboa: Círculo de Leitores, 2000
- O Sinal do Tempo (4 crónicas lidas), música de António Victorino d'Almeida, Lisboa: Zip-Zip, 1970 [EP]
- Cidade Diária (crónicas), Editorial Futura, 1972
- Capitão de Médio Curso (crónicas), Lisboa: Editorial Caminho, 1977
- O Homem em Ponto: Entrevistas, Lisboa: Relógio d'Água, 1984
- O Nome das Ruas (monografia), em colaboração com António Borges Coelho, fot. José Antunes, Lisboa: Câmara Municipal / Livros Horizonte, 1993
- José Saramago: Aproximação a um Retrato (biografia), Lisboa: Publicações Dom Quixote / Sociedade Portuguesa de Autores, 1996
- Fado Falado (26 entrevistas), pref. José Saramago, fot. José Santos, Alfragide-Amadora: Ediclube, 1999
- Onde É Que Você Estava no 25 de Abril? (12 entrevistas), Lisboa: Público, 1999 [CD-ROM]
- Retratos para Aquilino (monografia), textos de Mário Soares, José Saramago, Vasco Graça Moura, José Manuel Mendes, António de Almeida Santos, Eduardo Lourenço, Luísa Costa Gomes, Urbano Tavares Rodrigues, Baptista-Bastos, Jorge Reis e Luiz Francisco Rebello; desenhos por José Rodrigues, Alberto Péssimo, Fernando Lanhas, Maria Keil, João Abel Manta, Fernando de Azevedo, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Emídio e Rogério Ribeiro. Paredes de Coura / Porto: Câmara Municipal de Paredes de Coura / Cooperativa Árvore, 2000
- Lisboa Contada pelos Dedos (crónicas), Lisboa: Montepio Geral, 2001; Lisboa: Círculo de Leitores, 2006 [Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores, 2003]
- A Cara da Gente: Prazeres, Devaneios, Invenções e Passeatas (crónicas), Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008
- Tempo de Combate (crónicas), Lisboa: Edições Parsifal, 2014

Poesia:
- Caminho e Outros Poemas (poesia), Lisboa: Edição do autor [Tipografia Gráfica Boa Nova], 1951

Ficção:
- O Secreto Adeus (romance), Lisboa: Portugália Editora, 1963; Porto: Edições Asa, 2001
- O Passo da Serpente (romance), Lisboa: Prelo, 1965; Porto: Edições Asa, 2001
- Cão Velho entre Flores (romance), Lisboa: Editorial Futura, 1974; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2011
- Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (romance), Lisboa: Forja, 1981; Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008
- Elegia para um Caixão Vazio (romance), Lisboa: O Jornal, 1984; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2009
- A Colina de Cristal (romance), Lisboa: O Jornal, 1987; Porto: Edições Asa, 2000 [Prémio Literário Município de Lisboa, 1987, e Prémio P.E.N. Clube Português de Narrativa, 1988]
- Um Homem Parado no Inverno (romance), Lisboa: O Jornal, 1991; Porto: Edições Asa, 2001
- O Cavalo a Tinta-da-China (romance), Lisboa: Temas da Actualidade, 1995; Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008
- No Interior da Tua Ausência (romance), Porto: Edições Asa, 2002; Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 [Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, 2003]
- As Bicicletas em Setembro (romance), Porto: Edições Asa, 2007; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2010
- A Bolsa da Avó Palhaça (novela autobiográfica), ilustr. Mónica Cid, Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2007


BIBLIOGRAFIA PASSIVA:
- Letria, José Jorge. Conversas com Letras: Entrevistas com Escritores, Lisboa: O Escritor, 1994
- Marinho, Maria de Fátima. O Romance Histórico em Portugal, Porto: Campo das Letras, 1999
- Teles, Viriato. Contas à Vida: Histórias do Tempo Que Passa, Lisboa: Sete Caminhos, 2005 (http://www.viriatoteles.com/web/livros/contas-a-vida/239-baptista-bastos)


Qual foi a atitude da rádio pública quando se soube da morte de Baptista-Bastos?
Logo no dia do falecimento (9 de Maio), a Antena 2 recuperou duas entrevistas: uma feita por João Almeida, em 2008, para o programa "Quinta Essência" [>> RTP-Play], e outra realizada por Luís Caetano, em 2014, a propósito do lançamento do livro de crónicas "Tempo de Combate", para o programa "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play]. O meu aplauso!
E a Antena 1? Naquele dia, não acompanhei a emissão e, por isso, não posso testemunhar se o insigne jornalista e escritor foi, ou não, homenageado. E digo "homenageado" porque tal pressupõe algo mais do que dar a notícia do falecimento e anunciar o local onde vai decorrer o velório. Se a Antena 1 transmitiu algum programa em memória de Baptista-Bastos (por exemplo, uma entrevista), procedeu adequadamente; se o não fez, foi negligente e isso tem a reprovação dos ouvintes/contribuintes. Caso tenha havido programa, tal não dispensa, como é bom de ver, que se resgate do arquivo histórico as melhores crónicas que o emérito jornalista leu na mesma Antena 1, a fim de serem transmitidas ao ritmo de uma por dia, durante umas boas semanas. Fica a sugestão, na esperança de que não caia em saco roto!
Pela nossa parte, é com imenso orgulho que apresentamos o registo da interessantíssima entrevista que Baptista-Bastos concedeu a outro grande dos seus pares, Carlos Pinto Coelho, para o programa de rádio "Agora... Acontece!", emitido em Fevereiro de 2001.
Este tributo ficaria incompleto se não se pudesse apreciar a arte de entrevistar do próprio Baptista-Bastos, de viva voz. À falta de gravação radiofónica, deixamos o vídeo da "Conversa Vadia" com o Prof. Agostinho da Silva. Um regalo!


"Agora... Acontece!" N.º 117, de 26-Fev-2001



Baptista-Bastos entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 2':52'']



Baptista-Bastos entrevistando o Prof. Agostinho da Silva (Ep. 5 das "Conversas Vadias", RTP-1, 1990)



Capa da primeira edição do livro "As Palavras dos Outros" (Colecção "Prisma", Publicações Europa-América, 1969)



Capa da primeira edição do romance "Cão Velho entre Flores" (Editorial Futura, 1974)
Reprodução parcial do quadro inacabado "Die Braut" ("A Noiva"), 1917, de Gustav Klimt.
(http://www.klimt.com/en/gallery/late-works/klimt-die-braut-unvollendet-1917.ihtml)



Capa da primeira edição do romance "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura" (Forja, 1981)

13 maio 2017

Antena 1: uma emissora católica e apostólica? (II)



A exemplo do que se passou em Maio de 2010, aquando da visita de Bento XVI, a programação normal da Antena 1 foi totalmente elidida e substituída pela cobertura, ao milímetro e ao segundo, de todos os acontecimentos (e não acontecimentos) respeitantes à viagem que o papa Francisco acabou de fazer a Fátima. Creio que foi o próprio Jorge Bergoglio quem afirmou que vinha a Fátima como peregrino. Portanto, não se tratou de uma visita oficial do chefe de Estado do Vaticano a outro estado, no caso Portugal. Ora, sendo uma viagem de cariz estritamente apostólico, a rádio pública devia ter mais pudor e recato, em obediência ao seu estatuto de entidade laica, na cobertura do evento, cingindo-se ao que tivesse valor informativo real e objectivo para a generalidade dos cidadãos (nos intercalares noticiosos). Ao cobrir de modo intensivo, exaustivo e obsessivo tudo que era de índole meramente religiosa, designadamente as cerimónias litúrgicas na Cova da Iria, a Antena 1 comportou-se como se fosse a Rádio Renascença e isso merece o veemente repúdio de quem preza o livre-pensamento e não quer ser catequizado, como é o caso do escrevente destas linhas. E digo isto perfeitamente à vontade pois, apesar de ser agnóstico, até simpatizo com o homem que o colégio cardinalício elegeu (talvez por engano) para suceder a Joseph Ratzinger no trono pontifício.
A circunstância da maioria da população portuguesa ser (culturalmente) católica não valida a opção de quem manda na Antena 1. O Estado Português e todas as entidades da sua esfera não devem envolver-se nos assuntos da fé, porque se o fizerem, colocando-se ao lado de uma determinada confissão, estão inevitavelmente a dar a entender de que aquela é que é a verdadeira e a autêntica. Concomitantemente, os que professam outros credos e os que não têm credo algum recebem o estigma implícito de ímpios e degenerados mentais. A fé religiosa (ou a não-fé assumida em total liberdade de consciência) é do foro íntimo de cada um e jamais se poderá admitir que o Estado (que representa todos) tome partido por alguma.


Texto relacionado:
Antena 1: uma emissora católica e apostólica?

25 abril 2017

Miguel Torga: "Flor da Liberdade"



Neste aniversário (o quadragésimo terceiro) da eclosão da Revolução dos Cravos, que devolveu a Liberdade a Portugal, apresentamos o poema "Flor da Liberdade", de e por Miguel Torga. O texto veio a lume no ano de 1958, em plena autocracia salazarista, mas a mensagem não perdeu actualidade. Se "recusar", naquele tempo, significava contestar e resistir à opressão, hoje consiste em exercer plenamente a Liberdade. Deixar de exercê-la – por medo, comodismo ou apatia –, é abrir caminho ao despotismo de uns quantos sobre todos.

No caso concreto da rádio pública, quando os ouvintes não se revêem no serviço (ou falta dele) que lhes é apresentado, de que modo podem dar expressão à sua recusa? Duas vias se lhes oferecem: uma é desligar a sintonia e sem mais nada fazer, dando o caso como perdido; a outra é intervir civicamente no sentido da debelação das mazelas e, consequentemente, que o "doente" se torne um ente saudável e útil à sociedade, fazendo assim jus à nobre missão de serviço público que lhe cabe prestar: informar com isenção e pluralismo, cultivar e entreter com enlevo. Optámos pela segunda via e dela não nos iremos desviar, apesar do autismo com que nos temos deparado da parte dos decisores.
Reportando-nos à Antena 1, que é dos três canais de cobertura nacional o que se encontra, presentemente, em estado de maior enfermidade, apontamos três deficiências gritantes (por ordem crescente de importância):
  1. Ausência de uma rubrica diária de poesia tendo como âmbito os autores de língua portuguesa, seja na voz dos próprios, seja na de reputados recitadores;
  2. Ausência de teatro radiofónico, que foi durante muitos anos uma marca de excelência no serviço público de radiodifusão e que constitui um património de valor inestimável que urge resgatar;
  3. Falta de pluralismo estilístico e estético na lista de difusão musical de continuidade, vulgo 'playlist', e inerente exclusão de um extenso rol de artistas portugueses de reconhecida qualidade – que se traduz no obsceno favorecimento da produção pop e hip hop, a maioria da qual de baixíssimo quilate, e na criminosa marginalização de tudo o resto, mormente da música tradicional portuguesa e do valioso repertório dos cantautores.
    Podemos considerar razoável que, sob a alçada de um regime que se apregoa de democrático e pluralista, a pop e o hip hop desempenhem hoje na rádio estatal o mesmo papel que tinha o nacional-cançonetismo sob a vigência da ditadura?


FLOR DA LIBERDADE



Poema de Miguel Torga (in "Orfeu Rebelde", Coimbra: Edição do autor, 1958 – p.52-53; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 560)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)


Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós... Também nós... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 31 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital (CD) – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho