27 dezembro 2006

Eduardo Street: morreu o grande artesão do teatro radiofónico



Nesta hora de tristeza para todos quantos amam o teatro, e especialmente o teatro via rádio, não podia deixar de prestar a minha singela homenagem a Eduardo Street, pelo muito que fez enquanto viveu pela arte de Talma. Além das dezenas e dezenas de peças e folhetins que realizou para a antiga Emissora Nacional e, depois do 25 de Abril de 1974, para a RDP, Eduardo Street deixou-nos ainda o livro "O Teatro Invisível" [>> artigo no blogue "Indústrias Culturais"], um documento precioso para quem desejar conhecer a História do Teatro Radiofónico em Portugal e as figuras – actores, autores e realizadores – que a protagonizaram. Escusado será dizer que Eduardo Street será um nome incontornável sempre que se falar do teatro radiofónico português. Mas agora o melhor que se pode fazer pela sua memória é não deixar morrer o teatro na rádio. É importante não esquecer que o teatro radiofónico (e televisivo) é a única forma de quem vive onde não há teatro de a ele ter acesso. Todavia, quer a televisão quer a rádio portuguesas estão a pecar – e muito – nesta área da prestação de serviço público. No caso da rádio, a situação é verdadeiramente confrangedora, pois depois de algumas experiências mal conseguidas e de mau gosto nos primeiros meses deste ano, passou a reinar o vazio. Ora a rádio, enquanto veículo da oralidade, é o meio privilegiado para a divulgação dos grandes textos dramáticos. A atenção do ouvinte não está dispersa por vários sentidos estando toda concentrada num único – a audição – podendo deste modo potenciar a fruição das palavras em toda a sua profundidade e pluralidade de sentidos. No palco e na televisão, o teatro é, em certa medida, um produto acabado que não deixa grande espaço à imaginação do espectador. Já o teatro radiofónico – e aqui assemelha-se à leitura – deixa total liberdade ao ouvinte para construir o seu próprio imaginário. Não existindo a componente da comunicação visual, os actores só podem contar com as suas vozes para transmitirem, com as cambiantes que lhes souberem imprimir, as emoções, os estados de alma e, enfim, o carácter e o perfil psicológico das personagens que incarnam. Por outro lado, o teatro, enquanto arte por excelência da oralidade, tem ainda a enorme relevância de nos mostrar a correcta pronúncia da língua portuguesa padrão. E atendendo ao mau português que se vai ouvindo, maior é a importância de haver teatro radiofónico. Aliás, no caso dos invisuais, essa é a única modalidade que se lhes apresenta de fruírem da arte teatral. Não estará a rádio pública a negar-lhes esse legítimo direito, sendo também eles contribuintes do serviço público?
Urge pois que a rádio pública portuguesa, seguindo o bom exemplo da BBC, colmate a grave lacuna no tocante ao teatro, já não digo com a produção de peças novas mas, pelo menos, com a transmissão do que de melhor existe – e é muito – no arquivo histórico da RDP, designadamente as obras-primas dos grandes autores dramáticos desde os gregos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Lope de Vega, Calderón de La Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Brecht, Eugene O’Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Jean Anouilh, sem esquecer os nossos Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ribeiro Chiado, António Ferreira, Luís de Camões, António José da Silva, Almeida Garrett, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, Luís de Sttau Monteiro e Bernardo Santareno.
Remato com um eloquente texto da autoria do dramaturgo mexicano Victor Hugo Rascón Banda que a grande Eunice Muñoz leu no Teatro Maria Matos, no último Dia Mundial do Teatro:

«O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade.
O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.
O teatro é um facto vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas que renasce sempre das cinzas. É uma comunicação mágica em que cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.
O teatro reflecte a angústia existencial do homem e desvenda a condição humana. Não são os seus criadores quem fala através do teatro: é a sociedade do seu próprio tempo.
O teatro tem inimigos visíveis: a ausência de educação artística na infância, que impede de descobri-lo e gozá-lo; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores das salas; e a indiferença e o desprezo dos governos que devem promovê-lo.
No teatro já falaram os deuses e os homens, mas agora é o homem que fala aos outros homens. Por isso, o teatro tem de ser maior e melhor do que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor da palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.
É preciso viver o teatro para entender o que nos está a acontecer, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e no pesadelo do quotidiano.» (Victor Hugo Rascón Banda)


Adenda (em 28-12-2006):
Recomenda-se também a leitura do texto de Carlos Pinto Coelho no blogue "Sorumbático".

O blogue "A Nossa Rádio" orgulha-se igualmente de disponibilizar a edição do programa "Agora... Acontece!" em que Carlos Pinto Coelho entrevistou Eduardo Street, por ocasião do lançamento do livro "O Teatro Invisível: História do Teatro Radiofónico".


"Agora... Acontece!" N.º 379, de 26-Jun-2006



Eduardo Street entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 27':30'']



Capa do livro "O Teatro Invisível: História do Teatro Radiofónico" (Página 4, 2006)

20 dezembro 2006

Natal


Giotto di Bondone, "Natividade", 1306, fresco, Cappella dell'Arena (Cappella degli Scrovegni), Pádua


NATAL



Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.



Poema de Miguel Torga (in "Diário X", Coimbra: Edição do autor, 1968; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2007)
Recitado pelo autor (in LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. EMI-VC, 2000)

07 dezembro 2006

Programas de autor na Antena 1

Quem acompanha com alguma atenção a emissão da Antena 1, certamente já se deu conta da fraca presença de programas de autor, designadamente de temática musical. E quando falo de programas musicais de autor estou a referir-me a espaços alargados em que os temas / músicas seleccionadas fujam à lógica da 'playlist' e em que haja uma contextualização dos intérpretes, compositores e autores. A Antena 2 faz isso nas áreas da música clássica, do jazz e da música étnica. Esperar-se-ia que na Antena 1 acontecesse algo de semelhante para a música de qualidade de cariz mais popular, mas constata-se um flagrante défice do principal canal generalista da rádio estatal nesse domínio. Actualmente, temos "A Menina Dança?", de José Duarte (jazz e swing), "Ondas Luisianas", de Luís Filipe Barros (pop/rock dos anos 60, 70 e 80), "Vozes da Lusofonia", de Edgar Canelas (apresentação de novos discos), "Viva a Música", de Armando Carvalhêda (música portuguesa ao vivo), e "Lugar ao Sul", de Rafael Correia (cultura tradicional). Todos eles são bons programas, isso está fora de questão. Mas temos de admitir que é muito pouco, ademais tratando-se de programas de periodicidade semanal. Atendendo à prevalência imperial da 'playlist' que o próprio José Nuno Martins reconheceu quando se pronunciou sobre a programação musical da Antena 1, é inquestionável que devia haver mais espaços de autor que contemplassem de forma cabal e razoável os diversos estilos e géneros musicais a que um canal de serviço público deve prestar uma atenção muito particular. E neste âmbito tem de se referir obrigatoriamente a música popular portuguesa (tradicional e de autor), o fado, a música latina e também as músicas do mundo de cariz não estritamente étnico. Volto a lembrar que as pequenas rubricas dedicadas a algumas destas áreas, que existem na actual grelha da Antena 1, em razão da sua diminuta duração, são claramente insuficientes para corresponder às legítimas expectativas dos segmentos do auditório apreciadores dos géneros musicais nelas tratados. Como tal, urge que surjam espaços de outro fôlego que possam constituir pontos de referência para todos os cultores de boa música popular em cada uma das diversas linguagens estéticas. E para tal nem seria necessário recorrer à colaboração externa (como acontece na Antena 2) pois bastaria aproveitar o capital humano da RDP, quer da Antena 1 quer das demais antenas. Sem prejuízo da criação de novos programas, não vejo nenhuma razão plausível para que a Antena 1 não inclua na sua grelha alguns dos melhores programas dos canais internacionais – RDP-Internacional e RDP-África –, aliás como estes fazem com alguns programas originalmente emitidos na Antena 1. Tratando-se de canais financiados com o dinheiro dos contribuintes há todo o interesse em que os recursos sejam potenciados ao máximo e, nessa medida, ao cidadão português que resida em território nacional (continental ou insular) deve ser dada a possibilidade de ouvir por via hertziana os programas das antenas internacionais que são referências de qualidade e de indiscutível interesse geral. "A Guitarra Portuguesa e o Fado" (RDPi) e "A Hora das Cigarras" (RDP-África) são dois bons exemplos de programas desse tipo que enriqueceriam de forma significativa a grelha da Antena 1 e, ainda por cima, a custo zero. E já agora aproveito para fazer referência a outro excelente programa de autor patrocinado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia: o "Agora... Acontece!", da autoria de Carlos Pinto Coelho. Este notável programa cultural é cedido gratuitamente a todas as emissoras de rádio que o solicitem mas mesmo assim ainda há muitas estações locais e regionais que o não transmitem (vá-se lá saber porquê?), pelo que muitos cidadãos deste país ficam impossibilitados de o ouvir. Nessa medida, a inclusão do "Agora... Acontece!" na grelha da Antena 1, além de enriquecer a sua programação, constituiria ainda o relevante serviço público de fazer chegar um bom programa a muitos ouvintes que a ele não tem acesso por via hertziana.