24 fevereiro 2006

"Viva a Música": lugar à música portuguesa



Armando Carvalhêda levou ontem ao seu "Viva a Música" a fadista Maria Ana Bobone, sem dúvida alguma uma das melhores vozes da nova geração. Já tinha ouvido alguns temas do disco "Nome de Mar" pela mão de Edgar Canelas, no programa "Vozes da Lusofonia", mas voltei a sentir o mesmo prazer ao ouvi-la no palco da rádio. Também fiquei algo admirado que Maria Ana Bobone, um dos talentos que João Braga tem trazido para a ribalta, só agora tenha lançado o seu primeiro disco a solo. Ela alegou razões de índole pessoal mas cá para mim parece-me que deve ter havido uma outra razão bem menos prosaica, quero dizer, a crescente insensibilidade dos responsáveis das editoras face à música portuguesa mais autêntica. Bem, o disco está aí para provar que o fado continua vivo e de boa saúde e que não é música de museu, como alguns pretendem e que gostariam de o ver confinado às casas de fado para consumo de turistas e de alguns saudosistas. Felizmente que há também na rádio um espaço que faculta a audição ao vivo não apenas de fado mas também de outros géneros da música portuguesa e lusófona. E isto deve ser louvado e enaltecido, numa altura em que algumas pessoas de responsabilidade não tem o menor pejo em chamar música portuguesa às canções que alguns portugueses cantam em inglês (de música cantada em língua inglesa prefiro mil vezes a que é feita por alguns britânicos e americanos, do mesmo modo que prefiro a Amália a uma qualquer japonesa por melhor que ela cante o fado). Outro aspecto que faço questão de elogiar é a preocupação que Armando Carvalhêda tem em contemplar as músicas mais representativas da portugalidade – fado e música de raiz ou inspiração tradicional. Numa altura em que as 'playlists' não são mais do que instrumentos ao serviço dos interesses mercantilistas das grandes editoras, assume ainda maior importância a existência de espaços que procuram corresponder às expectativas dos segmentos do público que não se contentam com os produtos mais medianos e comerciais. Como tal, esses ouvintes – entre os quais me incluo – têm uma dívida de gratidão para como Armando Carvalhêda pela atenção que tem dado à música que melhor exprime a nossa identidade. Pena é que esse paradigma de serviço público não seja extensivo aos espaços musicais de continuidade da Antena 1.

Nota: O "Viva a Música" vai para o ar, em directo, às quintas-feiras (16h) e repete aos sábados (15h). Quem quiser pode assistir ao vivo no Teatro da Luz, ao Colégio Militar em Lisboa.




Meu Nome É Nome de Mar



Letra: Manuel Alegre
Música: João Braga; arr. Ricardo Rocha
Intérprete: Maria Ana Bobone* (in CD "Nome de Mar", Vachier & Associados/Farol Música, 2006)


[instrumental]

Meu nome é nome de mar
Onde o longe é mais visível
Nome de sonho a embarcar
Para um amor impossível
Meu nome é nome de mar [bis]

Meu nome é nome de vento
Escrito na areia na espuma
E na flor do pensamento 
Que é luz por dentro da bruma
Meu nome é nome de vento [bis]

Meu nome é nome de fado
Nome de casa e de rua
Nome de encontro marcado
Na outra face da lua
Meu nome é nome de fado

[instrumental]

Na outra face da lua
Meu nome é nome de fado


* Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola
Marino de Freitas – baixo
Direcção musical e arranjos – Ricardo Rocha
Produção – Maria Ana Bobone 
Gravado ao vivo na Igreja da Graça, Lisboa
Gravação, misturas e masterização – João Magalhães



Capa do CD "Nome de Mar" (Vachier & Associados/Farol Música, 2006)
Fotografia: Francisco Van Zeller
Design: Rui Garrido

21 fevereiro 2006

"O Ouvido de Maxwell": pare, escute, sinta


Sem a música a vida seria um erro.
                       Nietzsche

Quando escrevi sobre
a nova grelha da Antena 2, fiz uma breve referência a este extraordinário programa, da autoria de António Almeida. Na verdade trata-se das melhores coisas que actualmente se podem ouvir na nossa rádio e, como tal, é de toda a justiça lhe seja dado maior realce. "O Ouvido de Maxwell" faz parte daquela categoria de programas cada vez mais raros na rádio portuguesa, capazes de proporcionar uma inusitada fruição auditiva. Como tal, a palavra 'ouvido' não podia ter sido escolhida com mais propriedade. Então e a que propósito aparece o antropónimo Maxwell? O nome não é muito conhecido do grande público, mas na verdade trata-se de uma das grandes figuras da Física do séc. XIX, sobretudo pelo contributo que deu nas áreas da termodinâmica e do electromagnetismo. De facto, foi o escocês James Maxwell (na foto) que definiu a natureza ondulatória da luz através de equações matemáticas e que predisse a existência de ondas electromagnéticas não visíveis (em 1864), cuja confirmação experimental viria a ser feita por Hertz alguns anos mais tarde. Assim, a invocação de Maxwell num programa de rádio é pertinente.
Para mim, ouvir do programa "O Ouvido de Maxwell" constitui uma espécie de ritual litúrgico, uma experiência única só possível com o sentido da audição o que talvez se explique por o ouvido ser, como já alguém disse, "a porta daquilo que não é deste mundo". Por alguma razão, o ouvido na altura do adormecer é o último sentido que capitula perante a passividade inconsciente que chega, antes de se entrar na antecâmara da morte, como Shakespeare chamou ao sono. Durante a vigília os ouvidos são de todos os órgãos sensoriais os que têm um funcionamento mais imediatista e incontrolável: "as orelhas não têm pálpebras", como se dizia no programa inaugural. Por isso, não lhes é possível evitar e ignorar a informação sonora envolvente seja o som ou a ausência dele – o silêncio. «O silêncio é para as orelhas o que a noite é para os olhos. Quando a música soa, uma porta abre-se e nós entramos». Durante muito tempo, dado que a música era rara a sua sedução era vertiginosa e a sua fruição constituía uma experiência de comunhão com o inefável, com o intangível. Mas no mundo moderno em que estamos rodeados de ruídos e de música por todos os lados tornou-se inevitável a banalização, perdeu-se o fascínio primordial, o carácter ritualizado que ela teve até ao advento e proliferação dos meios de reprodução sonora, primeiro o gramofone e depois a rádio, a televisão, os auto-rádios com leitores de cassetes/CDs, os leitores portáteis de áudio digital. A música foi transformada num produto de consumo como qualquer outro.
"O Ouvido de Maxwell" dá-nos justamente o contraponto entre os múltiplos e incessantes ruídos que caracterizam a nossa civilização e a música que se ouvia desde a remota Idade Média até à Revolução Industrial. E como na poesia em que há um mote a que têm de obedecer as estrofes seguintes também cada emissão de "O Ouvido de Maxwell" é subordinada a um tema diferente. O sábio encadeamento entre os textos lidos, a música alusiva criteriosamente escolhida e os sons da actualidade (um ruído captado na rua, um excerto da banda sonora de um filme, etc.) tornam o programa um obra conceptual de rara beleza e sublime contemplação auditiva.
Dos programas até agora emitidos, não posso deixar de fazer uma referência muito especial ao programa "La commedia è finita", dedicado à morte, um tema propositadamente evitado na actual sociedade de consumo. Mas a morte, sobretudo antes da descoberta da penicilina e da democratização dos cuidados de saúde, era uma realidade quotidiana que não era possível iludir. Também nós, por muito que nos custe, seremos um dia confrontados com ela. Neste contexto, permito-me transcrever, e com a devida vénia ao seu autor, alguns excertos do citado programa que me pareceram mais eloquentes. Porque a reflexão sobre a morte pode ajudar-nos a apreciar e a valorizar melhor a vida.


_____________________________________________


La commedia è finita
É aqui que as pessoas vêm para viver?
Sou antes tentado a crer que se morre aqui.
Rilke

Hoje mais do que fugir, ignora-se a morte. Tratamo-la como um hóspede indesejado que se arruma num quarto esconso, do qual se deita a chave fora. Vive-se como se se vivesse para sempre. Não estamos cientes que a qualquer instante a comédia pode acabar. Ignora-se o que mais valoriza o único de cada momento. É também pela convivência diária com a morte que se constrói uma vida genuína.

Acabar é o verbo que menos gosto. Morrer já me diz mais. Prefiro-o aos sinónimos: expirar, apagar, passar, trespassar, perecer, desaparecer, sucumbir, falecer. Uns porque asseguram que há qualquer coisa depois, outros porque afirmam que não há nada. Só morrer rende o facto e o enigma, a solidão de se ser tomado em qualquer coisa que não tem sentido.

Porquê a morte? É perguntar-se: porquê as palavras? Pois o que resta a deixar, a perder? Palavras; muitas vezes nada mais que um mero: Rosebud. Conhece-se esse guião que tem a beleza dos desvios e a abertura das coisas simples. Um moribundo pronuncia essas sílabas indecifráveis. Pensa-se num nome de palácio, de livro, de mulher, de empresa. Mais tarde descobre-se que era um nome de nada, um nome gravado sobre um trenó de criança.
Restam também frases como "agora e na hora da nossa morte". Em criança, pronunciava essas palavras sem as compreender. Não vivia senão à hora presente, e acreditava que a outra hora jamais soaria. Não sabia que só as orações diziam a mesma coisa nos dois extremos do tempo, que as palavras envelhecem como as peles, que se carregam de rugas, de vazios, e de gorduras. Mas algumas permanecem intactas, jovens, crianças quase. Parecem vir de uma voz que ignora o tempo. Falaremos nós mais alto, mais certo, quando essa hora chega? Porque é que será assim? As nossas palavras serão elas ainda articuladas, ou meros gemidos e balbuciamentos? Faremos nós a besta quando o anjo desliza sobre nós a sua asa?

E agora? Deixaste de habitar o mundo dos vivos. O mundo dos mortos adiados. A tua hora soou. Deixaram de te conceder o adiamento. Deves servir. E servirás tanto melhor quanto melhor tiveres aproveitado o tempo em que esperavas ordeiramente na fila a tua vez. Servir para quê? Perguntas. Da poeira de estrela vieste e a ela voltarás: "das cinzas às cinzas".
Enquanto estiveste por aqui o que é fizeste? O que é não fizeste? O que é que devias ter feito? O que é querias fazer e não fizeste por cobardia, por preguiça, por ignorância de que esta hora ia chegar.
Era só uma questão de tempo. Tudo é uma questão de tempo. Tu desapareceste. E um dia também o sítio onde exististe desaparecerá, e o planeta girante onde esse sítio existiu, e o sistema onde esse planeta girou, e a galáxia onde esse sistema existiu. Tudo será tragado num vórtice que algures por aí aguarda também a sua vez. Serás átomos, electrões, neutrões, protões, e outras partículas sub-atómicas. Cada um livre de ir onde o vórtice na sua voracidade o projectar.
E nessa sopa de partículas o que resta de ti? Da tua vida?
O que habitará nelas do que tu foste?

_____________________________________________

Nota: O programa é emitido às quintas-feiras, pelas 10 horas da manhã ou meia-noite, alternadamente. A próxima emissão será no dia 23 à meia-noite e nela se fala daqueles que não prestam para nada mas que fazem o grande 'sacrifício' de 'servir' na política. Feliz e oportuna a inclusão do romance falado por João César Monteiro ao som de sanfona, peça de antologia do filme "Vai-e-Vem".

17 fevereiro 2006

"Pessoal e Transmissível": 5 anos de entrevistas



Esta página tem como âmbito a rádio pública mas não é indiferente a programas emitidos noutras estações que são exemplos de serviço público. É o caso do programa "Pessoal e Transmissível", agora a comemorar cinco anos de emissões na TSF. O programa tornou-se, por mérito do seu autor, o jornalista Carlos Vaz Marques, uma referência da nossa rádio no campo da entrevista. Sem formalismos e sem peias, Carlos Vaz Marques consegue imprimir às suas entrevistas a espontaneidade que a imprensa e mesmo a televisão não conseguem dar. E tudo isto é feito sem retirar profundidade e seriedade aos assuntos abordados. Um notável exemplo do poder e do fascínio da rádio. Das entrevistas mais recentes destaco a que teve como convidado o neurocirurgião e escritor João Lobo Antunes, a propósito da edição do seu último livro "Sobre a Mão e Outros Ensaios". No momento da nossa civilização em que a morte se tornou o maior dos tabus, gostei de ouvir o Prof. João Lobo Antunes falar sem rodeios e de forma desassombrada sobre o tema.
Está pois de parabéns Carlos Vaz Marques e também a TSF pelo relevante serviço público que presta com este e outros programas.

Nota: "Pessoal e Transmissível" é emitido, de segunda a quinta-feira, depois do noticiário das 19 horas.
Os programas já emitidos podem ser (re)ouvidos online, em qualquer altura, no
arquivo de programas da TSF.
Também já está disponível para
podcasting.
Algumas entrevistas foram passadas a escrito e publicadas em livro.

13 fevereiro 2006

Agostinho da Silva: centenário do nascimento

Me fiz gente se é que sou
em Barca d'Alva do Douro
para cima tudo celta
para baixo tudo mouro

o pior é que Alentejo
e Algarve tendo nas veias
como vou eu libertar-me
de tão apertadas teias

decerto não escapava
se fosse intelectual
como esses que tem havido
mais simples que Portugal

quem não for um mais o outro
mesmo que em contradição
será vencido na vida
lhe desfeito o coração

menos nadar que boiar
é que é a sabedoria
deixe a vida demonstrar
que é a verdadeira guia

e que é só ela quem sabe
o bom rumo da nação
e o porto a que vai chegar
quer ela queira quer não.


Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho")


Filho de pai algarvio e mãe alentejana, George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto, no dia 13 de Fevereiro de 1906, faz hoje exactamente 100 anos. Passou a infância em Barca de Alva, Alto Douro, posto fronteiriço onde o pai exerceu as funções de inspector alfandegário. Licenciou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras do Porto, onde teve como professor Leonardo Coimbra, paladino do movimento filosófico conhecido como Renascença Portuguesa. Doutorou-se na Sorbonne, em Paris, com uma tese sobre Montaigne. Demitido do ensino oficial português, em 1935, por se recusar a assinar, por convicções pessoais, uma declaração «jurando não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta», passou a leccionar no ensino particular, tendo-se contado entre os seus alunos Mário Soares e Lagoa Henriques. Colaborou em publicações de referência como a revista "Seara Nova" e, no âmbito da sua actividade pedagógica, redigiu biografias de grandes figuras da História da Humanidade (Moisés, São Francisco de Assis, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Émile Zola, Lincoln, Pasteur, etc.) e os Cadernos de Informação Cultural "Iniciação". Um deles, "O Cristianismo" (1942), pela visão heterodoxa nele expressa, veio a gerar violenta reacção de alguns clérigos e autores católicos, e a consequente perseguição pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que chegou a encarcerá-lo na prisão do Aljube durante algumas semanas. Em 1944, exilou-se no Brasil onde fundou e fomentou a criação de várias universidades (Paraíba, Santa Catarina e Brasília) e o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía, a par de uma intensa actividade académica e científica nos mais diversos campos do saber (Literatura, Filosofia, História, Teatro, Geografia, Sociologia, Antropologia e também em áreas da Biologia como a Botânica, a Entomologia, a Histologia e a Parasitologia). Regressou a Portugal em 1969, vindo a criar um fundo para a atribuição do Prémio D. Dinis. Mesmo sem o estímulo da vida académica, sempre se caracterizou por uma renovada curiosidade científica bem patente na aprendizagem de línguas como o malaio e o esperanto e nas viagens demoradas que fez por diversos países designadamente o Japão.

Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.

ibidem


Na sua vida adoptou um franciscanismo simultaneamente laico e paraclético que, segundo o Prof. Jesué Pinharanda Gomes, constitui «um singular testemunho propedêutico do messianismo português». O seu desapego das coisas materiais e sobretudo as suas ideias heterodoxas, designadamente a sua visão neo-vieiriana sobre o papel de Portugal no mundo, suscitaram o desdém de alguns intelectuais da nossa praça mas transformam-no numa espécie de guru para muitos jovens. Em 1990, a série "Conversas Vadias", que manteve na RTP-1 com treze figuras conhecidas dos media, fazem-no chegar ao grande público. Vem a falecer em Lisboa, a 03 de Abril de 1994, domingo de Páscoa. A sua vasta e heterogénea obra bibliográfica, que se encontrava dispersa por várias editoras (Ulmeiro, Relógio d'Água, Assírio & Alvim, etc.), foi sistematizada numa edição lançada pela Âncora e pelo Círculo de Leitores.
Perguntar-me-ão: a que propósito vem a evocação do Prof. Agostinho da Silva num blogue sobre rádio. A explicação é muito simples: é que foi justamente na rádio que eu o descobri pela mão do radialista Fernando Alves. E de imediato me impressionou a sabedoria com que falava das coisas mais profundas utilizando uma linguagem simples e coloquial, bem diferente do jargão académico muito comum em boa parte dos seus pares. A partir daí procurei conhecer melhor o seu pensamento através dos livros, mas não deixo de ficar sempre deliciado e fascinado quando me é dada a oportunidade de o ouvir na rádio. Foi o que aconteceu na manhã de ontem, quando Germano Campos, no programa "
Café Plaza", recuperou do arquivo histórico da RDP uma conversa havida com Graça Vasconcelos em que o professor falou da dicotomia liberdade versus destino. E teve o condão de me por a reflectir até que ponto muitas das coisas que fazemos supostamente no exercício do nosso livre-arbítrio não são no fundo ditadas pela nossa própria essência bio-psico-fisiológica. Será que somos verdadeiramente livres, ainda que sem grilhetas sociais, quando não nos podemos subtrair da nossa natureza corpórea, do burro albardado como lhe chamou Agostinho? O homem, ser que aspira à liberdade, está condenado a cumprir o seu destino enquanto homem porque lhe não é possível ser outra coisa.
Além de Fernando Alves e de Graça Vasconcelos, outros profissionais da nossa rádio entre os quais José Nuno Martins fizeram entrevistas ao grande pensador. Cumpre-me aproveitar esta ocasião para chamar a atenção para o interesse da inventariação, tratamento e salvaguarda desses registos avulsos e dispersos antes que se deteriorem ou levem sumiço. Longe de serem documentos de valor desprezível, as conversas que Agostinho da Silva fez na rádio não deixam de ter importância no conjunto do seu legado. Por isso, lanço daqui um repto à Associação Agostinho da Silva no sentido desse espólio fonográfico ser coligido, digitalizado e colocado numa página da internet de modo a que todos os interessados – estudiosos e público em geral – a ele tenham acesso. Do mesmo modo que um livro tem de ser lido para existir, também uma voz que não se ouve é como se não existisse. Fazer com que o pensamento de Agostinho continue vivo também passa por aí.

Nota: A
Antena 1 associou-se (e muito bem) às comemorações do centenário com a transmissão de um programa evocativo realizado por António Jorge.
A TSF dedicou um fórum subordinado ao tema "a portugalidade e o papel de Portugal no mundo" e vem transmitindo apontamentos evocativos realizados por Fernando Alves.
O
canal 2 da RTP assinala a efeméride com a reposição durante a semana (logo a seguir ao "Magazine", por volta da 1h da manhã) de quatro das "Conversas Vadias", mais precisamente as que tiveram como interlocutores Adelino Gomes, Miguel Esteves Cardoso, Herman José e Maria Elisa Domingues. A não perder, enquanto não sai a colecção completa em DVD!


Adenda (em 17-Fevereiro-2006):

A RTP-2 transmite, hoje às 22:30, o documentário "Agostinho da Silva: Um Pensamento Vivo", realizado por João Rodrigo Mattos, seu neto.
Aos domingos, já a partir do próximo, dia 19, estará à venda nas bancas, com o jornal "Público", uma colecção de 5 DVDs que inclui a totalidade das "Conversas Vadias" e o documentário atrás citado.

"Cinco Minutos de Jazz" faz 40 anos



O mítico programa de José Duarte está a comemorar o seu 40.º aniversário.
Começou em 1966 na Rádio Renascença, e passa hoje na Antena 1, depois de uma trajectória algo atribulada por várias estações. É portanto um resistente na nossa rádio, mas apenas por mérito do seu autor e em nome do amor incondicional que devota ao jazz, ainda por cima num país onde o género nunca foi devidamente apreciado por quem tem dirigido os canais de rádio portugueses. Por isso, é ainda maior a dívida de gratidão dos amantes de jazz para com José Duarte.
Em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro no programa "
Magazine", da RTP-2, José Duarte não escondeu o seu desalento quanto à divulgação do jazz na rádio dizendo que é uma causa perdida, em virtude dos valores estéticos que actualmente prevalecem. Compreendo perfeitamente o seu desencanto pois o jazz não é o único género a sofrer com o actual estado de coisas. Está a acontecer o mesmo (ou pior) com as músicas de matriz tradicional, apesar de serem bem menos minoritárias e elitistas do que o jazz. O jazz, apesar de tudo, tem actualmente uma presença razoável na rádio pública mas a música portuguesa de raiz ou inspiração tradicional, ao ser banida da 'playlist', tem neste momento uma presença ínfima (confinada aos programas "Lugar ao Sul" e, em parte, "Vozes da Lusofonia" e "Viva a Música"). A resignação será sempre a pior atitude para enfrentar o problema e, por isso, é pena que não existam mais Josés Duartes para pugnarem pelo direito de representatividade mediática das músicas marginalizadas por um sistema que só se preocupa em promover a pop, o 'hip hop' e afins. Gostei de ouvir dizer que o jazz não se ensina, antes se aprende ouvindo. Enquanto ouvinte, eu direi que tem de se sentir e para tal é necessário que a sensibilidade seja apurada, que se torne apta a fruir. E José Duarte é dos que mais têm feito nesse sentido, não só com o "Cinco Minutos de Jazz", mas igualmente com "A Menina Dança?", e agora também com "Jazz com Brancas". Para os ouvintes, talvez a presença de jazz na rádio nunca tenha sido tão boa como hoje. Contabilizando também o contributo de Manuel Jorge Veloso com "Um Toque de Jazz", conclui-se que em cada dia há, pelo menos, uma hora de jazz na rádio portuguesa!
Quanto a cantores e músicos portugueses, também me parece que a situação é bem melhor hoje do que há uma ou duas décadas atrás. Estou mesmo em crer que alguns dos nomes da nova geração fazem hoje jazz muito por culpa de José Duarte. Por isso, não são só os ouvintes que terão de lhe prestar tributo pelo seu mister na rádio e também na academia portuguesa que finalmente abriu as portas a um género ainda encarado de forma preconceituosa por um certa intelectualidade.
Aproveito para endereçar votos de longa vida ao "Cinco Minutos de Jazz" e ao seu autor.

Nota: José Duarte é responsável pelo site
http://www.jazzportugal.net e lecciona História do Jazz no Departamento de Comunicação e Arte, da Universidade de Aveiro.

10 fevereiro 2006

Discos Antena 1

A antologia de Vitorino com o título "Tudo", agora vinda a lume, é um dos discos Antena 1. Até aqui nada a censurar. Aliás, ficaria mal à estação de serviço público se ignorasse o lançamento discográfico que assinala os 30 anos de carreira de um dos nomes maiores da música portuguesa. No entanto, tenho um reparo a fazer: nem todos os artistas de mérito reconhecido têm sido objecto da mesma atenção por parte da rádio pública, aquando dos respectivos lançamentos discográficos. Desconheço quais são os critérios que presidem à escolha dos discos a promover, mas quaisquer que sejam tais critérios não se pode aceitar que a estação que é suportada pelos contribuintes ignore alguns dos nomes mais representativos da música lusa. Apenas um exemplo: no final de 2005 foi também lançada uma "Antologia", de Pedro Barroso, outro nome grado da música portuguesa, sem que Antena 1 tivesse feito qualquer referência ao acontecimento. A escolha da colectânea de Pedro Barroso seria uma escolha óbvia para disco Antena 1, mas mais grave ainda é o cantor de "Água" e de "Longe Daqui" estar a ser objecto de um intolerável boicote pela rádio pública ao ser-lhe recusado um lugar na 'playlist'. Não estou mandatado, nem me compete falar em nome de Pedro Barroso (ou de qualquer outro artista), mas enquanto ouvinte não posso aceitar que a rádio para a qual eu contribuo com uma taxa obrigatória não me dê a oportunidade de o ouvir.
Também não se compreende que alguns CDs que aparecem nas lojas de discos com o rótulo "Disco Antena 1" não tenham nenhum tema incluído na 'playlist'. Por exemplo, o álbum "
Transparente", o último da fadista Mariza, aparece com o dito autocolante mas, absurdamente, tem estado totalmente ausente dos alinhamentos de continuidade da Antena 1. Porque é que isto acontece? Por descoordenação entre a direcção de programas e o chefe de 'playlist'? Ou será mesmo verdade que este faz o que muito bem lhe apetece e se está a marimbar para as directivas de Rui Pêgo?
Muitos dos nomes que actualmente passam com frequência na Antena 1 não são do meu especial agrado mas, apesar disso, não vou ao ponto de pedir a sua exclusão porque sou defensor do princípio da igualdade de oportunidades, quer dos artistas quer dos ouvintes. Uma estação pública que se preze deve proporcionar a todos os artistas de qualidade reconhecida a possibilidade divulgarem o seu trabalho porque a rádio é um meio privilegiado dos ouvintes poderem tomar conhecimento das respectivas obras, e assim escolherem em liberdade e sem condicionamentos. Quanto maior for o leque dos artistas contemplados e maior a diversidade da oferta musical maior será a liberdade do ouvinte para escolher. Mas não é isto o que se está a passar na rádio que, por acaso, põe no ar o slogan "Antena 1 - a rádio que liga Portugal". Quando a rádio do Estado (é bom não esquecer este pormenor) preza em ignorar ostensivamente determinados artistas, por critérios outros que não a qualidade, não estará o mesmo Estado que se diz democrático a negar-me a liberdade de ser eu a escolher o que é bom para mim e o que satisfaz os meus desejos? Em última análise, o que está em causa é o princípio constitucional do exercício dos direitos, liberdades e garantias, no caso concreto, de quem ouve a rádio pública e também daqueles que legitimamente querem e merecem ser ouvidos.

03 fevereiro 2006

Poesia na rádio

Júlio Isidro, na rubrica da Antena 1 "Os Reis da Rádio", evocou a época em que Mário Viegas começou a recitar poesia na rádio. São muitos os actuais amantes de poesia que a descobriram pela mão do saudoso actor, primeiro na rádio e depois na televisão. Na verdade, Mário Viegas, depois do imortal João Villaret, foi dos que mais fez pela divulgação da obra dos nossos poetas maiores, sem esquecer nomes menos conhecidos e até mal amados como os surrealistas. A poesia foi nos seus primórdios uma arte da oralidade (a "Ilíada" e a "Odisseia" começaram por ser difundidas de boca a ouvidos) e Mário Viegas percebeu isso melhor do que ninguém. Ora a rádio é de todos os media aquele que melhor serve a poesia, mas inexplicavelmente esta potencialidade não tem sido devidamente explorada entre nós. Que poesia há hoje na rádio portuguesa? E mais especificamente na rádio pública? Terá de se concluir que, actualmente, a situação não é muito melhor do que no tempo em que Júlio Isidro levou Mário Viegas para a rádio. Analisando, os três canais nacionais da RDP (que são os que interessam a quem reside em Portugal continental), encontra-se apenas a rubrica "Os Sons Férteis", na Antena 2, apontamento de poesia e música, da autoria de Paulo Rato. E ainda por cima num horário ingrato para muitos ouvintes - 11 horas de segunda a sexta-feira -, o que não deixa de ser algo bizarro sabendo nós que a poesia requer tranquilidade e disponibilidade de espírito que a maior parte das pessoas não pode ter naquele momento do dia. Por que motivo não há um programa de poesia ao fim-de-semana? E esse espaço até podia ser preenchido com gravações do arquivo, o qual tem um razoável mas desaproveitado manancial de poesia dita, quer por actores de renome quer por locutores da casa. Destes últimos destacaria Maria Clara e António Cardoso Pinto ambos responsáveis por memoráveis momentos de beleza, interpelação e meditação no cantinho da rádio. É um crime de lesa-cultura tantas pérolas permanecerem esquecidas sob o pó nalguma cave ou sótão e não serem servidas aos ouvintes. Uma lacuna imperdoável do serviço público.