10 maio 2013

João Villaret: centenário do nascimento



Filho do médico Frederico Villaret e de D. Josefina Gouveia da Silva Pereira, João Henrique Pereira Villaret nasceu em Lisboa (no n.º 69 da rua da Boavista, freguesia de São Paulo), a 10 de Maio de 1913.
A vocação artística manifestou-se nele em tenra idade, mas não sem se deparar com algumas incompreensões e contrariedades. Primeiro foi a família que não levava a sério as suas exibições baléticas privadas, embora lhes achasse graça. Depois foi Miss Price, directora do Anglo-Portuguese College (à Calçada Marquês de Abrantes), que resolveu excluí-lo, à última hora, de uma récita escolar por alegada falta de jeito para representar o papel que lhe fora atribuído. Mas o triste episódio, em vez de o derrotar, teve o condão de reforçar a confiança em si mesmo, avivando-lhe o desejo de se tornar actor. Ele tinha de provar à professora e aos colegas que troçavam dele que sabia representar, e que fora uma injustiça a sua exclusão.
Concluída a instrução primária, ingressou no Liceu Passos Manuel, calhando-lhe em sorte uma professora, Amália de seu nome, que não demorará a devotar-lhe uma grande e incondicional admiração. Chamava-lhe, com muita ternura, "Frei João sem cuidados". E talvez por essa empatia, por esse reconhecimento das suas potencialidades, Villaret lia de tal maneira "Os Lusíadas" que a docente ficava rendida e nem se atrevia a sugerir qualquer alteração. Pelo precoce entendimento que tinha da poesia, e por se considerar a sua leitura tão exemplar, o jovem era enviado para as salas do 7.º ano (actual 11.º ano de escolaridade) a ensinar os colegas mais velhos como se devia ler o nosso grande épico.
Em 1928, ainda antes de completar quinze anos de idade, tomou a decisão de concorrer ao curso de representação dramática do Conservatório Nacional de Lisboa. Nas provas de admissão, recitou dois vilancetes e um soneto de Luís de Camões. «Recitei-os como eu os sentia e, no fim, o mestre, que era professor conceituado da casa, olhou-me com severidade e disse: "O menino tem boa voz, mas os versos não se dizem assim, mas como se fossem prosa". E eu, muito pespinete, nervoso e irritado, respondi: "Então por que é que são versos?" E o mestre: "O menino é insolente mas inteligente, está admitido."». Decorridos três anos, na noite de 16 de Outubro de 1931, João Villaret vem a estrear-se profissionalmente no Teatro Nacional D. Maria II, integrado na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, interpretando a figura de Fernão Lopes na peça "Leonor Teles", de Marcelino Mesquita. Assim se iniciava a gloriosa carreira do actor que, no entanto, não se confinaria ao drama e à alta comédia (Gil Vicente, Shakespeare, Molière, Almeida Garrett, Bernard Shaw, Eugene O'Neill, etc.). Villaret também nutria um especial apreço pelo teatro de revista, onde se veio a estrear em 1941, suscitando o escândalo daqueles que consideravam o género uma arte menor. Em 1947, para a revista "'Tá Bem ou Não 'Tá?", Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa (também conhecido por António Porto) escrevem-lhe o "Fado Falado" (sobre música de Francisco Paulo Menano), verdadeira peça de antologia da história da música e do teatro popular portugueses. Um recitativo sobre uma melodia de fado onde a letra, que jogava habilmente com a mitologia do género, era não cantada mas verdadeiramente "representada" por Villaret, que assim juntou ao cânone da música portuguesa mais um clássico. Outros êxitos vieram depois, como "Esta Vida É Um Corridinho" (1952, na revista "Lisboa Nova"), "Procissão" (1955, na revista "Melodias de Lisboa"), "Rosa Araújo" e "Santo António", os dois últimos criados na revista "Não Faças Ondas!" (1956).
Uma das representações bem paradigmáticas da sua enorme versatilidade e que mais fascinou o público foi, sem dúvida alguma, a peça "Esta Noite Choveu Prata", do brasileiro Pedro Bloch, levada à cena, em 1954, no Teatro Avenida. Aí desempenhou três papéis distintos (um em cada acto): Francisco Rodrigues – comerciante português; Pietro Bonardi – músico italiano; e Camilo – actor brasileiro. O crítico Fernando Fragoso afirmou a propósito desta extraordinária criação: «É de tal forma brilhante que os outros valores do espectáculo – embora para ele concorram – se diluem na sombra.».
Na sétima arte, participou nos seguintes filmes: "Bocage" (1936), de José Leitão de Barros, onde encarnou o príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI); "O Pai Tirano" (1941), de António Lopes Ribeiro, numa breve aparição como pedinte mudo; "O Violino do João" (1944), de José Braz Alves, no papel do russo Pedro Derminova; "Inês de Castro" (1945), de José Leitão de Barros, onde fez o bobo Martim; "Camões" (1946), também de Leitão de Barros, onde desempenhou o papel de D. João III; "Três Espelhos" (1947), co-produção luso-espanhola realizada por Ladisdao Vadja, como Inspector Moisés; "Frei Luís de Sousa" (1950), de António Lopes Ribeiro, onde encarnou o aio Telmo Pais, talvez o seu desempenho mais sublime no cinema; "A Garça e a Serpente" (1952), de Arthur Duarte, como Cristóvão de Miranda; e "O Primo Basílio" (1959), de António Lopes Ribeiro, no papel do bom Sebastião. No documentário "Mar Português" (1950), de João Mendes, recitou (em voz off) poemas de Luís de Camões, António Nobre, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa e Alberto Rebelo de Almeida.
Com uma sensibilidade invulgar e dotado de uma notável intensidade expressiva aliada a um inexcedível poder de comunicação, reabilitou a difícil arte de recitar poesia, prendendo a atenção do expectador, quer em sessões ao vivo (uma que realizou no Teatro de São Luiz seria editada em disco), quer através da televisão (aí se fazendo acompanhar, ao piano, pelo irmão Carlos Villaret). «Não digo versos; procuro reproduzir o momento de angústia, de alegria, de revolta que o poeta sentiu ao escrever o seu poema. Recitando, encontro a plena libertação, pois dou-me esse infinito gosto de interpretar aquilo que amo e que me tocou profundamente.» E Miguel Torga referiu-se-lhe nestes termos: «Nunca é demais agradecer a Villaret o que ele tem feito pela poesia. Os poetas devem-lhe uma espécie de requintada edição oral de alguns dos seus melhores versos; o público, esse resgata-se a ouvi-lo da preguiça que o afastava tragicamente dum convívio que nenhum oiro da terra pode suprir.»
O falecimento prematuro de João Villaret, no auge da glória, vítima de diabetes, a 21 de Janeiro de 1961, causou imensa consternação no país, de tal forma que, durante alguns anos, os lisboetas assinalavam o dia da sua morte com um recital de poesia no Cinema São Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz. Em sua homenagem, Raul Solnado deu ao teatro que, em 1965, abriu no n.º 30-A da Avenida Fontes Pereira de Melo (às Picoas) o nome de Teatro Villaret.
Não sendo muita extensa, a discografia que nos legou constitui um precioso testemunho da sua inigualável arte de dar voz (e alma) às palavras. Aqui se apresentam dois magníficos espécimes: o poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, e a cantiga "Santo António" (letra de Fernando Santos e música de João Nobre).
Antes, e evocando na mesma assentada dois eméritos entrevistadores e homens da rádio – Francisco Igrejas Caeiro e Carlos Pinto Coelho –, resgata-se a memória do programa "Agora... Acontece!" com duas edições exclusivamente consagradas a João Villaret.



"Agora... Acontece!" N.º 217, de 07-Abr-2003



- "Rosa Araújo" (José Galhardo / João Nobre), por João Villaret;
- "Menina Gorda", de Rui Ribeiro Couto, por João Villaret;
- Três poemas de Fernando Pessoa: "Dona Filipa", "Dom Diniz" e "O Mostrengo", por João Villaret;
- Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", 
emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Canção Grata", de Carlos Queiroz, por João Villaret;
- Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Fado Falado" (Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa / Francisco Paulo Menano), por João Villaret;
- "D. João VI e a Mulata" (Raimundo Calado / Armando da Câmara Rodrigues), por João Villaret;
- "Liberdade", de Fernando Pessoa, por João Villaret;
- "Esta Vida É Um Corridinho" (José Almeida Amaral, Fernando Santos e João Villaret / Frederico Valério), por João Villaret.



"Agora... Acontece!" N.º 466, de 02-Jun-2008



- "O Mostrengo", de Fernando Pessoa, por João Villaret;
- Entrevista com António Carlos Carvalho, autor do livro "João Villaret: Uma Biografia" (Ulisseia, 2008), entremeada com:
- "Essa Nêga Fulô", de Jorge de Lima, por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Toada de Portalegre", de José Régio, por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Esta Vida É Um Corridinho" (José Almeida Amaral, Fernando Santos e João Villaret / Frederico Valério), por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;

- "Fado Falado" (Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa / Francisco Paulo Menano), por João Villaret.



Capa do livro "João Villaret: Uma Biografia", de António Carlos Carvalho (Ulisseia, 2008)



TABACARIA



Poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (in "Presença", n.º 39, Coimbra: Jul. 1933; "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério duma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —, 
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá, eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Santo António


 
Letra: Fernando Santos (para a revista "Não Faças Ondas", 1956, Teatro Variedades)
Música: João Nobre
Intérprete: João Villaret* (in EP "João Villaret na Revista 'Não Faças Ondas'", Parlophone/EMI, 1956; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
 



Nos meus rogos, nos meus votos,
Peço a Deus, no Paraíso,
Que me dê muitos devotos,
De votos é que eu preciso!
 
Quero ver o povo unido
No meu lindo Portugal;
Quero-o junto, e não partido,
Na União Tradicional.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
Quem me engana ou contradita,
Aponto no meu caderno:
Vai com cartão de visita
P'ra as profundas do Inferno!
 
Dizem rivais meus opostos:
"Milagres são manigâncias!";
Meus milagres são impostos
Pela força das circunstâncias.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
No Céu vivo sossegado
Entre os meus queridos santinhos,
Constantemente incensado
E em volta só vejo anjinhos.
 
Com meus hábitos de frade,
Sempre a vista no chão posta;
É desta minha humildade
Que a Corte dos Santos gosta.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[instrumental]
 
Mas o dinheirinho
Não dou nem darei!


* Técnico de gravação – Hugo Ribeiro

Montagem digital (1991) – Miguel Gonçalves
URL: http://www.macua.org/biografias/joaovillaret.html
http://www.infopedia.pt/$joao-villaret
http://pauloborges.bloguepessoal.com/240111/TRIBUTO-A-JOAO-VILLARET/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Villaret
http://www.imdb.com/name/nm0898045/?ref_=tt_cl_t12
http://www.truca.pt/imaginario_material/imaginario300_309.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/103286.html
http://www.rtp.pt/play/p692/e116781/ha-conversa
http://jvillaret.com.sapo.pt/index.html
http://www.myspace.com/joaovillaret
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=1293
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/jo_o_villaret
http://www.lastfm.pt/music/Jo%C3%A3o+Villaret

 
[reeditado em 22-Mai-2013]

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