26 maio 2006

"Câmara Clara": o novo programa de actualidade cultural da RTP-2



Em 7 de Abril lavrei aqui o meu protesto contra a extinção do "Magazine", programa que no segundo canal da televisão pública dava conta da actividade cultural. Para mim, era um escândalo o serviço público de televisão não ter um espaço deste género. Por isso, foi com agrado que ontem ouvi Paula Moura Pinheiro, subdirectora de programas da RTP-2, anunciar um novo programa para suceder ao "Magazine". Chama-se "Câmara Clara" e vai para o ar aos domingos, logo a seguir ao Jornal 2, por volta das 22:30. O horário merece o meu aplauso, mas confesso que achei o título algo exótico. "Câmara Clara" porquê? Depreendo que se queira dar a ideia de uma câmara de filmar com o diafragma totalmente aberto. Dado que as actividades que vão ser focadas decorrem sobretudo à noite, em ambientes de fraca luz, até percebo a ideia. Para me certificar consultei um dicionário, mas a definição que aparece é outra: câmara clara – dispositivo adaptável aos microscópios, que permite desenhar o que se observa, por um processo semelhante ao decalque. Bem, passemos à frente porque os títulos são o que menos importa. O que realmente interessa são os conteúdos e, como tal, fico na expectativa que eles façam jus ao que deve ser um verdadeiro serviço de informação cultural. Espero que o novo programa, não caia no erro do "Magazine" que dava um destaque desmesurado à música pop e se limitava a fazer uma referências escassas e breves à música clássica, ao jazz e à 'word music'. Faço votos para que o responsável editorial do "Câmara Clara" não deixe passar em claro o que de melhor for acontecendo em matéria de música popular portuguesa (tradicional e de autor), já que se trata de um género que tem sido muito desprezado pela nossa rádio. É também para isso que existe o serviço público de televisão: dar representatividade mediática à actividade cultural e artística que não tem por detrás uma forte máquina promocional.




Adenda (em 30-Maio-2006):

Paula Moura Pinheiro, logo no início da primeira emissão, dignou-se dar uma explicação para o nome do programa. Na verdade, "A Câmara Clara" é o título de um livro do pensador francês Roland Barthes que versa sobre a natureza da fotografia, o amor e a morte. Editado pela primeira vez em França no ano de 1980, está disponível em português (de Portugal) na colecção Arte & Comunicação, das Edições 70.



Capa do livro "A Câmara Clara" – Edições 70 (Portugal)



Capa do livro "A Câmara Clara" – Editora Nova Fronteira (Brasil)

RDP-Antena 1: anos 80

Francisco Mateus, no blogue Rádio Crítica, a exemplo do que fez para a Rádio Comercial dos anos 80, inventaria também uma série de programas da Antena 1 da mesma década. Remata com uma apreciação da situação actual, da qual respigo a esta passagem: «Sou defensor da existência em Portugal do serviço público de radiodifusão, não para rivalizar com os operadores privados, mas para ser diferente destes. Para ser uma alternativa sólida, qualitativa e credível. Em 2006 a RDP, "A rádio que liga Portugal", está com um pé em cada um dos lados, e sendo assim, não está assente em nenhum. Ficando a meio caminho, acaba por "apanhar" dos dois.»
Devo dizer que não podia estar mais de acordo com estas palavras e permito-me precisar que é justamente na programação musical que a Antena 1 mais peca por não ser uma alternativa qualitativa e credível às estações privadas. É facilmente verificável que quase não existem espaços musicais de autor, sendo os alinhamentos preenchidos por uma 'playlist' que pouco ou nada difere das rádios que dependem da publicidade. Uma 'playlist' monolítica, monopolizada pela música pop, que não promove o fado e ainda menos a música popular portuguesa (tradicional e de autor). Por isso, quando ouço o slogan "A rádio que liga Portugal" soa-me a uma piada de muito mau gosto.

19 maio 2006

"Sons da Escrita" ou a música das palavras

Já aqui lamentei, mais do que uma vez, a escassez de poesia na nossa rádio (vide 'posts' Poesia na rádio e A poesia é para todos os dias). Defendo – e sei que não sou o único – que a rádio é o meio mais adequado para o culto da palavra, designadamente a palavra poética. E isso pode ser feito de duas maneiras: pela recitação e pelo canto. Muitos foram os actores que resgataram ao silêncio dos livros as palavras dos nossos poetas maiores e cuja arte ficou perpetuada em registo sonoro. Cito alguns dos mais conhecidos: João Villaret, Mário Viegas, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Carlos Daniel, João Grosso, Manuela de Freitas, Vítor de Sousa, Santos Manuel. Isto claro está sem esquecer os próprios poetas que entenderam dizer (uns bem, outros menos mal) os seus próprios poemas: Almada Negreiros, José Régio, Miguel Torga, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade.
E seria imperdoável não fazer uma referência a eméritos locutores, como Maria Clara, António Cardoso Pinto, Vítor Nobre, Graça Vasconcelos e Paulo Rato (apenas para citar os mais recentes), que aos microfones da rádio pública fizeram chegar a poesia a um público mais vasto. E digo "fizeram" porque o único que ainda o faz (e muito bem) é Paulo Rato no apontamento de poesia
Os Sons Férteis, e que merecia outro destaque na grelha. Um ponto que reclama urgente correcção! E de poesia gravada (editada em disco ou guardada no arquivo histórico da RDP) nem vale pena falar tal é a míngua. Se não fosse dois ou três profissionais como Luís Caetano (Um Certo Olhar) e Rafael Correia (Lugar ao Sul) terem uma particular sensibilidade nesta área a miséria seria ainda maior.
Felizmente que a internet trouxe uma nova possibilidade, ao facultar muita e boa poesia quer sob a forma escrita quer sob a forma oral. A este propósito faço uma referência muito especial a José António Moreira que através do blogue
Sons da Escrita faz autênticos programas de rádio tendo como matéria-prima a poesia portuguesa e alguma da melhor música anglo-americana (Pink Floyd, King Crimson, Steve Winwood, Moody Blues, Crosby Stills & Nash, Bob Dylan, Leonard Cohen, Paul Simon, Enya, Clannad, Eric Clapton, Kinks, Mark Knopfler, etc.). Ora aqui está um trabalho que faço questão de louvar e que atendendo à situação que se assiste na rádio constitui um relevante serviço público cultural e que merece ser apoiado.

"O Ouvido de Maxwell" em podcast

O programa "O Ouvido de Maxwell", da Antena 2, um dos melhores actualmente disponíveis na nossa rádio, já foi objecto do merecido destaque aqui neste blogue em 21 de Fevereiro. Aos ouvintes do programa e eventuais interessados fica a notícia de que já está disponível para 'podcasting' na página http://www.ouvidodemaxwell.com.

09 maio 2006

"Agora… Acontece!"



Depois desse acto bárbaro que foi a extinção do programa "Acontece!" e do afastamento de Carlos Pinto Coelho da RTP, passámos a contar com ele na TSF, no programa "Directo ao Assunto", espaço de debate nas manhãs de domingo. Mas a sua actividade radiofónica não começou aí. A par do programa televisivo, Carlos Pinto Coelho já vinha realizando o programa "Agora… Acontece!" que passa em várias dezenas de rádios locais e regionais. O programa é patrocinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – o que é de louvar – mas ao contrário do que seria de supor, os temas abordados não se confinam à ciência pois são contempladas todas as áreas da actividade cultural e artística. Nesta medida, o "Agora… Acontece!" é um notável exemplo de serviço público e por essa razão assume ainda maior relevância atendendo ao estado calamitoso a que chegou a maioria das rádios locais (vide texto no blogue A Rádio em Portugal). Mas, estranhamente, e apesar dos direitos de transmissão serem cedidos gratuitamente a todas as emissoras que o desejem, constata-se que a maioria delas não o transmite. Porque é que isto acontece? Falta de divulgação do programa junto das rádios ou falta de sensibilidade dos directores das mesmas? A primeira hipótese é de imediato descartada porque, segundo sei, todas foram contactadas pela produção do programa. Então resta a segunda hipótese, o que configura uma a situação muito grave porque as rádios locais têm uma obrigação de serviço público de que não podem abdicar e que assumiram quando se candidataram à concessão de alvará de radiodifusão. Uma rádio local não existe para ocupar praticamente todo o tempo de emissão com conteúdos musicais decalcados das rádios nacionais as quais, como é sabido, estão ao serviço dos interesses comerciais das 'majors' multinacionais. E quando um determinado programa é cedido a custo zero torna-se completamente absurdo que seja rejeitado, ainda para mais quando ele constituiria o único espaço cultural de muitas dessas estações. Como tal, terá forçosamente de se concluir que a direcção de boa parte das rádios locais não é ocupada pelas pessoas mais competentes e preparadas para o exercício da função. Em face disto, tem de se pedir responsabilidades ao Governo por estar a pecar por omissão ao não assumir o seu papel de regulação como lhe competiria.
As pessoas que não têm a sorte de terem no seu concelho uma rádio que transmite o programa ou que não tenham internet (ou que tendo não querem recorrer a esta opção por ser mais dispendiosa) ficam impossibilitadas de o ouvir. Sendo o "Agora… Acontece!" um programa de relevante serviço público e estando envolvidos dinheiros públicos, urge que situação tão anómala seja corrigida de modo a que todos os portugueses a ele tenham acesso, por via hertziana.
Fica aqui o meu apelo a quem de direito.


Nota: Comentários e opiniões sobre o programa devem ser enviados para a produção:
agora.acontece@clix.pt.
Quem desejar receber a lista das rádios emissoras do "Agora… Acontece!", basta solicitá-lo escrevendo para
ajferreira74@gmail.com.

02 maio 2006

Adriano Correia de Oliveira: um grande cantor silenciado na rádio pública



Muita gente – eu incluído – se lamenta da baixa qualidade da música que passa na rádio portuguesa e do facto de tanta e boa música que se faz (ou se fez) não chegar à luz do éter. São muitos os artistas de talento atingidos, mas no caso de Adriano Correia de Oliveira o silêncio dói ainda mais, justamente por se tratar de um dos nomes maiores da música portuguesa de sempre. Pessoalmente, não é pelo facto de a rádio não o passar que deixo de o ouvir sempre que me apetece porque felizmente tenho na minha discoteca uma caixa com a sua obra completa. Devo confessar que foi a rádio – mais concretamente a Antena 1 – que mo deu a ouvir pela primeira vez quando passou a "Trova do Vento que Passa" (salvo erro, no programa "Retratos", de Ana Aranha). Nesses anos 90, já o grande cantor não pertencia ao número dos vivos, mas foi tal o fascínio que aquela voz cristalina e de uma beleza ímpar me causou que fui logo à procura de outras músicas suas. A primeira aquisição foi uma antologia a que se seguiu a referida caixa, editada pela Movieplay, com 7 CDs organizados tematicamente por José Niza (autor da música de alguns dos mais belos temas de Adriano e também da letra de "E Depois do Adeus" imortalizada por Paulo de Carvalho). Escusado será dizer que Adriano Correia de Oliveira se tornou um dos meus cantores de culto e, tal como eu que o descobri pela rádio há uma dúzia de anos, não duvido que aconteceria o mesmo com muitos jovens de agora se a rádio o passasse. A este propósito, gostei que Paulo de Carvalho, na última edição do "Viva a Música", tivesse lamentado o ostracismo a que a rádio portuguesa tem votado o grande Adriano Correia de Oliveira dizendo muito propositadamente que, apesar de ele já não se encontrar entre nós, existe a obra – uma obra sublime, acrescento eu. Por tudo isto, solidarizo-me com a indignação manifestada por Paulo de Carvalho e apreciei a homenagem que fez a Adriano ao recuperar "Cantar de Emigração", um dos seus temas emblemáticos.
A este propósito, impõe-se a pergunta: por que razão é que Adriano Correia de Oliveira não passa actualmente na Antena 1 e na Antena 3, ao contrário que acontece com António Variações que morreu, mais ou menos, na mesma altura? Não queria ser indelicado mas, quando se decide silenciar Adriano Correia de Oliveira na rádio pública, a razão de fundo só pode ser a ignorância e ou a falta de sensibilidade musical.
Em agradecimento a Adriano Correia de Oliveira por tantas e belas canções que nos deixou, fica aqui a letra da minha preferida:



Fala do Homem Nascido



Poema: António Gedeão
Música: José Niza
Viola: Rui Pato



Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.



(in "Cantaremos", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999)