21 março 2012

Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya"

Quando a UNESCO resolveu instituir o 21 de Março como Dia Mundial da Poesia terá sido com o propósito de a confinar a esse dia, visto não ser coisa prestável para os outros 364/365 dias do ano? Não. Bem pelo contrário!
O Dia Mundial da Poesia existe justamente para lembrar e sensibilizar as pessoas e as instituições da importância de que se reveste para o ser humano cultivar a poesia em qualquer dia e momento. Nesta ordem de ideias, não posso deixar de voltar a apontar o dedo à Antena 2 (e, já agora, também às Antenas 1 e 3) pela gritante ausência de um apontamento diário de poesia, desde que "Os Sons Férteis" chegaram ao fim. Isso aconteceu a 31 de Dezembro de 2008, já lá vão, portanto, mais de três anos, o que é bem eloquente da insensibilidade cultural de Rui Pêgo e seus adjuntos. Havendo no arquivo da RDP um fabuloso acervo de poesia dita, tal lacuna cultural no serviço público de rádio constitui, para todos os efeitos, um inominável crime de lesa-cultura.
Uma das vozes que disse poesia aos microfones da rádio portuguesa, primeiramente por mão de Júlio Isidro, foi a de Mário Viegas, e é dele que aqui se deixa um dos mais admiráveis exemplos da arte de bem dizer as palavras dos poetas: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena. Pelo tocante humanismo e apelo à tolerância de que está impregnado, este poema devia ser de audição obrigatória por toda a gente, em especial pelos mais jovens.


CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA




Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", 1963; "Antologia Poética", Porto: Edições Asa, 1999, págs. 108-111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 5 – "Pretextos Para Dizer", Público, 2006)
Música de Luís Cília


Francisco Goya, "Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808", c.1814, óleo sobre tela, Museu do Prado, Madrid


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25-06-1959


* Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto
Texto sobre o disco em:
Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008
URL: http://www.companhiateatraldochiado.pt/marioviegas.php
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Viegas
http://www.infopedia.pt/$mario-viegas
http://deltacat.blogs.sapo.pt/arquivo/1066153.html
http://www.myspace.com/marioviegas