21 dezembro 2012

"Viva a Música": lugar à música portuguesa (II)



«Desde 1996, a Antena 1 tem no ar o programa "Viva Música", único espaço regular no panorama audiovisual nacional que apresenta semanalmente, durante uma hora, música cantada na nossa língua, ao vivo e em directo». Assim se apresenta, na respectiva página do arquivo online, este já histórico e paradigmático programa da rádio pública. Em rigor, já não se trata do único programa radiofónico português de música ao vivo, pois há que ter em conta o "Estrela da Tarde", da Rádio Amália, reservado ao fado. Não deixa, contudo, de ser o único em rádios de cobertura nacional. E único também pelo amplo leque de géneros e estilos musicais que abarca, dos mais arreigados à matriz portuguesa aos mais vanguardistas, sem descurar a produção instrumental que tão marginalizada tem sido por tudo quanto é rádio hertziana (exceptuando a Antena 2 para a clássica, o jazz e a étnica).
São escassos os programas de rádio que atingem os dezasseis anos de idade, e se o "Viva a Música" ainda existe foi porque o amor e a paixão de um homem pela música (de expressão) portuguesa e pelos seus criadores e intérpretes foram suficientemente fortes para resistir às vicissitudes e contornar os obstáculos que foi encontrando pelo caminho. Esse homem chama-se Armando Carvalhêda e não será exagero dizer que é hoje credor de um imenso capital de gratidão, quer dos artistas aos quais tem dado acolhimento e divulgação, quer do público amante de boa música portuguesa e lusófona. Diversos músicos e cantores têm feito questão de reconhecer publicamente, no próprio programa, esse persistente e empenhado labor de Armando Carvalhêda, e também muitos ouvintes têm tido o ensejo de o fazer, quer em correio dirigido ao eminente realizador ou à Provedoria do Ouvinte, quer em textos colocados na blogosfera (como foi o caso de um publicado pelo autor destas linhas em Fevereiro de 2006).
O "Viva Música" é, sem sombra de dúvida, um programa modelar e uma grande referência na cena mediática nacional, muito (ou tudo) graças ao saber, experiência e carisma comunicacional do seu autor e realizador. Merecia, por isso, maior projecção e visibilidade junto do grande público e, concomitantemente, maior capacidade de integrar os artistas mais descentrados, por assim dizer, da região metropolitana de Lisboa. Para o efeito, duas medidas importaria tomar:
 
1. Transmissão televisiva
Estando a Antena 1 e a RTP integradas na mesma empresa, a Rádio e Televisão de Portugal, não se percebe qual a razão do "Viva a Música" não ser filmado na íntegra e transmitido pela RTP-1, em horário nobre, ademais não havendo na televisão pública um programa exclusivo de música ao vivo. Actualmente, o único espaço da RTP onde é possível ouvir (alguma) música portuguesa tocada ao vivo é o "Herman 2012", mas que por ser um programa essencialmente de conversa e de humor, e não durar mais do que uma hora, não pode contemplar muito mais do que uma ou duas canções em cada emissão. Mesmo assim, muitos artistas da nossa praça agradecem o convite do afamado humorista para lá marcarem presença, o que diz bem da falta clamorosa que se faz sentir no serviço público de televisão de um programa regular no qual os diversos artistas de reconhecida qualidade (nomes consagrados e novos valores) pudessem apresentar o trabalho que vão produzindo. A esse respeito se pronunciaram dois dos recentes convidados de Herman José, Rui Veloso e Teresa Salgueiro, a que eu, na qualidade de contribuinte e apreciador de boa música, junto a minha voz. Quem dirige a RTP-1 até pode alegar que existem na grelha vários programas com actuações de artistas, como é o caso da "Praça da Alegria", do "Portugal no Coração" e do "Portugal sem Fronteiras", mas tal argumento peca por falta de razoabilidade. Na verdade, não são espaços de entretenimento fácil e pobre, como aqueles, em que a música (invariavelmente em "playback" e geralmente pouco qualificada) surge a título meramente decorativo entremeando conversas geralmente de uma insuportável banalidade (para não dizer indigência mental), que podem ser tomados pelos verdadeiros artistas como uma opção válida e digna para mostrarem o seu trabalho. Tal basta aos "pimbas", que até podem preferir o "playback" (que serve para esconder as respectivas limitações), mas não aos artistas dignos desse nome, que pelo respeito que o público lhes merece, se recusam a alinhar em tal intrujice. Artista que se preze não abdica de tocar ao vivo, nem enjeitará – presumo eu – a possibilidade de alargar o seu auditório (para os rádio-ouvintes e os telespectadores), desde que a sua música não saia amesquinhada e seja devidamente valorizada. É o que faz Armando Carvalhêda no seu "Viva a Música", que tendo sido originalmente concebido para a rádio, possui todos os predicados para ser igualmente objecto de transmissão televisiva. O que teria a vantagem acrescida, em tempo de contenção de custos, de ficar mais económico do que criar um programa televisivo de raiz, pois a produção já está feita. E ainda com a mais-valia de ser conduzido por um profissional carismático que conhece profundamente o nosso meio musical – muito diferente, portanto, de uma qualquer vedeta fútil da pantalha que se limita a ler, mais ou menos mecanicamente, os textos do teleponto escritos por outrem, como é usual acontecer na cobertura televisiva de determinados eventos com música ao vivo.
 
2. Descentralização das actuações
É bastante extenso o rol de artistas que já actuaram no "Viva a Música", e com um nível médio de qualidade elevado, o que só abona a favor do Sr. Armando Carvalhêda. Há, no entanto, ainda muitos artistas de mérito que nunca pisaram o chamado palco da rádio (vide lista ao fundo). Quero acreditar que uma boa parte já terá sido convidada e que a não comparência se deveu, nalguns casos, a incompatibilização de agendas e, noutros (certamente a maioria), a questões logísticas e/ou financeiras ligadas às deslocações (de pessoas e de material). Refiro-me evidentemente a artistas, mormente grupos, radicados nos extremos (norte ou sul) de Portugal continental ou nos arquipélagos dos Açores e da Madeira. Em face desta realidade, e dado que a geografia não pode ser uma condicionante de acesso dos artistas à estação pública que tem forçosamente de ter abrangência nacional, eu proponho a realização de edições do "Viva a Música" descentralizadas, isto é, nas diversas capitais de distrito de Portugal Continental e Insular (talvez com excepção de Setúbal e de Santarém dada a relativa proximidade à capital). Suponho que actualmente não haja uma capital de distrito que não tenha uma sala (teatro, cineteatro ou auditório) com condições tão boas ou melhores do que as oferecidas pelo decrépito e acanhado Teatro Dom Luiz Filipe, mais conhecido por Teatro da Luz. Assim sendo, afigura-se pertinente a descentralização do "Viva a Música" por forma a dar visibilidade/audibilidade nacional a uma multiplicidade de bons artistas (individuais ou grupos) que existem por esse país fora, mas que são praticamente ignorados pelo público português fora das respectivas regiões. Por exemplo, quantos artistas dos Açores e da Madeira são conhecidos no continente? Não andarei longe da verdade se disser que não serão mais que os dedos de uma mão. O que é flagrantemente pouco, atendendo à muita e boa produção musical daquelas regiões de Portugal.
 

Artistas que ainda não actuaram no "Viva a Música"
:

(incluem-se os cantores/músicos que podendo já ter pisado o palco da rádio, nunca o fizeram em nome próprio)
 
Açores:
 
- Alexandra Boga (https://myspace.com/alexandraboga)
- Bandarra (https://myspace.com/sitiobandarra)
- Belaurora (http://www.belaurora.com/)
- Bruno Walter Ferreira (http://www.reverbnation.com/brunowalterferreira)
- Carlos Medeiros (http://carlosmedeiros.bandcamp.com/)
- Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense (https://myspace.com/gbcrt)
- Grupo de Cantares do Nordeste (https://myspace.com/grupodecantaresdonordeste)
- Luís Alberto Bettencourt (https://myspace.com/labett)
- Manuel Ermelindo "Canarinho" (https://myspace.com/manuelcanarinho)
- Miguel Pimentel http://www.emilianotoste.pt/editora/ver.php?id=146)
- Musica Nostra (http://musicanostra.no.sapo.pt/repert.htm)
- Pedro Lucas / O Experimentar Na M'Incomoda (http://oexperimentar.bandcamp.com/)
- Raquel Dutra (http://www.reverbnation.com/raqueldutra)
- Ronda da Madrugada (http://www.reverbnation.com/rondadamadrugada)
- Sons Íntimos (http://www.facebook.com/sonsintimos)
- Susana Coelho (http://www.susanacoelho.com/muacutesica.html)
 
 
Madeira:

- Alencante (http://www.youtube.com/user/Alencante)
- Alma de Coimbra (http://www.almadecoimbra.com/)
- Almaplana (https://myspace.com/almaplana)
- António Crespo (http://campeaoprovincias.com/pt/index.php?option=com_content&view=article&id=10552:album-de-antonio-crespo-couto-e-apresentado-hoje-em-coimbra)
- António Eustáquio & Quarteto Ibero-Americano (http://cantosevariacoes.blogspot.com/2011/03/concerto-de-guitolao-antonio-eustaquio.html)
- António Pinho Vargas (http://www.antoniopinhovargas.com/)
- Arrefole (http://palcoprincipal.sapo.pt/arrefoleoficial)
- Artesãos da Música (https://myspace.com/grupoartesaosdamusica)
- Assembly Point (https://myspace.com/assemblytrio)
- Azeituna (https://myspace.com/azeituna25paus)
- B Fachada (http://bfachada.bandcamp.com/)
- Caminhos da Romaria ( https://myspace.com/caminhosdaromaria)
- Cantares da Terra (https://myspace.com/cantaresdaterra)
- Cantigas do Baú (https://myspace.com/cantigasdobau)
- Canto d'Alma (http://palcoprincipal.sapo.pt/canto_dalma)
- Canto Livre (http://palcoprincipal.sapo.pt/canto_livre)
- Cantorias (http://grupo-cantorias.blogspot.com/)
- Capa Grilos (https://myspace.com/capagrilos)
- Carlos Macedo (https://myspace.com/carlosmacedofado)
- Comvinha Tradicional (http://palcoprincipal.sapo.pt/comvinha_tradicional)
- Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra (http://www.uc.pt/antorf/)
- Cristina Navarro (https://myspace.com/cristina.navarro.fado)
- Dança dos Homens (https://myspace.com/dancadoshomens)
- Deolinda Bernardo (https://myspace.com/deolindabernardo)
- Eduardo Ramos (https://myspace.com/eduardoramosmocarabe)
- Entr'o Cante (http://palcoprincipal.sapo.pt/entro_cante)
- Estudantina Universitária de Coimbra (https://myspace.com/estudantinacoimbra)
- Fado ao Centro (http://www.fadoaocentro.com/)
- Fado Violado (http://www.facebook.com/pages/Fado-Violado/102319689811130)
- Fadvocal (http://www.advocal.pt/)
- Fausto Bordalo Dias (http://marius709.com.sapo.pt/index.html)
- Filipe Lucas (https://myspace.com/filipelucas14cordas)
- Ginga (https://myspace.com/gingafolk)
- Grupo de Cantares Tradicionais Mulheres do Minho (http://mulheresdominho.com/)
- Grupo Vocal Canto Décimo (http://cantodecimo.blogspot.com/)
- Guitarras de Coimbra - Grupo de Fados e Guitarradas (http://www.accmm.pt/grupofados.html)
- Haja Saúde (https://myspace.com/bandahajasaude)
- Helena Sarmento (https://myspace.com/ahelenasarmento)
- Joana Machado (https://myspace.com/joanamachado)
- João Filipe Silva / Contarolando (https://myspace.com/contarolando)
- João Paulo Esteves da Silva (https://myspace.com/joaopauloestevesdasilva)
- João Vasco / Alémfado (http://vimeo.com/user2467188/videos)
- Joel Xavier (https://myspace.com/joelxaviersite)
- Jorge Cravo (http://numerica-pt.blogspot.com/2011/04/quarteto-de-antonio-jose-moreira.html)
- José Campos e Sousa (http://www.josecamposesousa.com.pt/?page_id=5)
- José Peixoto (https://myspace.com/josepeixoto)
- Karrossel (https://myspace.com/karrossel)
- Lenga Lenga - Gaiteiros de Sendim (https://myspace.com/lengalengagaiteirodesendim)
- La Çaramontaina (https://myspace.com/laaramontaina)
- Lara Li & Miguel Braga (http://www.facebook.com/events/159463690748273/)
- Lula Pena (https://myspace.com/lulapena)
- Macacos das Ruas de Évora (http://metoscano.blogspot.com/2007/09/macacos-das-ruas-de-vora_20.html)
- Manuel d'Oliveira (https://myspace.com/manueldoliveira)
- Marco Figueiredo (http://www.gproducoes.com/index.php/artistas/mfigueiredo)
- Marenostrum (https://myspace.com/marenostrumportugal)
- Mickael Salgado (http://musica.sapo.pt/album/4647526)
- Miguel Calhaz (http://palcoprincipal.sapo.pt/miguel_calhaz)
- MU (https://myspace.com/muuuuuu)
- NMB - No Mazurka Band (https://myspace.com/nomazurkaband)
- Nem Truz Nem Muz (http://palcoprincipal.sapo.pt/nem_truz_nem_muz_musica_portuguesa_tradicional_)
- Norberto Lobo (http://norbertolobo.bandcamp.com/)
- Notas & Voltas (http://notasevoltas.no.sapo.pt/discografia.htm)
- O Baú (https://myspace.com/obaumusicaportuguesa)
- Óai d'Ir (https://myspace.com/oai_dir)
- Origem (https://myspace.com/origem)
- Orquestra Típica de Águeda (http://www.otagueda.pt.vu/)
- Os Quais (http://osquais.bandcamp.com/)
- Os Tocadores (https://myspace.com/ostocadores)
- Outorga (http://palcoprincipal.sapo.pt/outorga)
- Paulo Soares (http://www.paulosoares.com/)
- Pinhal d'El-Rei (https://myspace.com/570148406)
- Quatro Ventos (https://myspace.com/grupoquatroventos)
- Quiné (https://myspace.com/quineteles)
- Quintarolas (https://myspace.com/quintarolas)
- Raquel Peters (https://myspace.com/musica_raquel_peters)
- Revisitar, Descobrir Guerra Junqueiro (http://www.artes.ucp.pt/guerrajunqueiro/)
- Ricardo Gordo (http://palcoprincipal.sapo.pt/ricardogordo)
- Roda Pé (http://palcoprincipal.sapo.pt/grupo_de_musica_portuguesa_roda_pe)
- Roncos do Diabo (https://myspace.com/roncosdodiabo)
- Samuel (http://soundcloud.com/samuel-quedas)
- Sanfonices (http://www.facebook.com/pages/Centro-de-M%C3%BAsica-Tradicional-Sons-da-Terra/270043473031098)
- Seara Jovem (http://www.ovacao.pt/compra/seara-jovem-a-descoberta-51284)
- Segue-me à Capela (https://myspace.com/seguemecapela)
- Sons do Vagar (http://www.doimaginario.org/crbst_1.html)
- Strella do Dia (https://myspace.com/strelladodia)
- Toada Coimbrã (http://toadacoimbra.blogspot.com/)
- Tó Trips (https://myspace.com/totripsguitar)
- Tramadix (http://www.facebook.com/tramadix)
- Trasga (http://grupo-trasga.blogspot.com/)
- Trilhos - Novos Caminhos da Guitarra (https://myspace.com/trilhosdaguitarra)
- Trovas à Tôa (http://palcoprincipal.sapo.pt/trovas_a_toa)
- Trovas ao Vento (http://palcoprincipal.sapo.pt/trovasaovento)
- Tuna Popular Lousense (http://torredemoncorvoinblog.blogspot.com/2009/07/tuna-popular-lousense.html)
- Urze de Lume (https://myspace.com/urzedelume)
- Ventos da Líria (https://myspace.com/ventosdaliria)
- Vozes do Imaginário (http://www.doimaginario.org/crbst_2.html)
- Xícara (https://myspace.com/xicaramusic)
- Zé Manel Martins (https://myspace.com/zemanelmartins)

 
Nota: Procurei ser zeloso e diligente na constituição desta lista. Ainda assim, é bem possível que se verifique a ausência de alguns artistas de mérito, no activo, que nunca actuaram no "Viva a Música". A esses solicito a amabilidade de me darem notícia, a fim de que eu tenha o ensejo de colmatar as lacunas.
Contacto: ajferreira74@gmail.com

12 dezembro 2012

"Ainda Sou do Tempo" / "Tradição XXI"

"Ainda Sou do Tempo"

Programa em quatro edições, produzido no âmbito da Academia RTP para a Antena 1, que procura trazer para o presente tradições que caíram em desuso e das quais poucos se recordam. A repórter Cátia Fernandes parte à descoberta de regiões marcadas por costumes antigos, ouvindo as pessoas que ainda os guardam na memória.
 
Operadoras de som: Helena Nunes e Filipa Gomes
Guionista: Cátia Fernandes
Edição de som: Helena Nunes
Pós-edição de som: Filipa Gomes
Produção: Flavie Paula
Repórter: Cátia Fernandes
Operadoras de câmara: Flavie Paula, Filipa Gomes e Helena Nunes

Emissão na Antena 1: 02, 09, 16 e 23 de Dezembro de 2012, às 07h10.

Edições já disponíveis:
02 Dez: Arte da Filigrana
09 Dez: Vinho dos Mortos
 

Filigrana em prata (Norte de Portugal)  


Filigrana em ouro (Norte de Portugal)

 
"Tradição XXI"
 
Programa em quatro capítulos, produzido no âmbito da Academia RTP para a Antena 1, que pretende mostrar a reinvenção actual da música tradicional portuguesa. Dos vestígios do mundo rural até aos novos projectos urbanos, de Norte a Sul do país, a voz da tradição, sem preconceitos ou purismos e aberta ao grande público.

Autoria e realização: João Torgal e Manuel Feijão
 
Emissão na Antena 1: 02, 09, 16 e 23 de Dezembro de 2012, às 07h27.
Arquivo online: http://www.rtp.pt/play/p1007/tradicao-xxi
Edições já disponíveis:
02 Dez: Alentejo
09 Dez: Beira Baixa


Viola campaniça: a maior das violas portuguesas, típica do Baixo Alentejo (concelhos de Castro Verde, Ourique e Odemira)
 

Bonecos de Santo Aleixo: Adão e Eva (Centro Dramático de Évora)

 
Saúda-se o aparecimento destes programas consagrados à cultura e música tradicional portuguesa. O que não pode deixar de se lamentar é o horário absolutamente indecente em que foram colocados: entre as 07:10 e as 08:00 de domingo quando a generalidade dos ouvintes estão a dormir (só os caçadores é que devem já estar acordados – nem sequer os padeiros e os camionistas, como acontece durante a semana!). Será que Rui Pêgo não tinha à sua disposição um horário menos esconso na grelha da Antena 1? Com certeza que tinha: depois do noticiário das 19:00 de sábado, por exemplo. Que haja pois o bom senso de os repor num horário audível pela generalidade do auditório, em especial pelo que não tem internet. Como é bom de ver, constitui um perfeito absurdo que os melhores exemplos de serviço público fiquem fora do alcance dos ouvintes/contribuintes. Além de um incompreensível desperdício de recursos, acaba por estar em causa o reconhecimento do trabalho de quem, com amor e diligência, se empenhou na realização dos programas na expectativa de que pudessem ser ouvidos (com proveito cultural) pelo maior número possível de pessoas.

05 dezembro 2012

"Câmara Clara": um bom programa vilmente condenado à morte



«Caros amigos, o Câmara Clara e o Diário Câmara Clara terminam no fim de 2012. Esta decisão foi comunicada a Jorge Wemans, em Junho deste ano, quando era ainda director da RTP2.
Foi, para mim, um enorme privilégio trabalhar sobre as obras das muitas centenas de criadores, artistas e investigadores de que o Câmara Clara se ocupou ao longo dos últimos seis anos e meio. Um enorme privilégio trabalhar com os excelentes profissionais que integram a equipa do Câmara Clara, externa à RTP. Um enorme privilégio trabalhar com os profissionais da RTP que exemplarmente cumpriram a sua parte na produção e na realização do programa.
Orgulho-me do serviço que prestámos. Um serviço que é uma das faces, em meu entender inegociável, do serviço público de televisão.
É com naturalidade que aceitamos a ideia de que haja quem pode cumprir melhor a missão que nos estava atribuída. O futuro o dirá. A questão que se coloca agora não é, portanto, a do fim do Câmara Clara nas suas versões semanal e diária. A questão, premente, é a de saber que meios, que espaço e que visibilidade reserva o serviço público de televisão à cobertura de uma das áreas nevrálgicas do desenvolvimento do país: a inovação nas artes e nas ideias e a conservação do nosso extenso e precioso património cultural – da literatura à arquitectura.
A si, que nos acompanhou durante todos estes anos, agradecemos a atenção e a confiança. Foi sempre a pensar em si que cultivámos, com exigência e rigor, a clareza na comunicação daquilo que, acreditamos, deve ser acessível a todos. Até sempre» (Paula Moura Pinheiro, em comunicado à imprensa: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=604413)
 
"Um programa excelente, que é uma pena que acabe", disse ao PÚBLICO António Mega Ferreira, escritor e gestor cultural. "A Paula fazia aquilo bem e tinha bastante qualidade. Já era um programa com seis anos, era uma coisa, como se diz em francês, 'honorable'. O mínimo que espero é que apareça uma alternativa, que cubra o mesmo espectro, bastante amplo, de debate de ideias mais 'mainstream' até à revelação de novas tendências e novos criadores. O Câmara Clara não era um programa confinado." Mega Ferreira duvida, no entanto, que num momento em que está anunciada a privatização da RTP, este tipo de programas venha a ser contemplado nas grelhas de um operador privado. (in "Público", 30.11.2012)
  
Sou espectador assíduo do programa "Câmara Clara", desde que começou em Maio de 2006, tendo então lhe dedicado um pequeno texto, e não quero deixar de apresentar a Paula Moura Pinheiro e à sua qualificada equipa, designadamente aos jornalistas Luís Caetano e Inês Fonseca Santos, os meus reconhecidos agradecimentos por muitos e bons momentos de fruição cultural que me proporcionaram. Sinto-me, por isso, tremendamente defraudado com a decisão (alheia à autora) de acabar com o programa. Qual a razão? Elevados custos de produção, como alguns por aí andam a propalar? Eu pergunto: o "Preço Certo", o "Estado de Graça", o "Anti-Crise", o "Cinco para a Meia-Noite" e as touradas são mais baratos? Tenho seriíssimas dúvidas de que o sejam, mas se, por hipótese, tiverem um custo inferior, em termos meramente contabilísticos, representam sempre um prejuízo maior para os contribuintes. E porquê? Porque são LIXO. Tudo o que se gaste em lixo, um cêntimo que seja, é desperdício. O "Câmara Clara" está nos antípodas do lixo – é um programa de superior qualidade e em perfeita consonância com o conceito de serviço público. Nessa medida, o valor pecuniário envolvido na sua produção/realização (que está longe de ser uma extravagância, quando comparado com o de "produtos" televisivos de muito mais baixo quilate) jamais se poderá considerar, se quisermos ser honestos, um inútil dispêndio de recursos. As verbas aplicadas na cultura e na valorização intelectual dos cidadãos não são despesa – são investimento! Despesa são os rios de dinheiro gastos em coisas que nada dignificam a estação pública e que, em vez de promoverem a elevação cultural/espiritual dos telespectadores, os rebaixam ao nível da sarjeta. Aí, nessas trampas é que se podia (e devia) cortar. Isto para já não falar nos salários obscenamente desproporcionados que determinadas pessoas recebem da RTP. Não, nisso ninguém quer mexer! Por conseguinte, tenho de inferir que a machadada desferida ao "Câmara Clara" não radica propriamente em incontornáveis questões financeiras, antes se insere numa estratégia premeditada de entorpecimento mental das massas. «A gente obriga-vos a pagar a contribuição do audiovisual, mas depois quem escolhe o "serviço público" que vão ter somos nós. Um serviço que será sempre na medida dos nossos interesses de condicionamento cultural, como é óbvio» (não dito, mas pensado). O "Câmara Clara" acabou por ter o mesmo trágico destino do memorável "Acontece!", de Carlos Pinto Coelho, nove anos antes, também eliminado por motivos alegadamente económicos. Repete-se a história – só mudaram as personagens.
Portugal, portugalinho, que triste fado o teu!