31 maio 2013

Em memória de Georges Moustaki (1934-2013)



«Vinha do tempo em que os animais falavam, se quisermos perceber a doçura que há nesta expressão e na ideia quando olhamos a música popular. Significa que era um dos pilares, um dos últimos guardiões de uma época em que as palavras em francês ainda tinham – passe a redundância – uma palavra a dizer na definição das regras da canção antes da hegemonia esmagadora do império anglo-americano. Mais: o homem era um dos exemplos da disponibilidade gaulesa para aceitar gente de fora entre os seus maiores. Basta lembrar que Henri Salvador veio da Guiana, Jacques Brel e Adamo eram belgas, Serge Reggiani e Yves Montand nasceram em Itália, Charles Aznavour pertence a uma família da Arménia, Dalida nasceu no Egipto. Tal e qual como o homem que aqui nos traz, filho de gregos judeus [de língua italiana], mais um dos talentos descobertos por Edith Piaf, admirador incondicional de Georges Brassens ao ponto de lhe ter pedido emprestado para sempre o nome próprio, a que juntou depois uma adaptação do apelido. Símbolo do Maio de 68, vagabundo incorrigível das canções: é de Georges Moustaki [de seu verdadeiro nome Giuseppe Mustacchi] que aqui se fala, ao mesmo tempo que nos lembramos de "Le Métèque" ou de "Ma Liberté", de "Milord" ou de "Il Faudra Mourir un Jour". E voltamos a concluir que este parceiro de barba e cabelos soltos, tantas vezes fotografado com a viola que o seguia para toda a parte, personificou o lado bom da globalização ao assumir sem preconceitos, e com todas as vantagens para quem o ouvia, a sua miscigenação cultural. Gravou em, pelo menos, meia-dúzia de idiomas – francês, italiano, castelhano, português, grego e árabe – e teve oportunidade de completar os cinquenta anos de carreira, até que uma insuficiência respiratória ditou o irreversível e amargo adeus aos palcos e aos estúdios. Antes de oferecer "Milord", um clássico, a Edith Piaf [1958], já tinha mergulhado nas causas e nas boémias parisienses, tendo chegado à cidade em 1951. Tinha dezassete anos. Acabaria por ser cantado por muitos dos grandes: de Salvador a Herbert Pagani, sem esquecer Barbara, Montand, Reggiani, Françoise Hardy ou a eterna Juliette Gréco, a mesma que sobre a sua morte deixou justas sentenças: "Georges possuía uma doçura infinita e imenso talento. Era, como todos os poetas, alguém diferente, porque acaba sempre por ser essa diferença que conduz ao talento". Colaborou com alguns dos seus músicos de eleição, de Astor Piazzolla a António Carlos Jobim. Deixa cerca de trezentas canções como bandeiras de um património em que a simplicidade sempre andou de braço dado com a convicção, tendo igualmente assinado adaptações memoráveis como, por exemplo, a do "Fado Tropical", de Chico Buarque, a que chamou simplesmente "Portugal". Usou-a para festejar a Revolução Portuguesa. Despediu-se de nós na última digressão em 2008, quando lançou o espantoso disco "Vagabond". Com ele, morto aos 79 anos, desaparece provavelmente o último de um grupo, mais do que de uma geração, de geniais autores, daqueles que usamos como faróis de nevoeiro nos dias cinzentos como os de agora. Dele disse Leo Ferré: "Georges sussurra onde eu grito, mas é a mesma coisa". Ferré sabia o que dizia: depois de "Avec le Temps" não há canção maior sobre a erosão e o desgaste do amor do que "La femme qui est dans mon lit / N'a plus vingt ans depuis longtemps" [canção "Sarah"]. É de Georges Moustaki, um daqueles que parte mas fica para sempre.» (João Gobern, na crónica "Parceiro de palavra", da rubrica "Pano para Mangas", 24-Mai-2013).

Logo que João Gobern terminou a leitura desta crónica, que subscrevo e aplaudo, o locutor António Macedo teve a louvável atitude de passar, extra-'playlist', o grande cartão-de-visita de Georges Moustaki, "Le Métèque". Não obstante, a rádio pública (mormente com as Antenas 1 e 3) devia fazer muito mais em tributo ao grande (enorme) cantautor, ademais tendo ele também gravado canções em língua portuguesa. Sem prejuízo da realização de um programa especial, bem poderia ser transmitido, a cada hora do dia em que a triste notícia foi veiculada, um dos mais belos espécimes do repertório de Georges Moustaki. Alguns exemplos: "Le Métèque" (o original e a versão em português), "Natalia" (instrumental), "Ma Solitude", "Lettre à Marianne" (instrumental), "Il Est Trop Tard", "Rue des Fosses Saint-Jacques"  (instrumental), "Ma Liberté", "Margot" (instrumental), "Marche de Sacco et Vanzetti" (versão do tema "Here's to You", criado por Joan Baez), "Kim" (instrumental) e "Portugal" (versão do "Fado Tropical", de Chico Buarque).
De todos eles se faculta a audição nesta página. É serviço público que o blogue "A Nossa Rádio" se orgulha de prestar aos seus leitores, designadamente aos ouvintes das Antenas 1 e 3 que gostariam de revisitar ou de descobrir um dos vultos maiores da canção francesa – e do mundo.
Tivesse dado um fanico a Lady Gaga (ou a qualquer outra nulidade artística fabricada pela MTV), que a levasse desta para melhor, e é certo que a "perda" seria objecto de amplo destaque nas Antenas 1 e 3 (e até nos noticiários da Antena 2). Com esta aberrante e empobrecedora inversão de valores é que eu jamais poderei contemporizar no serviço público de rádio, pelo menos enquanto for obrigado a desembolsar, anualmente, a quantia (não tão irrisória assim) de 28,62 euros.





Le Métèque



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent l'air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent


Avec mes mains de maraudeur
De musicien et de rôdeur
Qui ont pillé tant de jardins
Avec ma bouche qui a bu
Qui a embrassé et mordu
Sans jamais assouvir sa faim


Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
De voleur et de vagabond
Avec ma peau qui s'est frottée
Au soleil de tous les étés
Et tout ce qui portait jupon


Avec mon cœur qui a su faire
Souffrir autant qu'il a souffert
Sans pour cela faire d'histoires
Avec mon âme qui n'a plus
La moindre chance de salut
Pour éviter le purgatoire


Avec ma gueule de métèque
De juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Je viendrai, ma douce captive
Mon âme sœur, ma source vive
Je viendrai boire tes vingt ans


Et je serai prince de sang
Rêveur ou bien adolescent
Comme il te plaira de choisir
Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir


Et nous ferons de chaque jour
Toute une éternité d'amour
Que nous vivrons à en mourir



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




O Estrangeiro



Letra: Georges Moustaki; versão de Nara Leão
Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki





Com minha cara de estrangeiro,
Judeu errante, aventureiro,
Com meu riso e minha dor,
Com esses meus olhos descorados,
Que parecem desbotados
E me dão ar de sonhador;


Com minha mão de marinheiro,
Marginal e seresteiro,
Que roubou tantos jardins,
E minha boca que bebeu,
Muito beijou, tanto mordeu
Numa fome que não tem fim;


Com minha cara de estrangeiro,
Judeu errante, aventureiro,
De ladrão e vagabundo,
Com essa pele bem curtida,
Acarinhando sempre a vida
E o sol de todo esse mundo;


E o coração que sofreu tanto,
Muito amou, e sem espanto
Vive ainda a sua história,
E minha alma que sem sorte
Não espera nem na morte
Seu consolo, sua glória;


Com minha cara de estrangeiro,
Judeu errante, aventureiro,
E meus cabelos pelo vento,
Vou encontrar minha querida,
A alma irmã, a fonte viva,
E celebrar esse bom tempo;


E vou ser príncipe valente,
Sonhador adolescente,
O que você quiser de mim...
E viveremos cada dia
O amor sem fim, a alegria
Intensamente até o fim;


E viveremos cada dia
O amor sem fim, a alegria
Intensamente até o fim.




Natalia



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Ma Solitude



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





Pour avoir si souvent dormi
Avec ma solitude
Je m'en suis fait presqu'une amie
Une douce habitude
Elle ne me quitte pas d'un pas
Fidèle comme une ombre
Elle m'a suivi ça et là
Aux quatre coins du monde

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Quand elle est au creux de mon lit
Elle prend toute la place
Et nous passons de longues nuits
Tous les deux face à face
Je ne sais vraiment pas jusqu'où
Ira cette complice
Faudra-t-il que j'y prenne goût
Ou que je réagisse?

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude

Par elle j'ai autant appris
Que j'ai versé de larmes
Si parfois je la répudie
Jamais elle ne désarme
Et si je préfère l'amour
D'une autre courtisane
Elle sera à mon dernier jour
Ma dernière compagne

Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude
Non, je ne suis jamais seul
Avec ma solitude



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Lettre à Marianne



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Les Amis de Georges", Polydor, 1974, reed. Polydor, 1994)



(instrumental)


* Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing, Jean Musy
Direcção artística – Jacques Bedos
Engenheiro de som – William Flageollet




Il Est Trop Tard



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





Pendant que je dormais, pendant que je rêvais
Les aiguilles ont tourné, il est trop tard
Mon enfance est si loin, il est déjà demain
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pendant que je t'aimais, pendant que je t'avais
L'amour s'en est allé, il est trop tard
Tu étais si jolie, je suis seul dans mon lit
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pendant que je chantais ma chère liberté
D'autres l'ont enchaînée, il est trop tard
Certains se sont battus, moi je n'ai jamais su
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pourtant je vis toujours, pourtant je fais l'amour
M'arrive même de chanter sur ma guitare
Pour l'enfant que j'étais, pour l'enfant que j'ai fait
Passe, passe le temps, il n'y en a plus pour très longtemps


Pendant que je chantais, pendais que je t'aimais
Pendant que je rêvais il était encore temps



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Rue des Fosses Saint-Jacques



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Georges Moustaki", Polydor, 1969, reed. Polydor, 1998)





(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Françoise Walch – voz
Raymond Gimenez – guitarra
Sylvano – guitarra
Arranjos e direcção musical – Alain Goraguer
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Jean-Pierre Dupuy




Ma Liberté



Letra e música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Bobino 70", Polydor, 1970, reed. Polydor, 1998)





Ma liberté
Longtemps je t'ai gardée
Comme une perle rare
Ma liberté
C'est toi qui m'a aidé
A larguer les amarres
Pour aller n'importe où
Pour aller jusqu'au bout
Des chemins de fortune
Pour cueillir en rêvant
Une rose des vents
Sur un rayon de lune


Ma liberté
Devant tes volontés
Mon âme était soumise
Ma liberté
Je t'avais tout donné
Ma dernière chemise
Et combien j'ai souffert
Pour pouvoir satisfaire
Tes moindres exigences
J'ai changé de pays
J'ai perdu mes amis
Pour gagner ta confiance


Ma liberté
Tu as su désarmer
Toutes mes habitudes
Ma liberté
Toi qui m'a fait aimer
Même la solitude
Toi qui m'as fait sourire
Quand je voyais finir
Une belle aventure
Toi qui m'as protégé
Quand j'allais me cacher
Pour soigner mes blessures


Ma liberté
Pourtant je t'ai quittée
Une nuit de décembre
J'ai déserté
Les chemins écartés
Que nous suivions ensemble
Lorsque sans me méfier
Les pieds et poings liés
Je me suis laissé faire
Et je t'ai trahi pour
Une prison d'amour
Et sa belle geôlière

Et je t'ai trahi pour
Une prison d'amour
Et sa belle geôlière



* [Créditos gerais do disco:]
Georges Moustaki – voz, guitarra
Catherine Le Forestier – voz
Joël Favreau – guitarra
Michel Gaudry – contrabaixo
Philippe Combelle – tabla
Jean-Charles Capon – violoncelo
Direcção artística – Jacques Bedos
Produção – Henri Belolo
Engenheiro de som – Claude Martenot




Margot



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Il Y Avait Un Jardin", Polydor, 1971, reed. Polydor/Universal, 2012)



(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Joël Favreau – guitarra
Michel Gaudry – contrabaixo
Jean-Charles Capon – violoncelo
Benoit Charvet – flauta
Michel Delaporte – percussões
Orquestra dirigida por Hubert Rostaing
Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing
Direcção artística – Jacques Bedos




Marche de Sacco et Vanzetti



Letra: Joan Baez (tema "Here's to You", do filme "Sacco e Vanzetti", de Giuliano Montaldo, 1971); versão de Georges Moustaki
Música: Ennio Morricone
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Il Y Avait Un Jardin", Polydor, 1971, reed. Polydor/Universal, 2012)





[instrumental]

Maintenant Nicolas et Bart,
Vous dormez au fond de nos cœurs,
Vous étiez tous seuls dans la mort,
Mais par elle vous vaincrez!
[6x]



* [Créditos gerais do disco:]
Joël Favreau – guitarra
Michel Gaudry – contrabaixo
Jean-Charles Capon – violoncelo
Benoit Charvet – flauta
Michel Delaporte – percussões
Orquestra dirigida por Hubert Rostaing
Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing
Direcção artística – Jacques Bedos




Kim



Música: Georges Moustaki
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Si Je Pouvais t'Aider", Polydor, 1979, reed. Polydor/Universal, 2000)



(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Marta Contreras – voz e percussões
Mário Lima – guitarras e voz
Kimpoh Cheah – flauta e percussões
Benhamadi Ameziane – voz, bateria e congas
Lionel Lecreux – bateria
Tony Bonfils – guitarra baixo
Pierre-Yves Sorin – contrabaixo e voz
Christian Chevallier – teclados e orquestrações
Claude Maisonneuve – oboé e corne inglês
Les Troubadours – guitarras e coros
Gérard Niobey – guitarra
Marcel Azzola – acordeão
Engenheiro de som – Christian Chevallier




Portugal



Letra: Ruy Guerra ("Fado Tropical") e Georges Moustaki
Música: Chico Buarque ("Fado Tropical")
Intérprete: Georges Moustaki* (in LP "Les Amis de Georges", Polydor, 1974, reed. Polydor, 1994)





Oh muse, ma complice
Petite sœur d'exil
Tu as les cicatrices
D'un 21 avril


Mais ne sois pas sévère
Pour ceux qui t'ont déçue
De n'avoir rien pu faire
Ou de n'avoir jamais su


A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal


On crucifie l'Espagne
On torture au Chili
La guerre du Viêt-Nam
Continue dans l'oubli


Aux quatre coins du monde
Des frères ennemis
S'expliquent par les bombes
Par la fureur et le bruit


A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal


Pour tous les camarades
Pourchassés dans les villes
Enfermés dans les stades
Déportés dans les îles


Oh muse ma compagne
Ne vois-tu rien venir
Je vois comme une flamme
Qui éclaire l'avenir


A ceux qui ne croient plus
Voir s'accomplir leur idéal
Dis leur qu'un œillet rouge
A fleuri au Portugal


Oh musa do meu fado,
Oh minha mãe gentil,
Te deixo consternado
No primeiro Abril!


Mas não sê tão ingrata!
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou.


[instrumental]

Débouche une bouteille
Prends ton accordéon
Que de bouche à oreille
S'envole ta chanson


Car enfin le soleil
Réchauffe les pétales
De mille fleurs vermeilles
En avril au Portugal


Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial


Et cette fleur nouvelle
Qui fleurit au Portugal
C'est peut-être la fin
D'un empire colonial



* Arranjos e direcção musical – Hubert Rostaing, Jean Musy
Direcção artística – Jacques Bedos
Engenheiro de som – William Flageollet
URL: http://www.creatweb.com/moustaki/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Georges_Moustaki
http://fr.wikipedia.org/wiki/Georges_Moustaki
http://en.wikipedia.org/wiki/Georges_Moustaki
http://www.moustaki.nl/
http://www.lastfm.com.br/music/Georges+Moustaki

27 maio 2013

Aquilino Ribeiro: cinquentenário da morte



Faz hoje exactamente cinquenta anos que a morte subtraiu ao número dos vivos um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa do século XX e de sempre, Aquilino Ribeiro [>> biografia e bibliografia no site do Instituto Camões].
Luís Caetano, na edição de sábado passado (25 de Maio) do seu programa "A Força das Coisas", tomou a louvável iniciativa de evocar o grande escritor, lendo um belo e suculento naco da prosa aquiliniana extraído do romance "Andam Faunos Pelos Bosques", bem como dando conta da reedição que a Bertrand Editora vem fazendo de diversos dos seus títulos e – sobretudo – transmitindo a interessantíssima entrevista que o ilustre autor concedeu a Francisco Igrejas Caeiro, em 1957, para o programa "Perfil dum Artista". Quem a não ouviu ou deseje reouvi-la poderá fazê-lo a todo o momento acedendo a:
http://www.rtp.pt/play/p321/e118401/a-forca-das-coisas


Gostei imenso de ouvir esta homenagem ao autor d' "A Casa Grande de Romarigães" e aplaudo Luís Caetano por tê-la levado a cabo. Fica é a saber-me a pouco no âmbito geral do serviço público de rádio que tinha a obrigação de assinalar com outra ênfase e visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) a efeméride, atendendo à importância do escritor. Se João Pereira Bastos fosse ainda director da Antena 2 não tenho dúvidas de que teria feito um ciclo de programas em torno da vida e da obra de Aquilino Ribeiro. Mas eu nem vou ao ponto de pedir à actual direcção, conhecendo a sua insensibilidade a tudo o que seja matéria cultural não musical, que tomasse idêntico procedimento. O que não posso aceitar, de forma alguma, é que Rui Pêgo e/ou João Almeida nem sequer se tivessem dado ao "incómodo" de resgatar do arquivo histórico a adaptação radiofónica do romance "Terras do Demo", de que ainda tenho reminiscências na memória de a ter ouvido algures nos anos 80, emitida pela Antena 1. A idade que tenho não me permite ter memória de escuta de rádio anterior a finais dos anos 70, mas quero acreditar que outras obras aquilinianas terão merecido a atenção de Eduardo Street, de Odete de Saint-Maurice ou de outros realizadores de programas dramáticos que trabalharam na rádio pública, pelo que se em vez de "Terras do Demo" fosse escolhida outra obra não haveria da minha parte a mais pequena objecção. Nada de nada é que não! Digo mais: a Antena 2 (ou a Antena 1 – para o caso é-me indiferente) devia ter na sua grelha um espaço permanente expressamente consagrado à reposição dessas adaptações de obras literárias de grandes autores portugueses (e não só). As efemérides do nascimento ou da morte de um determinado escritor seriam apenas pretextos para dar a ouvir obras suas. Tais adaptações radiofónicas eram geralmente muito bem feitas, na componente técnica da realização, e altamente valorizadas pela participação de actores de primeiríssima categoria com as suas vozes extremamente bem colocadas e moduladas. Como muito bem lembrou a jornalista Helena Matos, convidada a falar das suas memórias radiofónicas ao programa "A Vida dos Sons", tais vozes eram em si mesmas autênticas personalidades sonoras, proporcionando a quem as ouvia a formação de um imaginário rico e único. Era a marca distintiva dos timbres e era o uso irrepreensível da língua portuguesa – na prosódia, na sintaxe e na vertente lexical. Só neste aspecto, bom e relevante serviço público prestaria a rádio estatal nos dias de hoje com a transmissão desses registos! Ouvir falar bem ajuda a bem falar.
Bem, eu parto do princípio de que as adaptações radiofónicas de obras romanescas, a exemplo das de peças teatrais, não foram destruídas... É que se o foram há que meter na prisão (não é caso para menos) os responsáveis por tão inominável crime contra o nosso património fonográfico!




Capa do romance "Terras do Demo" (Bertrand Editora, edição de 2012)




Capa do romance "Andam Faunos Pelos Bosques" (Bertrand Editora, edição de 2011)

10 maio 2013

João Villaret: centenário do nascimento



Filho do médico Frederico Villaret e de D. Josefina Gouveia da Silva Pereira, João Henrique Pereira Villaret nasceu em Lisboa (no n.º 69 da rua da Boavista, freguesia de São Paulo), a 10 de Maio de 1913.
A vocação artística manifestou-se nele em tenra idade, mas não sem se deparar com algumas incompreensões e contrariedades. Primeiro foi a família que não levava a sério as suas exibições baléticas privadas, embora lhes achasse graça. Depois foi Miss Price, directora do Anglo-Portuguese College (à Calçada Marquês de Abrantes), que resolveu excluí-lo, à última hora, de uma récita escolar por alegada falta de jeito para representar o papel que lhe fora atribuído. Mas o triste episódio, em vez de o derrotar, teve o condão de reforçar a confiança em si mesmo, avivando-lhe o desejo de se tornar actor. Ele tinha de provar à professora e aos colegas que troçavam dele que sabia representar, e que fora uma injustiça a sua exclusão.
Concluída a instrução primária, ingressou no Liceu Passos Manuel, calhando-lhe em sorte uma professora, Amália de seu nome, que não demorará a devotar-lhe uma grande e incondicional admiração. Chamava-lhe, com muita ternura, "Frei João sem cuidados". E talvez por essa empatia, por esse reconhecimento das suas potencialidades, Villaret lia de tal maneira "Os Lusíadas" que a docente ficava rendida e nem se atrevia a sugerir qualquer alteração. Pelo precoce entendimento que tinha da poesia, e por se considerar a sua leitura tão exemplar, o jovem era enviado para as salas do 7.º ano (actual 11.º ano de escolaridade) a ensinar os colegas mais velhos como se devia ler o nosso grande épico.
Em 1928, ainda antes de completar quinze anos de idade, tomou a decisão de concorrer ao curso de representação dramática do Conservatório Nacional de Lisboa. Nas provas de admissão, recitou dois vilancetes e um soneto de Luís de Camões. «Recitei-os como eu os sentia e, no fim, o mestre, que era professor conceituado da casa, olhou-me com severidade e disse: "O menino tem boa voz, mas os versos não se dizem assim, mas como se fossem prosa". E eu, muito pespinete, nervoso e irritado, respondi: "Então por que é que são versos?" E o mestre: "O menino é insolente mas inteligente, está admitido."». Decorridos três anos, na noite de 16 de Outubro de 1931, João Villaret vem a estrear-se profissionalmente no Teatro Nacional D. Maria II, integrado na Companhia Amélia Rey Colaço/Robles Monteiro, interpretando a figura de Fernão Lopes na peça "Leonor Teles", de Marcelino Mesquita. Assim se iniciava a gloriosa carreira do actor que, no entanto, não se confinaria ao drama e à alta comédia (Gil Vicente, Shakespeare, Molière, Almeida Garrett, Bernard Shaw, Eugene O'Neill, etc.). Villaret também nutria um especial apreço pelo teatro de revista, onde se veio a estrear em 1941, suscitando o escândalo daqueles que consideravam o género uma arte menor. Em 1947, para a revista "'Tá Bem ou Não 'Tá?", Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa (também conhecido por António Porto) escrevem-lhe o "Fado Falado" (sobre música de Francisco Paulo Menano), verdadeira peça de antologia da história da música e do teatro popular portugueses. Um recitativo sobre uma melodia de fado onde a letra, que jogava habilmente com a mitologia do género, era não cantada mas verdadeiramente "representada" por Villaret, que assim juntou ao cânone da música portuguesa mais um clássico. Outros êxitos vieram depois, como "Esta Vida É Um Corridinho" (1952, na revista "Lisboa Nova"), "Procissão" (1955, na revista "Melodias de Lisboa"), "Rosa Araújo" e "Santo António", os dois últimos criados na revista "Não Faças Ondas!" (1956).
Uma das representações bem paradigmáticas da sua enorme versatilidade e que mais fascinou o público foi, sem dúvida alguma, a peça "Esta Noite Choveu Prata", do brasileiro Pedro Bloch, levada à cena, em 1954, no Teatro Avenida. Aí desempenhou três papéis distintos (um em cada acto): Francisco Rodrigues – comerciante português; Pietro Bonardi – músico italiano; e Camilo – actor brasileiro. O crítico Fernando Fragoso afirmou a propósito desta extraordinária criação: «É de tal forma brilhante que os outros valores do espectáculo – embora para ele concorram – se diluem na sombra.».
Na sétima arte, participou nos seguintes filmes: "Bocage" (1936), de José Leitão de Barros, onde encarnou o príncipe regente D. João (futuro rei D. João VI); "O Pai Tirano" (1941), de António Lopes Ribeiro, numa breve aparição como pedinte mudo; "O Violino do João" (1944), de José Braz Alves, no papel do russo Pedro Derminova; "Inês de Castro" (1945), de José Leitão de Barros, onde fez o bobo Martim; "Camões" (1946), também de Leitão de Barros, onde desempenhou o papel de D. João III; "Três Espelhos" (1947), co-produção luso-espanhola realizada por Ladisdao Vadja, como Inspector Moisés; "Frei Luís de Sousa" (1950), de António Lopes Ribeiro, onde encarnou o aio Telmo Pais, talvez o seu desempenho mais sublime no cinema; "A Garça e a Serpente" (1952), de Arthur Duarte, como Cristóvão de Miranda; e "O Primo Basílio" (1959), de António Lopes Ribeiro, no papel do bom Sebastião. No documentário "Mar Português" (1950), de João Mendes, recitou (em voz off) poemas de Luís de Camões, António Nobre, Guerra Junqueiro, Fernando Pessoa e Alberto Rebelo de Almeida.
Com uma sensibilidade invulgar e dotado de uma notável intensidade expressiva aliada a um inexcedível poder de comunicação, reabilitou a difícil arte de recitar poesia, prendendo a atenção do expectador, quer em sessões ao vivo (uma que realizou no Teatro de São Luiz seria editada em disco), quer através da televisão (aí se fazendo acompanhar, ao piano, pelo irmão Carlos Villaret). «Não digo versos; procuro reproduzir o momento de angústia, de alegria, de revolta que o poeta sentiu ao escrever o seu poema. Recitando, encontro a plena libertação, pois dou-me esse infinito gosto de interpretar aquilo que amo e que me tocou profundamente.» E Miguel Torga referiu-se-lhe nestes termos: «Nunca é demais agradecer a Villaret o que ele tem feito pela poesia. Os poetas devem-lhe uma espécie de requintada edição oral de alguns dos seus melhores versos; o público, esse resgata-se a ouvi-lo da preguiça que o afastava tragicamente dum convívio que nenhum oiro da terra pode suprir.»
O falecimento prematuro de João Villaret, no auge da glória, vítima de diabetes, a 21 de Janeiro de 1961, causou imensa consternação no país, de tal forma que, durante alguns anos, os lisboetas assinalavam o dia da sua morte com um recital de poesia no Cinema São Jorge, onde a sua voz se ouvia num palco vazio iluminado apenas por um foco de luz. Em sua homenagem, Raul Solnado deu ao teatro que, em 1965, abriu no n.º 30-A da Avenida Fontes Pereira de Melo (às Picoas) o nome de Teatro Villaret.
Não sendo muita extensa, a discografia que nos legou constitui um precioso testemunho da sua inigualável arte de dar voz (e alma) às palavras. Aqui se apresentam dois magníficos espécimes: o poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, e a cantiga "Santo António" (letra de Fernando Santos e música de João Nobre).
Antes, e evocando na mesma assentada dois eméritos entrevistadores e homens da rádio – Francisco Igrejas Caeiro e Carlos Pinto Coelho –, resgata-se a memória do programa "Agora... Acontece!" com duas edições exclusivamente consagradas a João Villaret.



"Agora... Acontece!" N.º 217, de 07-Abr-2003



- "Rosa Araújo" (José Galhardo / João Nobre), por João Villaret;
- "Menina Gorda", de Rui Ribeiro Couto, por João Villaret;
- Três poemas de Fernando Pessoa: "Dona Filipa", "Dom Diniz" e "O Mostrengo", por João Villaret;
- Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", 
emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Canção Grata", de Carlos Queiroz, por João Villaret;
- Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Fado Falado" (Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa / Francisco Paulo Menano), por João Villaret;
- "D. João VI e a Mulata" (Raimundo Calado / Armando da Câmara Rodrigues), por João Villaret;
- "Liberdade", de Fernando Pessoa, por João Villaret;
- "Esta Vida É Um Corridinho" (José Almeida Amaral, Fernando Santos e João Villaret / Frederico Valério), por João Villaret.



"Agora... Acontece!" N.º 466, de 02-Jun-2008



- "O Mostrengo", de Fernando Pessoa, por João Villaret;
- Entrevista com António Carlos Carvalho, autor do livro "João Villaret: Uma Biografia" (Ulisseia, 2008), entremeada com:
- "Essa Nêga Fulô", de Jorge de Lima, por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Toada de Portalegre", de José Régio, por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;
- "Esta Vida É Um Corridinho" (José Almeida Amaral, Fernando Santos e João Villaret / Frederico Valério), por João Villaret;
- Excerto da Entrevista de João Villaret concedida a Igrejas Caeiro, para o programa "Perfil dum Artista", emitida a 15-Jul-1954, pelo Rádio Clube Português;

- "Fado Falado" (Aníbal Nazaré, Nelson de Barros e António Ascensão Barbosa / Francisco Paulo Menano), por João Villaret.



Capa do livro "João Villaret: Uma Biografia", de António Carlos Carvalho (Ulisseia, 2008)



TABACARIA



Poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (in "Presença", n.º 39, Coimbra: Jul. 1933; "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944)
Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério duma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas —
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —, 
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei que moderno — não concebo bem o quê —,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá, eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.



Santo António


 
Letra: Fernando Santos (para a revista "Não Faças Ondas", 1956, Teatro Variedades)
Música: João Nobre
Intérprete: João Villaret* (in EP "João Villaret na Revista 'Não Faças Ondas'", Parlophone/EMI, 1956; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
 



Nos meus rogos, nos meus votos,
Peço a Deus, no Paraíso,
Que me dê muitos devotos,
De votos é que eu preciso!
 
Quero ver o povo unido
No meu lindo Portugal;
Quero-o junto, e não partido,
Na União Tradicional.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
Quem me engana ou contradita,
Aponto no meu caderno:
Vai com cartão de visita
P'ra as profundas do Inferno!
 
Dizem rivais meus opostos:
"Milagres são manigâncias!";
Meus milagres são impostos
Pela força das circunstâncias.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
No Céu vivo sossegado
Entre os meus queridos santinhos,
Constantemente incensado
E em volta só vejo anjinhos.
 
Com meus hábitos de frade,
Sempre a vista no chão posta;
É desta minha humildade
Que a Corte dos Santos gosta.
 
Se conserto um tacho,
Protejo um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-me em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[Coro de anjinhos:]
Se conserta um tacho,
Protege um namoro;
Logo o populacho
Vem cantar-lhe em coro:
 
"Meu rico santinho,
Eu não sei, não sei...
Meu Santo Antoninho,
Onde te porei!"
 
[instrumental]
 
Mas o dinheirinho
Não dou nem darei!


* Técnico de gravação – Hugo Ribeiro

Montagem digital (1991) – Miguel Gonçalves
URL: http://www.macua.org/biografias/joaovillaret.html
http://www.infopedia.pt/$joao-villaret
http://pauloborges.bloguepessoal.com/240111/TRIBUTO-A-JOAO-VILLARET/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Villaret
http://www.imdb.com/name/nm0898045/?ref_=tt_cl_t12
http://www.truca.pt/imaginario_material/imaginario300_309.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/103286.html
http://www.rtp.pt/play/p692/e116781/ha-conversa
http://jvillaret.com.sapo.pt/index.html
http://www.myspace.com/joaovillaret
http://cotonete.clix.pt/artistas/home.aspx?id=1293
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/jo_o_villaret
http://www.lastfm.pt/music/Jo%C3%A3o+Villaret

 
[reeditado em 22-Mai-2013]

08 maio 2013

Abolição da pena de morte: um imperativo da Humanidade


Maryland: 18.º dos Estados Unidos da América a abolir a pena de morte.

É um daqueles casos que com inteira legitimidade, e aproveitando alguma raridade na distribuição dos feitos meritórios nos séculos mais chegados, nos faz inchar o peito de orgulho. Viaja-se pelas enciclopédias e constata-se que a última aplicação da pena de morte em território português ocorreu em 1846, antecipando-se por largos anos à legislação que começou por extinguir a pena capital para crimes políticos [1852] e depois alargou a medida aos crimes civis [1867]. Isto antes de se chegar ao pleno [1911; 1976]. A última mulher que morreu executada por ordem judicial, em Portugal, despediu-se da vida em 1772 [e o último homem, por sentença de tribunal não militar, em 1846]. Depois disso, foi preciso esperar até 1917, e por um caso de traição no Exército Português, durante a Primeira Guerra Mundial, para que a mais drástica das penas máximas voltasse a ser aplicada. Em 1976, a Constituição Democrática passou a uma forma ainda mais explícita: a erradicação da pena de morte, algo que os anos do Estado Novo, e sobretudo da Guerra Colonial, acabaram por registar de vez em quando, ainda que não houvesse sentença judicial mas apenas a acção da polícia política [PVDE / PIDE]. Diante deste longo processo de demonstração de um estado civilizacional evoluído, misturamos o aplaudo franco com um sorriso meio-desdenhoso ao tomarmos conhecimento que, desde ontem [02 de Maio de 2013], o Maryland passou a ser o 18.º dos estados norte-americanos a transferir para a figura da prisão perpétua a pena máxima. Com cerca de seis milhões de habitantes, tendo Baltimore, Columbia, Germantown, Silver Spring e Rockville como cidades mais representativas, este estado atlântico põe fim ao longo reinado da pena capital, aplicada no território desde 1638, ainda debaixo do estatuto de colónia britânica. Ora na base da alteração está o governador democrata Martin O'Malley, que desta vez conseguiu levar por diante um projecto que há quatro anos tinha fracassado. Mas se a mudança legal merece o devido realce por parte de todos os humanistas, ela não consegue esbater uma nuvem negra: é que segundo uma sondagem do jornal "Washington Post", cerca de 60% dos cidadãos do Maryland acabou por concordar com a pena de morte, ficando os seus opositores na casa dos 38%. Confesso que tratando-se, acima de tudo, de domínio sagrado dos Direitos Humanos, não me faz confusão nenhuma que o legislador marche um passo adiante da consciência popular. Há momentos de ruptura que continuam a justificar estes saltos em frente e, com inteira franqueza, continua a fazer-me muita confusão que possa haver quem defenda que o Estado, representado pelo poder judicial, possa descer ao nível dos criminosos, mesmo dos mais violentos e abjectos. Responder com as mesmas armas é atirar o Estado para um lamaçal de contradições e para um papel que não lhe calha pela superioridade moral que deve representar, pelo equilíbrio de que deve dar garantias a cada passo [nunca descurando a possibilidade de erro judiciário]. Claro está que não deixamos de recordar-nos de todos os outros pecados do Estado: tantas vezes mau pagador, mau investidor, mau gestor, mau trabalhador e mau chefe [não por culpa do Estado em si mesmo, mas dos indivíduos – políticos e funcionários – que não sabem ou não querem servi-lo bem]. Mas sempre me ensinaram que um erro, ou mais, não se corrige errando de novo. E, felizmente, também me ensinaram que com a vida humana não se brinca. Também por isso passei hoje a gostar um pouco mais do Maryland: à letra, quer dizer "terra de Maria" e, neste caso, a Maria não foi com as outras.» (João Gobern, na crónica "A tempo e horas", da rubrica "Pano para Mangas", 03-Mai-2013).






A marcha da Humanidade rumo à abolição total da pena de morte tem sido lenta e não é expectável que termine em breve. Mas uma coisa tenho como certa: o exemplo vindo de terras do Tio Sam não deixará de ter influência nos países do mundo que ainda mantêm o assassinato legal nos seus ordenamentos jurídicos. Nesta ordem de ideias, o passo em frente agora dado por mais um dos Estados Unidos da América é de assinalar, cabendo-me a mim, enquanto humanista e convicto abolicionista, saudar o jornalista João Gobern por se ter debruçado sobre o acontecimento, apesar da pouca atenção que a comunicação social portuguesa lhe dispensou.
Portugal pode orgulhar-se de ter sido pioneiro nesta premente questão humana, pois foi o segundo país europeu (o primeiro foi San Marino, em 1865) e o terceiro de todo o mundo (o primeiro foi a Venezuela, em 1854) a abolir a pena capital para todos os crimes civis. Aconteceu a 1 de Julho de 1867. Era ministro da Justiça Augusto César Barjona de Freitas, chefiava o governo Joaquim António de Aguiar e reinava D. Luís I.
Ao receber a notícia, o grande escritor francês Victor Hugo, o "divino Hugo" (como lhe chamava Guerra Junqueiro), logo enviou ao amigo e jornalista Eduardo Coelho, então redactor do "Diário de Notícias", uma carta com o seguinte teor:

«Está, pois, a pena de morte abolida nesse nobre Portugal, pequeno povo que tem uma grande História! Penhora-me a recordação da honra que me cabe nessa vitória ilustre. Humilde operário do progresso, cada novo passo que ele avança me faz pulsar o coração. Este é sublime. Abolir a morte legal, deixando à morte divina todo o seu direito e todo o seu mistério, é um progresso augusto entre todos. Felicito o vosso parlamento, os vossos pensadores, os vossos escritores e os vossos filósofos! Felicito a vossa nação. Portugal dá o exemplo à Europa. Desfruta, de antemão, dessa imensa glória. A Europa imitará Portugal. Morte à morte! Guerra à guerra! Ódio ao ódio! Vida à vida! A liberdade é uma cidade imensa, da qual todos somos cidadãos. Aperto-vos a mão como meu compatriota na humanidade e saúdo o vosso generoso espírito.» (Victor Hugo, 2 de Julho de 1867).

Em registo similar, o mesmo Victor Hugo escreveu, dias mais tarde, outra missiva ao amigo Pedro de Brito Aranha:

«Votre noble lettre me fait battre le coeur.
Je savais la grande nouvelle; il m'est doux d'en recevoir par vous l'écho sympathique.
Non, il n'y a pas de petits peuples. Il y a de petits hommes, hélas! Et quelque fois ce sont ceux qui mènent les grands peuples. Les peuples qui ont des despotes ressemblent à des lions qui auraient des muselières.
J'aime et je glorifie votre beau et cher Portugal. Il est libre, donc il est grand.
Le Portugal vient d'abolir la peine de mort. Accomplir ce progrès c'est fair le grand part de la civilisation. Dès aujourd'hui le Portugal est à la tête de l'Europe.
Vous n'avez pas cessé d'être, vous portugais, des navigateurs intrépides. Vous allez en avant, autrefois dans l'ócean, aujourd'hui dans la verité. Proclamer des principles c'est plus beau encore que de découvrir des mondes.
Je crie: Gloire au Portugal, et à vous: Bonheur!
Je presse votre cordiale main.» (Victor Hugo, 15 de Julho de 1867).


Pode afirmar-se, sem vanglória ou patrioteirismos pacóvios, que estas palavras de Victor Hugo se contam entre as mais honrosas e edificantes que um estrangeiro (não um qualquer, mas um vulto universal de elevadíssimo carisma ético) dirigiu a Portugal e, nessa conformidade, qualquer cidadão português devia conhecê-las. Acaso constam nos compêndios do ensino básico, designadamente nos das disciplinas de História, Educação Cívica, Português ou Francês?


Victor Hugo (1802-1885): mais conhecido pelos romances "Nossa Senhora de Paris" ("Notre-Dame de Paris", 1831) e "Os Miseráveis" ("Les Misérables", 1862), é autor de "O Último Dia de um Condenado" ("Le Dernier Jour d'un Condamné", 1829), obra de vincado cunho humanista, em que deixa expressa, de forma assaz eloquente, a sua repulsa pela vigência, em pleno século XIX, da pena de morte na sua França, a mesma que, em 1789, iluminara o mundo com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.


Em jeito de remate poético-musical ao presente assunto, aqui se deixa o belo "Manifesto Breve contra a Guerra ou Qualquer Outra Pena de Morte", de João Gigante-Ferreira, na voz da fadista Helena Sarmento.


Manifesto Breve contra a Guerra ou Qualquer Outra Pena de Morte



Letra: João Gigante-Ferreira
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Helena Sarmento* (in CD "Fado dos Dias Assim", Helena Sarmento, 2013)


[instrumental]

Troca tudo por tão pouco
A Morte que a Vida mata
Pela lei, por qualquer louco
Pela culpa, fero sopro
Que por dentro nos ataca
Qualquer cor de qualquer outro
Qualquer crença, amor sem corpo
Que por dentro nos ataca

Na partida dos que foram
Tudo bem organizado
Olhos mortos nos devoram
Nossos olhos que os choram
O Mistério do outro lado

Já a Morte se habitua
A ter Deus por companhia
De mãos dadas pela rua
Este cego, aquela nua
Só de sombra a luz do dia

Assim marcham lado a lado
Pelas ruínas da Razão
As balas e o assassinado
E o sorriso imaculado
Do Dia da Criação

* Helena Sarmento – voz
Samuel Cabral – guitarra portuguesa
Paulo Faria de Carvalho – viola
Susana Castro Santos – violoncelo
Direcção artística – Samuel Cabral
Supervisão artística – João Gigante-Ferreira e Inês Soares
Produção executiva – Helena Sarmento
Gravado, misturado e masterizado por Mário Pereira, no Happy Road Studio, Porto, de Novembro de 2012 a Janeiro de 2013
URL: http://www.helenasarmento.com/
http://www.facebook.com/helenasarmento
http://helenasarmento-fadoazul.blogspot.com/
http://www.myspace.com/ahelenasarmento
http://www.youtube.com/user/helenasarmentofado/videos
http://www.youtube.com/user/CanalEntrarEmPalco/videos?query=helena+sarmento
http://www.portaldofado.net/content/view/2714/327/
http://www.portaldofado.net/content/view/2336/277/
http://www.portaldofado.net/content/view/3105/277/
http://a-trompa.net/novidades/fado-azul-helena-sarmento
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/238703.html