13 janeiro 2006

Sobre as quotas de música portuguesa na rádio

A TSF, em mais uns dos seus fóruns, pôs a debate a questão das quotas de música portuguesa na rádio, iniciativa louvável e oportuna agora que estão a ser introduzidas alterações à Lei da Rádio.
Pessoalmente, preferiria que não fosse preciso impor quotas, mas reconheço que são um mal necessário. Aliás, a necessidade de consignar em lei tal obrigatoriedade já um sintoma do estado calamitoso a que as coisas chegaram. Mas não tenhamos ilusões porque as quotas não serão a panaceia miraculosa, porque o problema é bem mais fundo e radica numa questão cultural.
Do texto do DN respiguei a seguinte passagem: «A música portuguesa emitida deve incluir 35% de novidades (com menos de 12 meses) e 60% de "música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados-membros da União Europeia"». A expressão "música composta ou interpretada ..." em vez de "música composta e interpretada..." é um alçapão que se está a abrir e que vai dar origem às mais bizarras deturpações do espírito da lei. Eu pergunto: a música composta por cidadãos dos estados-membros da União Europeia também engloba a música dos portugueses que cantam em inglês? E quando o Júlio Iglésias ou o Sting cantam em português, isso é música portuguesa? E os artistas brasileiros e afro-lusófonos com dupla nacionalidade? Atentem bem: é que podemos chegar à situação absurda da quota ser preenchida não por música portuguesa - lusófona ou instrumental - mas maioritariamente por grupos e cantores portugueses que cantam em inglês e por produção de língua portuguesa não lusa. É assim que se defende a nossa identidade cultural?
José Luís Ramos Pinheiro, administrador do grupo Renascença, apresentou no fórum da TSF o argumento de que não existe suficiente produção nacional para cumprir uma quota de 25% de música portuguesa. Acontece que tal argumento é completamente falacioso e sem qualquer fundo de verdade. Parece-me que ele terá dito tal coisa para justificar os conteúdos da RFM, da Mega FM e inclusive a mudança de estratégia do canal 1 da RR, agora mais apostado nos conteúdos pop 'mainstream'. Como muito disse o músico Pedro Osório, em complemento a um texto da sua própria autoria publicado na
Gazeta dos Artistas, há uma parte muita significativa da criação nacional, fora das malhas da pop, que nunca vem à luz do éter nacional. E essa produção designadamente na área da música de raiz ou inspiração tradicional está bem longe de ser escassa havendo muitos e bons exemplos de projectos de reconhecida qualidade. Portanto, é legítimo concluir que o problema da radiodifusão de música portuguesa tem a ver com outras coisas que os responsáveis das rádios não querem assumir publicamente. O grande problema foi as rádios nacionais terem caído nas mãos de grupos empresariais que não têm outro objectivo que o mero negócio, entregando a direcção das mesmas a indivíduos de mentalidade tacanha e suburbana completamente insensíveis e ignorantes da nossa música mais representativa, que se limitam a adoptar formatos exógenos. Por isso, a imposição de quotas, embora necessária, não vai resolver o problema da maior parte dos melhores criadores portugueses. A música que tem sido marginalizada pelas rádios nacionais vai continuar a sê-lo, com quotas ou sem elas, em nome de alegadas linhas editoriais com o recurso às 'playlists' (vide texto no blogue Ex-Sitações). Os que passam agora serão os mesmos que continuarão a passar, só que em dose dupla ou tripla e assim a quota fica cumprida. Quer dizer: tocarão apenas e sempre os que dominam o aparelho, que é como quem diz as multinacionais ou nacionais com algum poder de influência junto dos directores das rádios e chefes de 'playlist'. Assim continuaremos a ter, e em doses reforçadas, o David Fonseca, os Gift, os Hands on Aproach, os Xutos, os GNR, os Clã, os Mesa, os Da Weasel, os D'ZRT, o Abrunhosa, o Gonzo, o Beto, o João Pedro Pais, os Santos e Pecadores, os Pólo Norte, os Delfins, os Filarmónica Gil, etc. ao passo que nomes como Fausto Bordalo Dias, Vitorino, José Mário Branco, Pedro Barroso, Amélia Muge, Janita Salomé, Pedro Caldeira Cabral, Eduardo Ramos, José Peixoto, Pedro Jóia, Joel Xavier, Filipa Pais, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Frei Fado d'El-Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel e Galandum Galundaina, entre muitos outros, continuarão a ser ostracizados.
Mas se isto é grave numa RFM ou numa Comercial, ainda o é mais na RDP-Antena 1 que devia desempenhar o papel de regulação e de correcção das distorções do mercado mas que, ao invés, tem vindo a comportar-se como uma vulgar rádio comercial, atirando às urtigas o serviço público.

Nota: Recomendo a leitura do 'post' sobre este tema que Paula Cordeiro escreveu no blogue
NetFM.

"Lugar ao Sul" também na Antena 2

No âmbito do reforço das músicas de raiz tradicional na nova grelha da Antena 2 (notícia no site Attambur), o aclamado e premiado Lugar ao Sul agora também pode ouvir-se no segundo canal da RDP, sábados às 13 horas. É uma medida que faz jus ao valor cultural que é reconhecido ao programa de Rafael Correia, uma referência obrigatória na área da divulgação radiofónica da cultura tradicional portuguesa, mormente da região meridional do país. Agora que o "Lugar ao Sul" está a comemorar o 25.º aniversário, os fiéis ouvintes do programa não podiam deixar de saudar a decisão, mas continuam a contestar o facto da emissão aos sábados de manhã na Antena 1 ter sido amputada em uma hora, a qual foi atirada para depois da meia-noite de segunda-feira. Convenhamos que para um programa deste género tal horário é no mínimo estranho. Não é que me oponha à ideia da direcção da RDP querer facultar cultura tradicional portuguesa aos mais noctívagos, mas já não me parece razoável sacrificar o tempo de emissão no horário que tem um auditório bem mais vasto. Fica feito o reparo em nome dos muitos admiradores do trabalho de Rafael Correia.
Aproveito para fazer alusão a um texto notável sobre o programa, escrito pelo Prof. Manuel Pinto, da Universidade do Minho, que se pode ler na página
Carnet de Route d'Un Voyageur Solitaire en Algarve et Alentejo.

Nota: Existe um espaço através do qual os ouvintes do programa podem confraternizar: o
Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL.

10 janeiro 2006

A nova grelha da Antena 2

Entrou em vigor no primeiro dia de 2006, a nova grelha da Antena 2. Para começar, lamento o fim do "A Força das Coisas", programa que Luís Caetano vinha realizando nas tardes de sábado desde 2003. Luís Caetano tem na nova grelha, um programa com um conteúdo similar – "Um Certo Olhar" –, o que se aplaude, mas não me parece boa ideia um programa que requer uma audição calma e sem correrias ser emitido de segunda a sexta-feira ao meio-dia. Aplaudo que o programa dedicado à música étnica, "Raízes", agora realizado e apresentado por João Almeida, tenha mais tempo de antena, mas infelizmente foi mudado para um horário que não é praticável por muitos interessados: às 13h de segunda a sexta! Programas deste género fazem mais sentido em horários pós-laborais ou ao fim-de-semana. Fica o reparo!
Dos novos programas tive uma agradável surpresa: "
O Ouvido de Maxwell" (quintas, 10h ou 24h), da autoria António Almeida, um programa que requer um ouvido atento, daqueles que bebem todas as palavras e que foi um raro momento de beleza e de sortilégio pelo sábio encandeamento entre palavras que convidam à meditação e as peças musicais criteriosamente escolhidas. Espero que esta minha impressão se venha a confirmar nas próximas emissões.
Congratulo-me que o programa de Joel Costa, "
Questões de Moral" (segundas, 10h ou 24h), continue porque é um programa de autor de referência da rádio portuguesa e, sem dúvida alguma, uma das mais valias do canal. Mas tenho a lamentar o horário nocturno ser muito adiantado. Uma hora antes já seria aceitável pois possibilitaria a sua audição por muitos interessados que tem de se levantar cedo no dia seguinte e que não o podem ouvir no período da manhã por razões profissionais. Lamento também a ausência de programas não musicais: ciência, informática, história, sociologia, ficção, teatro. Além da rubrica "Os Sons Férteis" (poesia e música) e do magazine de livros "Escrita em Dia" (que passa primeiro na Antena 1), o que há mais? Aliás, terem ido buscar o programa de Francisco José Viegas à Antena 1 evidencia bem a tentativa de disfarçar a penúria de espaços culturais na actual grelha.
O programa do horário de despertar – "
Amanhecer" – que vinha sendo conduzido por João Almeida e Maria Augusta Gonçalves, era uma alternativa muito válida a quem não quer ouvir as estações de notícias ou as rádios de 'playlist'. O programa continua em moldes semelhantes mas foi objecto de um notório desinvestimento ao ser entregue aos colaboradores mais novatos. Aos sábados de manhã continuamos a ter a Judite Lima, mas atendendo a que tanto o formato como o conteúdo do programa continuam a ser os mesmos não compreendo a mudança de nome de "Jardim da Música" para "Sarabanda". Influência do filme de Ingmar Bergman? 'Jardim da Música' parece-me um nome mais rico e poético e não me importava nada de continuar a ouvir o indicativo com o belíssimo adágio do concerto 'Inverno', de Vivaldi, com chilreios de pássaros em fundo. Bem sei que a Judite Lima (tal como eu) é uma grande cultora das suites para violoncelo de Bach, mas interrogo-me se não terá sido forçada a mudar o nome do programa. A ser verdade, é pena que a direcção não entenda que os nomes dos programas são património radiofónico e, por extensão, património cultural. Que interesse há em mudar o nome de um programa se ele continua igual?
Quando ouvi falar numa grelha para atrair novos públicos, confesso que fiquei receoso quanto à música clássica que iria constar na Antena 2. Até me ocorreu que em vez das obras integrais já não digo de Stockhausen, Pierre Boulez ou Emanuel Nunes mas, pelo menos, de Bach, Vivaldi, Haendel, Beethoven, Schubert, Mahler e Debussy passaríamos a ouvir sequências de trechos de fácil agrado do tipo Selecções do Readers Digest. Do que tenho ouvido notei haver uma preponderância de obras curtas e dos excertos mais conhecidos mas, pelo menos, à noite "(
Grande Auditório", 21h) continua a poder ouvir-se, na íntegra, as grandes obras da música erudita. Para os melómanos mais refinados, uma boa alternativa à televisão!
Numa apreciação global ao formato e aos conteúdos da presente grelha nota-se que há um piscar de olho a ouvintes habitualmente arredios da Antena 2. A esse propósito não é alheia a introdução de noticiários de duas em duas horas. Não estou nada de acordo com esta medida, porque para ouvir notícias (ainda por cima repetidas) existe a Antena 1 cuja componente noticiosa foi reforçada para se tornar numa music news, conforme foi dito por Rui Pêgo, na
entrevista ao DN. É caso para perguntar: já nem com a Antena 2 podemos contar para nos refugiarmos da poluição informativa? Mais informação não significa mais cultura, sobretudo se se trata da actualidade mais efémera e de menor relevância cultural. Um ponto negativo! Ainda relativamente ao formato, agrada-me haver mais espaços musicais de autor (modelo que gostaria de ver adoptado na Antena 1) e também uma maior preocupação didáctica. É igualmente louvável que esses espaços tenham horário fixo porque assim os ouvintes interessados num determinado programa já sabem a que hora ele passa o que favorece a criação de hábitos de escuta. Um ponto positivo!
Falando mais especificamente dos conteúdos, constato que há um maior peso das músicas fora da tradição erudita europeia. É de aplaudir que o jazz tenha agora mais destaque, com os programas "
Um Toque de Jazz", de Manuel Jorge Veloso (sábados e domingos, 14h) e "Jazz com Brancas", de José Duarte (segunda a sexta, 20h). Mas as mudanças não ficam por aí: o programa "Café Plaza" (domingos, 07-10h), dedicado à música de pendor mais ligeiro, é disso um bom exemplo. Não é que esteja contra (até gostei de ouvir), mas continuo a achar que as músicas do 'Café Plaza' e também os blues e outras músicas de cariz mais popular fazem mais sentido na Antena 1. Aliás, elas já lá estiveram até há relativamente pouco tempo. Por que razão foram banidas? Presumivelmente, para passar a reinar a 'playlist'.
Admito que a Antena 2 precisasse de alguns ajustamentos de modo a torná-la menos temática e mais ecléctica (a exemplo do canal 3 da BBC Radio), mas parece-me que há uma forma mais adequada e eficaz de conquistar novos públicos para o canal do que fazer cedências à facilidade. Do meu ponto de vista, incluir peças do repertório mais apelativo da música erudita (designadamente música barroca), em avulso ou em espaços específicos, na Antena 1 e Antena 3, animados por quem tenha experiência nesta área (José Atalaia, por exemplo), seria uma via bem mais recomendável. Bem sei que na Antena 1 já existe a rubrica "
Grandes Músicas", de António Cartaxo, mas é muito pouco. E na Antena 3? O que tem sido feito para cativar os jovens e para os ajudar a perceber que nem toda a música clássica é aquela coisa chata e enfadonha?
Talvez com esta grelha a Antena 2 venha a conquistar alguns dos tradicionais ouvintes da Antena 1 que não se revêem na programação musical que vem sendo implementada. É provável que as audiências subam, mas haverá certamente a fuga de alguns melómanos mais exigentes e exclusivistas da música clássica. Talvez os ouvintes que venham a ser conquistados ultrapassem em número os que vão desertar, mas há uma questão que se impõe: não estará a Antena 2 a desempenhar agora uma parte do papel que caberia à Antena 1?


Nota: Estando a RTP e a RDP sob a alçada da mesma administração, e tendo a obsessão com as audiências sido abandonada na televisão, não entendo ela estar a ter a sua máxima expressão na rádio. Tal dever-se-á ao facto da rádio ter menos visibilidade e, como tal, ser descurada pelo poder político? Se alguém tiver uma explicação verosímil, faça o favor de ma dar.

"1001 Escolhas" também na TV



Jorge Guimarães Silva, no blogue "A Rádio em Portugal", já havia noticiado que o "1001 Escolhas", da Antena 1, iria passar a ter uma versão televisiva, mais concretamente na RTP-N. Na altura fiquei na dúvida se o programa continuaria ou não a ter a versão radiofónica, tal como acontece, por exemplo, com os programas de entrevista que Ana Sousa Dias mantém na RTP-2 e na Antena 1. Agora constato que se mantém na rádio, o que registo com agrado porque o "1001 Escolhas" é um daqueles programas (cada vez mais raros) que nos faz prender o ouvido ao rádio. Na verdade, o programa que Madalena Balça, Sónia Silva, Diamantino José e Maria Antonieta vêm fazendo desde 2004 é uma das poucas razões pelas quais ainda vale a pena rodar o botão para a Antena 1. Durante muito tempo passou à hora de almoço e desde Setembro último logo a seguir ao também imperdível "Lugar ao Sul", aos sábados pelas 10 horas.
Os ouvintes indefectíveis têm-no agora também no canal de notícias da
RTP aos domingos, com repetição às segundas e sextas-feiras. Pena é que seja num canal codificado e não na RTP-2, por exemplo. Só espero é que Jorge Wemans, o novo director do segundo canal da televisão pública, tenha o bom senso de transmiti-lo em reposição, tal como tem acontecido com "Livro Aberto", "Estes Difíceis Amores" e "4 x Ciência".
Resta-me desejar à Madalena Balça e à sua equipa as maiores felicidades também no projecto televisivo.


Nota: Faço referência a dois 'posts' sobre o programa no blogue "Rádio Crítica": um sobre o
formato radiofónico e outro sobre o formato televisivo.

09 janeiro 2006

Afogada em transmissões de futebol

Ainda estão na lembrança de todos as críticas provocadas pelo enormes montantes dispendidos pela RTP na compra de direitos de transmissão televisiva dos jogos de futebol. O mesmo futebol usado para escorar as audiência da RTP.
Agora que a RTP perdeu o futebol para a TVI, aquelas transmissões directas deixaram de constituir Serviço Público. Veja-se no Diário de Notícias de hoje:
O futebol deixou de ser uma prioridade para a RTP. Quem o diz é o presidente do Conselho de Administração da empresa. Para Almerindo Marques, o futebol, apesar do seu "óbvio interesse público", não é um conteúdo de serviço público.
A RTP mudou as suas prioridades, explica Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP:
É evidente que os jogos de futebol são de interesse público, mas não se inscrevem no conceito de serviço público que um operador como a RTP tem de respeitar.
E reconhece mesmo:
(...) somando o tempo de emissão com o futebol, é óbvio que havia um exagero na RTP.
Será que Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP poderia explicar ao seu colega Presidente do Conselho de Administração da RDP (que por acaso também se chama Almerindo Marques – serão primos?) que o futebol não é um conteúdo de serviço público.
Talvez assim se moderassem os exageros que afogam a Antena 1 com relatos de futebol.

06 janeiro 2006

Fazer o que as privadas não fazem...

Roubado no Blogouve-se (o jpmenezes não se chateia...)

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Sobre o serviço público de rádio
"(...)
G. Richeri (...) sugere uma proposta que me parece pertinente aplicar à situação actual da rádio: o comunicólogo italiano pergunta que sentido tem uma televisão pública que gasta uma grande parte dos seus recursos económicos e das suas capacidades profissionais a fazer o mesmo que os privados e conclui que cresce cada vez mais a ideia de que a televisão pública deve ter uma função correctiva do mercado, fazendo o que não cabe no âmbito das operações e das funções das empresas privadas" (tradução minha)
Josep M. Martí Martí, "Transformaciones radiofónicas a medio plazo.En un entorno cambiante y competitivo", revista Telos, nº42, 1995.

04 janeiro 2006

A desarticulação do aparelho de Produção da RDP

Gostar de alguém é desejar-lhe o melhor, é sentir mágoa quando esse alguém é magoado, é partilhar alegrias mas também procurar estar presente nos momentos difíceis e de tristeza.
E no campo dos sentimentos, os nossos afectos podem abarcar lugares, objectos, instituições… como o nosso clube, a associação que ajudámos a construir, a nossa rádio, etc. etc. etc.

Custa assistir de forma passiva ao modo como todo o aparelho de produção da RDP foi aos poucos sendo desarticulado: não há quase programas… mas apenas um computador que debita uma play list, quase já nem há produção própria e tudo se resume a "outsourcing", comprando fora o que se não quer que seja produzido no seu seio. Nesta altura, descontando a Informação e o Desporto, restarão uns três ou quatro programas a cargo de profissionais da Antena 1.

O que passará então a distinguir o Serviço Público de Rádio quando o respectivo concessionário quase se limita a ir ao mercado comprar produtos que, devidamente testados na área privada, se revelaram capazes de conseguir audiências e shares para a Antena 1?
Na vaga neoliberal onde os números pesam mais que as consciências, comprando fora aquilo que lhe não deixam produzir dentro, restar-lhe-à ser o quê? um entreposto, uma central de compras? um conjunto de emissores? É é também essa a estratégia que agora vai ser seguida pela Antena 2?

As formas e os modos de produção não são inócuos nem bacteriologicamente puros.
Por isso, estas questões revelam-se fundamentais.

03 janeiro 2006

A rádio pública e a música portuguesa

Num texto sobre este assunto, Paula Cordeiro (blogue NetFM) aflora alguns pontos que merecem reflexão. Concordo plenamente com as seguintes passagens: «... convém reconhecer que a música que está actualmente a tocar na Antena 1 é de escuta fácil, pouco dirigida a mentes mais eruditas ou a grandes conhecedores de música» e «...ainda que, no que respeita à selecção musical, possa ser acusada de "esquecer" alguma da mais rica produção nacional que escapa às malhas da pop». Mas já me parece excessiva bondade supor que depois de conquistada uma determinada audiência então a Antena 1 já pode voltar a introduzir a música banida e excluída. Tal argumento pode agradar à direcção de programas e à administração da RDP mas não o posso subscrever porque, a meu ver, os conteúdos nunca poderão divergir muito dos que serviram para seduzir os novos ouvintes, sob pena de eles se sentirem enganados e zarparem para outras paragens. Do mesmo modo que alguém entendeu que era necessário baixar o nível para captar audiências, continuará a vingar a ideia de que, para não afugentar os segmentos do auditório mais viciados nos modelos massificados, o nível nunca poderá ultrapassar uma certa fasquia. É fácil concluir que tal fasquia ficará sempre abaixo do que é expectável num serviço público. Do meu ponto de vista, haverá sempre uma perversão do serviço público quando a conquista de audiências é feita à custa da qualidade e em mimetismo com os formatos comerciais. Só pelo facto de um canal público ser generalista isso não significa que tenha de descer ao nível da lama: pelo contrário, devem ser criadas as condições para os que não se sentem bem na lama possam encontrar um refúgio que não seja obrigatoriamente a música clássica. Penso que não é impossível um canal generalista apresentar produtos de qualidade com audiências razoáveis. E isto passa muito pela forma como os produtos são embrulhados e propostos às pessoas. Quem tem experiência de rádio sabe que há técnicas e truques para prender e conquistar ouvintes sem fatalmente se cair na mediocridade mais rasteira. O problema da rádio de hoje deriva, em grande parte, do facto do meio ter sido assaltado por muita gente sem preparação e sem o 'savoir faire' das figuras que fizeram a história da rádio. No caso concreto da RDP, eméritos profissionais de "saber de experiência feito" que ainda tinham muito para dar e aos quais devemos momentos de beleza e magia foram, sem o menor pejo, postos na prateleira para dar lugar aos serviçais das 'playlists'. Que dignidade pode ter um radialista quando fica reduzido à degradante condição de autómato que não pode fazer mais do que clicar ora no 'play' ora no 'pause', e ler os textos que acompanham as músicas que alguém previamente escolheu e – claro está – dar as notícias do trânsito e falar do tempo? Será razoável que o grosso da música que passa numa rádio pública seja a que é ditada por uma 'playlist', que como podemos constatar obedece ao mesmo formato das rádios privadas, as quais devido à contingência de terem de lutar pelo bolo publicitário não podem fugir à mediania reinante? Quantos profissionais da Antena 1 têm o poder e a liberdade de escolher música fora da ditadura da 'playlist'? Os dedos de uma só mão chegam (e sobram) para contar os programas de autor com música portuguesa e mesmo assim nem todos têm obtido o devido apreço e reconhecimento de quem tem passado pela direcção de programas. "Lugar ao Sul", de Rafael Correia e "Viva a Música", de Armando Carvalheda são dois bons exemplos.
Quando João Paulo Meneses, no
Blogouve-se, fala em blocos presumo que se esteja a referir a espaços em que seria um realizador ou um locutor a seleccionar a música conferindo uma identidade própria à emissão. Essa seria a situação ideal, mas atendendo ao estado a que as coisas chegaram não acredito que alguém a ponha em prática. Defendo que na grelha de uma rádio pública, os programas de autor devam ser a regra e não a excepção (em vez de um devia haver muitos "O Amigo da Música"), mas não sou avesso à ideia de existir, no sistema informático da estação, uma biblioteca de música escolhida pela direcção, acervo esse ao qual os radialistas de menor qualificação recorreriam para formarem os seus alinhamentos (na actual situação nem sequer lhes é permitido alterar a sequência das canções). Também não me repugnaria que pudessem existir, para cada género musical, 'playlists' distintas que preencheriam espaços temáticos definidos na grelha: fado, música tradicional, pop portuguesa, música brasileira, música afro-lusófona, música latina, música anglo-americana. E neste caso cada 'playlist' seria elaborada por uma pessoa diferente, profunda conhecedora de cada área musical que assegurasse não só uma selecção criteriosa mas também – e não menos importante – a renovação periódica dos temas a tocar. Assim as coisas seriam mais claras e os ouvintes já sabiam em que espaço poderiam ouvir a música da sua preferência. Não como acontece actualmente em que há uma 'playlist' pseudo-generalista (na verdade é temática porque se confina praticamente à pop anglo-americana e portuguesa) elaborada por um funcionário todo-poderoso que se pauta pela mais completa prepotência e discricionaridade e cuja conduta denota obscuras cumplicidades com determinados artistas, 'managers' e editoras. Um exemplo concreto: será razoável que nomes como The Corrs, Texas e James Blunt, entre outros, passem todos os dias (e mais do que uma vez) enquanto que tantos e bons nomes da música anglo-americana (passados e actuais) nunca se ouçam. Com que propósito é que os ouvintes mais fiéis (sobretudo os que gostam de rádio mas não suportam a publicidade) são massacrados sempre com os mesmos temas, repetidos ad nauseam? Presume-se que para serem condicionados a comprar os respectivos discos. Mas será admissível que uma rádio que é suportada pelos contribuintes portugueses esteja a fazer fretes às 'majors' discográficas? Será legítimo um serviço público votar ao ostracismo as editoras independentes que apresentam música alternativa? Não será uma das obrigações do serviço público atender aos interesses dos públicos mais exigentes? Os ouvintes que aspiram a algo mais que o 'mainstream' não ficarão sem outra opção que a Antena 2? A música à qual não é reconhecida dignidade para figurar na rádio clássica, mas que não deixa de ter valor cultural, não ficará sem expressão radiofónica, no panorama das estações de cobertura nacional?
Mas se, na Antena 1, a situação é calamitosa na área da música anglo-americana, o estado das coisas é ainda mais grave no caso da música portuguesa, entenda-se feita por portugueses e cantada em português ou instrumental (música cantada em inglês, ainda que feita por portugueses, não pode ser considerada música portuguesa). A Antena 1 até pode cumprir a quota legalmente estipulada para a difusão de música portuguesa, mas isso é feito de uma forma distorcida e enviesada, ou seja, com mais e mais do mesmo. Enquanto que muitos nomes importantes são deliberadamente sonegados, há meia-dúzia (todos da área da pop) que passam em doses industriais. Não me compete falar em nome dos artistas banidos/excluídos, mas direi simplesmente que me parece estar a ser-lhes negado o direito de serem ouvidos na rádio de todos nós e em igualdade de circunstâncias com os que são massivamente promovidos. Afinal de contas, tais artistas também pagam impostos sendo que uma parte desse dinheiro acaba por ir parar ao orçamento da empresa pública de rádio. Quantos artistas de talento haverá que não têm a oportunidade de divulgar o seu trabalho? Não haverá gente a desesperar com falta de audição e consequente invisibilidade e ausência de contratos motivados por isso? Neste particular, recomendo a leitura do
Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa, redigido por Pedro Barroso e subscrito por dezenas de artistas, em 2002, altura em que a Antena 1 ainda marcava a diferença pela atenção que dava à nossa música mais representativa. Se agora a rádio pública portuguesa se recusa a divulgar a música que melhor exprime a nossa identidade quem é que o vai fazer? A resposta é óbvia: ninguém, a não ser algumas rádios locais, sobretudo as que resistiram à voragem da música 'pimba'. Então e os ouvintes que têm o azar de viver em zonas não cobertas por essas estações (ou que vivendo, não querem ouvir publicidade) não têm o direito de ouvir, na rádio, música portuguesa para além da pop? Será razoável que uma rádio pública não atenda aos muitos ouvintes apreciadores de fado e de música de raiz tradicional? Para que pagam eles uma taxa obrigatória na factura da electricidade? Alguém mais desatento poderá pensar que nomes como Amália, José Afonso e Carlos Paredes, por exemplo, deixaram de passar na Antena 1 porque pertencem ao passado. Posso testemunhar que a verdadeira razão não é essa pois há grupos já extintos e cantores já falecidos que continuam a passar, ao passo que outros mais recentes e no activo nunca (ou raramente) se ouvem. Por exemplo, assiste-se à situação bizarra dos Heróis do Mar, grupo extinto quando Pedro Ayres Magalhães decidiu – e em boa hora – fundar os Madredeus, terem uma presença muito mais frequente e assídua do que estes últimos. E ninguém me vai convencer que os Heróis do Mar deram um contributo mais válido para a música portuguesa que os Madredeus, justamente os maiores embaixadores da nossa música além-fronteiras, depois da grande Amália. Acontece o mesmo com os Sétima Legião face a Rodrigo Leão, em que este tem uma presença ínfima em comparação com o grupo de que fez parte. E digo isto perfeitamente à vontade pois até gosto dos Sétima Legião, mas é inegável que a produção de Rodrigo Leão a solo se encontra num patamar superior.
Por último, não posso deixar de perguntar: será normal que a imortal Amália, a maior cantora portuguesa de sempre e uma das maiores do mundo, não se possa ouvir na rádio oficial do país que a viu nascer? Acontecerá o mesmo com os maiores cantores estrangeiros nos respectivos países? Por exemplo, Frank Sinatra não passará na National Public Radio? E Jacques Brel também foi banido das rádios públicas francófonas?

Sobre a ditadura das 'play-lists'

Carlos Tê, em Abril de 2005, escreveu no "Expresso", uma crónica intitulada "Os Dias da Rádio", em que denuncia o monopólio das 'playlists' no actual panorama radiofónico. Dado que o assunto não perdeu actualidade (bem pelo contrário), e como a crónica não está disponível online, faço referência ao 'post' que Pedro Leal oportunamente escreveu em JornalismoPortoRádio.