21 junho 2017

Janita Salomé: "Reino de Verão"


Silva Porto, "Colheita - Ceifeiras", c.1893, óleo sobre tela, 90,5x120,3 cm, Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto


Quem conhece razoavelmente o repertório poético-musical português sabe que ele é profuso em belos espécimes alusivos às estações do ano, designadamente à Primavera e ao Estio. Ora este dia de solstício, que marca o início da mais cálida das estações, é um bom pretexto para pôr-mos em destaque uma dessas canções: "Reino de Verão", na voz de Janita Salomé, com música da sua autoria sobre poema de Maria Manuela Espinho.
Não podia a Antena 1 incluir esta canção na sua lista de difusão musical, vulgo 'playlist'? Podia e devia! E isso vale igualmente para muitas outras gravadas por Janita Salomé, um dos mais categorizados artistas do nosso panorama musical mas que – absurda e criminosamente – não está representado na referida lista.



Reino de Verão



Poema: Maria Manuela Espinho
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Em Nome da Rosa", Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2014)




Os dias sem vento.
As horas paradas
suspensas do tempo
da calma
do não haver sombra nem fresco.
A vida entardecendo
ante o olhar
como pintura de mestre.
A terra e o céu
acontecendo
numa espera dourada.
E a beleza a cumprir-se
no cantar da cotovia...


* Janita Salomé – voz
Filipe Raposo – piano
Mário Delgado – guitarra acústica
Pedro Jóia – cümbüs
Quiné Teles – bateria e percussão
António Quintino – contrabaixo
Direcção musical e arranjos – Filipe Raposo
Produção executiva – Cantar ao Sol, Lda.
Gravação – Rui Guerreiro, André Tavares e José Maria Sobral, nos Atlântico Blue Studios, Paço d'Arcos, de Julho a Agosto de 2013
Mistura – Rui Guerreiro
Masterização – Tó Pinheiro da Silva



Capa do CD "Em Nome da Rosa", de Janita Salomé (Cantar ao Sol/Ponto Zurca, 2014)
Concepção por Egle Bazaraite

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10 junho 2017

Camões recitado e cantado (III)


Retrato de Luís de Camões (gravura), pelo flamengo Andries Pauli (Antuérpia, 1610-1639). Pertence, desde 1964, ao acervo do Rijksmuseum, de Amesterdão.


«As 10 Canções de Camões, que integravam a primeira edição de 1595 das suas "Rimas", são uma obra-prima da poesia maneirista portuguesa. Porque são alguns dos poemas de que mais gosto, e ler em voz alta é a melhor maneira de conhecer a poesia, li-as em voz alta e gravei-as com o Vasco Pimentel em 1995, há 15 anos, para a extinta Comissão dos Descobrimentos Portugueses. Não se encontra já essa edição que tinha uma capa da Cristina Reis. É essa mesma gravação, uma das que mais gosto de entre todas as que fiz, que aqui se reedita.».
Assim começa a nota de Luís Miguel Cintra para a reedição, com chancela Presente, das primeiras dez Canções saídas do punho do maior vate de língua portuguesa. E como, muito apropriadamente, refere o actor, «ler [e ouvir] em voz alta é a melhor maneira de conhecer a poesia», este 10 de Junho afigura-se um excelente pretexto para aqui apresentarmos as três primeiras, em jeito de acepipe ao manjar mais substancial que o conjunto das demais constitui.
Intercalando esses três poemas, magistralmente ditos por Luís Miguel Cintra, deixamos as outras tantas redondilhas que José Afonso musicou e cantou para edição discográfica. Serve também de homenagem ao autor de "Cantares do Andarilho", agora que se assinalam os trinta anos do seu desaparecimento.

E o que fez a rádio pública em celebração de Luís de Camões neste dia que lhe é consagrado? Quase nada! E dizemos "quase" e não simplesmente "nada" porque David Ferreira teve o cuidado de abrir o seu programa alargado de hoje, "David Ferreira a Contar... Consigo" [>> RTP-Play] com a reposição de uma rubrica emitida há quatro anos, contendo excertos dos três poemas camonianos (uma cantiga em redondilha e dois sonetos) que Amália primeiramente gravou, mais "Endechas a Bárbara Escrava" por José Afonso.
Era assim tão trabalhoso pegar numa quinzena de poemas de Camões (uns ditos/recitados e outros cantados) e transmiti-los ao longo do dia, ao ritmo de um por hora? O esforço seria pouco mas ficar de braços cruzados sempre dá menos trabalho. Mas é para termos uma rádio mandriona que somos desembolsados, a cada mês que passa, de 2,85 euros?



CANÇÃO I



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Fermosa e gentil Dama, quando vejo
a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,
a boca graciosa, o riso honesto,
o marmóreo colo e branco peito,
de meu não quero mais que meu desejo,
nem mais de vós que ver tão lindo gesto.
Ali me manifesto
por vosso a Deus e ao mundo; ali me inflamo
nas lágrimas que choro;
e de mim, que vos amo,
em ver que soube amar-vos, me namoro;
e fico por mim só perdido, de arte
que hei ciúmes de mim por vossa parte.

Se porventura vivo descontente
por fraqueza de esprito, padecendo
a doce pena que entender não sei,
fujo de mim e acolho-me, correndo,
à vossa vista; e fico tão contente
que zombo dos tormentos que passei.
De quem me queixarei
se vós me dais a vida deste jeito
nos males que padeço,
senão de meu sujeito,
que não cabe com bem de tanto preço?
Mas ainda isso de mim cuidar não posso,
de estar muito soberbo com ser vosso.

Se, por algum acerto, Amor vos erra,
por parte do desejo cometendo
algum nefando e torpe desatino;
se ainda mais que ver, enfim, pretendo;
fraquezas são do corpo, que é de terra,
mas não do pensamento, que é divino.
Se tão alto imagino
que de vista me perco — peco nisto —,
desculpa-me o que vejo;
que se, enfim, resisto
contra tão atrevido e vão desejo,
faço-me forte em vossa vista pura,
e armo-me de vossa fermosura.

Das delicadas sobrancelhas pretas
os arcos, com que fere, Amor tomou,
e fez a linda corda dos cabelos;
e, porque de vós tudo lhe quadrou,
dos raios desses olhos fez as setas
com que fere quem alça os seus, a vê-los.
Olhos, que são tão belos,
dão armas de vantagem ao Amor,
com que as almas destrui;
porém, se é grande a dor,
co a alteza do mal a restitui;
e as armas com que mata são de sorte
que ainda lhe ficais devendo a morte.

Lágrimas e suspiros, pensamentos,
quem deles se queixar, fermosa Dama,
mimoso está do mal que por vós sente.
Que maior bem deseja quem vos ama
que estar desabafando seus tormentos,
chorando, imaginando docemente?
Quem vive descontente
não há-de dar alívio a seu desgosto,
por que se lhe agradeça;
mas com alegre rosto
sofra seus males, para que os mereça;
que quem do mal se queixa, que padece,
fá-lo porque esta glória não conhece.

De modo que, se cai o pensamento
em algũa fraqueza, de contente
é porque este segredo não conheço:
assi que com razões, não tão-somente
desculpo ao Amor de meu tormento,
mas ainda a culpa sua lhe agradeço.
Por esta fé mereço
a graça, que esses olhos acompanha,
o bem do doce riso;
mas, porém, não se ganha
cum paraíso outro paraíso.
E assi, de enleada, a esperança
se satisfaz co bem que não alcança.

Se com razões escuso meu remédio,
sabe, Canção, que, porque não vejo,
engano com palavras o desejo.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Na Fonte Está Lianor



Poema: Luís de Camões (cantiga em redondilha maior) (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Baladas e Canções", Ofir/Discoteca Santo António, 1964, reed. EMI-VC, 1997, EMI, 2012)




Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]

Nisto estava Lianor
o seu desejo enganando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]

O rosto sobre ũa mão,
os olhos no chão pregados, [3x]
que, de chorar já cansados,
algum descanso lhe dão. [3x]

[instrumental / vocalizos]

Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando, [3x]
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor? [3x]

[instrumental / vocalizos]


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios da RTP, Monte da Virgem - Vila Nova de Gaia
Remasterização e restauro digital – Paulo Jorge Ferreira



Na fonte está Lianor

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Domingos Fernandes, Lisboa, 1616; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 812-813)


          MOTE ALHEIO

Na fonte está Lianor
lavando a talha e chorando,
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor?

          VOLTAS

Posto o pensamento nele,
porque a tudo o amor obriga,
cantava, mas a cantiga
eram suspiros por ele.
Nisto estava Lianor
o seu desejo enganando,
às amigas perguntando:
— Vistes lá o meu amor?

O rosto sobre ũa mão,
os olhos no chão pregados,
que, de chorar já cansados,
algum descanso lhe dão.
Desta sorte Lianor
suspende de quando em quando
sua dor; e, em si tornando,
mais pesada sente a dor.

Não deita dos olhos água,
que não quer que a dor se abrande
amor, porque, em mágoa grande,
seca as lágrimas a mágoa.
Despois que de seu amor
soube, novas perguntando,
de improviso a vi chorando.
Olhai que extremos de dor!



CANÇÃO II



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




A instabilidade da Fortuna,
os enganos suaves de Amor cego,
— suaves, se duraram longamente —,
direi, por dar à vida algum sossego;
que pois a grave pena me importuna,
importune meu canto a toda a gente.
E se o passado bem co mal presente
me endurece a voz no peito frio,
o grande desvario
dará de minha pena sinal certo;
que um erro, em tantos erros, é concerto.
E pois nesta verdade me confio
— se verdade se achar no mal que digo —,
saiba o mundo de Amor o desconcerto,
que já co a Razão se fez amigo,
só por não deixar culpa sem castigo.

Já Amor fez leis, sem ter comigo algũa;
já se tornou, de cego, arrazoado,
só por usar comigo sem-razões.
E se em algũa cousa o tenho errado,
com siso grande dor não vi nenhũa,
nem ele deu sem erros afeições.
Mas, por usar de suas isenções,
buscou fingidas causas por matar-me;
que, para derrubar-me
no abismo infernal de meu tormento,
não foi soberbo nunca o pensamento,
nem pretende mais alto alevantar-me
daquilo que ele quis; e se ele ordena
que eu pague seu ousado atrevimento,
saiba que o mesmo Amor, que me condena,
me fez cair na culpa e mais na pena.

Os olhos que eu adoro, aquele dia
que desceram ao baixo pensamento,
n'alma os aposentei suavemente;
e pretendendo mais, como avarento,
o coração lhe dei por iguaria,
que a meu mandado tinha obediente.
Porém, como ante si lhe foi presente
que entenderam o fim de meu desejo,
ou por outro despejo,
que a língua descobriu por desvario,
de sede morto estou posto num rio,
onde de meu serviço o fruto vejo;
mas logo se alça, se a colhê-lo venho,
e foge-me a água, se beber porfio.
Assi que em fome e sede me mantenho:
não tem Tântalo a pena que eu sustenho.

Despois que aquela em quem minh'alma vive
quis alcançar o baixo atrevimento,
debaixo deste engano a alcancei:
a nuvem do contino pensamento
ma afigurou nos braços, e assi a tive,
sonhando o que acordado desejei.
Porque a meu desejo me gabei
de alcançar um bem de tanto preço,
além do que padeço,
atado em ũa roda estou penando,
que em mil mudanças me anda rodeando,
onde, se a algum bem subo, logo deço.
E assi ganho e perco a confiança;
e assi de mi fugindo, trás mi ando;
e assi me tem atado ũa vingança,
como Ixião, tão firme na mudança.

Quando a vista suave e inumana
meu humano desejo, de atrevido,
cometeu, sem saber o que fazia,
(que de sua beleza foi nacido,
o cego Moço que, co a seta insana,
o pecado vingou desta ousadia),
e afora este mal que eu merecia,
me deu outra maneira de tormento:
que nunca o pensamento,
que sempre voa dũa a outra parte,
destas entranhas tristes não se farte,
imaginando sobre o famulento,
quanto mais come, mais está crecendo,
por que de atormentar-me não se aparte;
assi que para a pena estou vivendo,
sou outro novo Tício, e não me entendo.

De vontades alheias, que roubava,
e que enganosamente recolhia
em meu fingido peito, me mantinha.
De maneira o engano lhe fingia
que, depois que a meu mando as sojugava,
com amor as matava, que eu não tinha.
Porém, logo o castigo que convinha
o vingativo Amor me fez sentir,
fazendo-me subir
ao monte da aspereza que em vós vejo,
co pesado penedo do desejo,
que do cume do bem me vai cair.
Torno a subi-lo ao desejado assento;
torna a cair-me; embalde, enfim, pelejo.
Não te espantes, Sísifo, deste alento,
que às costas o subi do sofrimento.

Dest'arte o sumo bem se me oferece
ao faminto desejo, por que sinta
a perda de perdê-lo mais penosa.
Como o avaro a quem o sonho pinta
achar tesouro grande, onde enriquece
e farta sua sede cobiçosa
e, acordando, com fúria pressurosa
vai cavar o lugar onde sonhava,
mas tudo o que buscava
lhe converte em carvão a desventura;
ali sua cobiça mais se apura,
por lhe faltar aquilo que esperava;
dest'arte Amor me faz perder o siso.
Porque aqueles, que estão na noite escura,
nunca sentirão tanto o triste abiso,
se ignorarem o bem do Paraíso.

Canção, nõ mais, que já não sei que digo;
mas por que a dor me seja menos forte,
diga o pregão a causa desta morte.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Endechas a Bárbara Escrava



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, ree. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Endechas a Bárbara Escrava

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 770-771)


          Endechas a ũa cativa
          com quem andava d'amores na Índia,
          chamada Bárbara.

Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Ũa graça viva,
que neles lhe mora,
pera ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela, enfim, descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.



CANÇÃO III



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953; Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Já a roxa manhã clara
do Oriente as portas vem abrindo,
dos montes descobrindo
a negra escuridão da luz avara.
O Sol, que nunca pára,
de sua alegre vista saudoso,
trás ela, pressuroso,
nos cavalos cansados do trabalho,
que respiram nas ervas fresco orvalho,
se estende, claro, alegre e luminoso.
Os pássaros, voando
de raminho em raminho modulando,
com ũa suave e doce melodia
o claro dia estão manifestando.

A manhã bela e amena,
seu rosto descobrindo, a espessura
se cobre de verdura,
branda, suave, angélica, serena.
Oh, deleitosa pena!
Oh, efeito de Amor tão preeminente!
Que permite e consente
que onde quer que me ache, e onde esteja,
o seráfico gesto sempre veja,
por quem de viver triste sou contente!
Mas tu, Aurora pura,
de tanto bem dá graças à ventura,
pois as foi pôr em ti tão diferentes,
que representes tanta fermosura.

A luz suave e leda
a meus olhos me mostra por quem mouro,
e os cabelos de ouro
não igual aos que vi, mas arremeda:
esta é a luz que arreda
a negra escuridão do sentimento
ao doce pensamento;
o orvalho das flores delicadas
são nos meus olhos lágrimas cansadas,
que eu choro co prazer de meu tormento;
os pássaros que cantam
os meus espritos são, que a voz levantam,
manifestando o gesto peregrino
com tão divino som que o mundo espantam.

Assim como acontece
a quem a cara vida está perdendo,
que, enquanto vai morrendo,
algũa visão santa lhe aparece;
a mim, em quem falece
a vida, que sois vós, minha Senhora,
a esta alma que em vós mora
(enquanto da prisão se está apartando)
vos estais juntamente apresentando
em forma da fermosa e roxa Aurora.
Oh, ditosa partida!
Oh, glória soberana, alta e subida!
Se mo não impedir o meu desejo;
porque o que vejo, enfim, me torna a vida.

Porém, a Natureza,
que nesta vista pura se mantinha,
me falta tão asinha,
quão asinha o sol falta à redondeza.
Se houverdes que é fraqueza
morrer em tão penoso e triste estado,
Amor será culpado,
ou vós, onde ele vive tão isento,
que causastes tão longo apartamento,
porque perdesse a vida co cuidado.
Que se viver não posso,
(um homem sou só, de carne e osso),
esta vida que perco, Amor ma deu;
que não sou meu: se mouro, o dano é vosso.

Canção de cisne, feita na hora extrema:
na dura pedra fria
da memória te deixo, em companhia
do letreiro de minha sepultura;
que a sombra escura
já me impede o dia.


* Gravado por Vasco Pimentel, no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Verdes São os Campos



Poema: Luís de Camões (cantiga em redondilha menor) (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Traz Outro Amigo Também", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




[instrumental]

Verdes são os campos,
da cor de limão:
assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração;
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Verdes são os campos,
da cor de limão:
assim são os olhos
do meu coração.

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
de ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.


* José Afonso – voz
Carlos Correia (Bóris) – viola
Luís Filipe Sousa Colaço – 2.ª viola
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Verdes são os campos

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 807-808)


          MOTE ALHEIO

Verdes são os campos,
de cor de limão:
assi são os olhos
do meu coração.

          VOLTAS

Campo, que te estendes
com verdura bela;
ovelhas, que nela
vosso pasto tendes,
d'ervas vos mantendes
que traz o Verão,
e eu das lembranças
do meu coração.

Gados, que pasceis,
co contentamento
vosso mantimento
não no entendeis:
isso que comeis
não são ervas, não:
são graças dos olhos
do meu coração.



Capa da primeira edição das "Rimas", de Luís de Camões, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita (Lisboa, 1595)



Capa do CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra" (Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)
Concepção por Cristina Reis

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Artigos relacionados:
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Camões recitado e cantado (II)

01 junho 2017

Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"



Assinalamos este Dia Mundial da Criança apresentando a belíssima canção "Os Ponteirinhos", por Júlio Pereira com Sara Tavares, retirada do álbum "Faz de Conta" (2003). É apenas um exemplo entre o muito repertório de excelente qualidade (cantigas, músicas instrumentais, poemas ditos e histórias contadas) que até hoje se gravou em Portugal [cf. "A infância e a música portuguesa"], mas que – e infelizmente – perde em visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) para a abundante ganga que se produz (e propagandeia nas televisões) para consumo do público infantil.
Nesse esforço de divulgação do que de melhor existe, a estação pública podia (e devia) desempenhar um papel fulcral, mas só a 19 de Setembro de 2016 é que surgiu uma rádio online vocacionada para as crianças, chamada ZigZag.
Porém, não chega! É importante que haja no espaço hertziano um programa regular – diário ou semanal – que dê às crianças que não têm internet em casa a oportunidade de ouvirem as histórias, os poemas, as cantigas e as peças instrumentais que artistas de mérito gravaram especialmente para elas. E qual a rádio mais indicada para acolher esse programa? A Antena 3, evidentemente!



Os Ponteirinhos



Letra e música: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* com Sara Tavares (in CD "Faz de Conta", EMI-VC, 2003)


[instrumental]

Tic-tac, tic-tac,
Martelinhos maneirinhos.
Tic-tac, tic-tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

Diz "bom dia!" ao tic-tac!
Abre os olhos fechadinhos!
Vai p'rá escola! Tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]

[instrumental / vocalizos]

Boa tarde, tic-tac!
Vai brincar aos adivinhos!
E cansados, cansadinhos,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

[instrumental / vocalizos]

Boa noite, tic-tac!
Vai sonhar com os moinhos!
Lá no escuro, tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]

Tic-tac, vão dançando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.

[instrumental / vocalizos]


* Júlio Pereira – instrumentação e voz
Convidada especial:
Sara Tavares – voz
Participação especial de:
Simão e Julinha – vozes
Conceito original e produção – Júlio Pereira
Assistente de produção – João Luís Oliva
Programação, sintetizadores, mistura e masterização – Quico Serrano
Gravado e misturado em 2002



Capa do CD "Faz de Conta", de Júlio Pereira (EMI-VC, 2003).


Artigo relacionado:
A infância e a música portuguesa

24 maio 2017

Em memória de Baptista-Bastos (1934-2017)



Defendo a tese de que o jornalismo é uma disciplina superior da literatura e que a reportagem, a crónica e a entrevista são géneros literários.
A primeira reportagem da nossa História é a carta de Pêro Vaz de Caminha, com as novas do achamento do Brasil, que ele escreveu para D. Manuel I.

                    BAPTISTA-BASTOS


Jornalista, romancista e ensaísta, Armando Baptista Bastos nasceu no bairro da Ajuda, em Lisboa, a 27 de Fevereiro de 1934.
Estudou na Escola Industrial de Arte Aplicada António Arroyo (denominada, a partir de 1948, Escola de Artes Decorativas António Arroio) e aprendeu francês no pólo do Beco do Tijolo (junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara) do Liceu Francês Charles Lepierre.
Na pré-adolescência, ao mesmo tempo que ganhava o gosto pela leitura, Baptista-Bastos foi aprendiz de diversos ofícios: tipógrafo, torneiro mecânico, marceneiro, empregado de drogaria, empregado de confeitaria. «O meu pai tinha livros. Havia as coisas do Zola, peças tradicionais numa família de anarquistas, de comunistas, de socialistas. E havia as bibliotecas públicas. Começo a despertar para a leitura por causa do "Mosquito". Não eram os quadradinhos, mas o que lá estava escrito. Havia um homem, Rofer, que anos depois conheci como revisor do "Diário Popular", Roberto Ferreira. As histórias que ele escrevia é que talvez me tivessem despertado. Quando deixámos a Ajuda, fomos para a Rua da Bombarda, junto ao Largo do Intendente. Havia ali a biblioteca da Escola 1 ou 2. Eu atravessava a Almirante Reis, ia para lá e um homem chamado Freitas era o bibliotecário. Deu-me o Emilio Salgari. Foi a grande descoberta. E entretanto trabalhava. Fui aprendiz de droguista, trabalhei uma semana numa confeitaria. Foi importante para o meu conhecimento do mundo do trabalho, onde o trabalho é muito violento. Ia aos sítios pedir emprego – com calções! Trabalhei numa marcenaria que fazia tampos para máquinas de costura, uma coisa pesadíssima. Um dia puseram-me um daqueles carros-de-mão cheio daqueles tampos e demorei muito tempo a chegar à oficina, que era ali na Penha de França. E a minha madrasta [Baptista-Bastos perdeu a mãe aos seis anos de idade], uma mulher extraordinária, andou em Lisboa à minha procura. Apanhou-me, estava eu já esfalfado, já noite, quase a chegar à oficina. Insultou o homem de tudo: "O senhor faz isto a um garoto!" Também fui aprendiz de torneiro mecânico. Queria ter dinheiro para o cinema e para queijo fresco.» [entrevista concedida a Alexandra Lucas Coelho, in "Público: suplemento Ípsilon", 26-Jun-2007]
Influenciado pelo pai, tipógrafo, acaba por abraçar o jornalismo. «O meu pai foi fundador de jornais – pertenceu à equipa inicial do "Diário Popular" e do "Diário Ilustrado" mas antes disso tinha trabalhado no jornal "A Voz" (monárquico e católico) – e terminou a vida no jornal "O Século", como tipógrafo e chefe das tipografias. Eu era órfão de mãe, o meu pai fizera 35 anos, não tinha onde deixar-me e levava-me para o trabalho, onde todos me tratavam com carinho. É a partir daí que germina a vocação de escrever. Com 14 anos, comecei a escrever na página infantil do "Diário Popular", dirigida pelo José de Lemos, que criava histórias para crianças de uma forma admirável e era um desenhador prodigioso, talvez o maior do segundo modernismo. Comecei em miúdo a escrever para miúdos, mas as minhas histórias possuíam uma conexão social, eram histórias de meninos dos bairros pobres, que se me impunham sem eu as procurar. Mais tarde descobri o porquê: terá sido a circunstância de eu ter vivido sempre em bairros populares e de ter uma relação muito sentimental com a pobreza e com a miséria. Ainda hoje, ao ver na televisão miúdos com fome e desempregados de 40 e 50 anos, digo-te, é uma coisa que me comove muito e que se acentuou com a idade... Eu acho que a idade desperta certas cordas sentimentais e uma atenção emocionada para essas coisas, para o sofrimento dos outros. Foi o João Paulo Guerra quem escreveu um dia que eu toda a vida tinha feito reportagens com lágrimas nos olhos. Penso que é verdade. A páginas tantas, tive a presunção de ser a voz daqueles que a não tinham. E tive a sorte de poder escrever isso de várias maneiras... Ainda há tempos – quando me homenagearam pelos meus 50 anos de actividade literária e jornalística – o Adelino Gomes, que tem uma série de recortes de reportagens minhas (nem eu as tenho!) leu uma que me emocionou até às lágrimas. E perante um auditório de 400 pessoas, ele disse uma coisa muito bonita: "A partir de uma certa altura, o Baptista-Bastos já não era o jornalista, era o jornalismo português!"». [entrevista concedida a Avelino Rodrigues, in http://perfildojornalista.eusou.com/].
À secção infantil do "Diário Popular", segue-se o semanário "Cartaz" para o qual escreve reportagens sobre casas assombradas e, pouco depois, muda-se para a prestigiada revista "O Século Ilustrado", na qual vem a assinar uma coluna de crítica, "Comentário de Cinema", evidenciando um estilo jornalístico inovador, polémico e polemizante. «O "Cartaz" era um jornalzinho semanal de um grupo de amigos feito na tipografia do "Diário Popular". (Faziam-se jornais com muito pouco dinheiro, naquela altura... e ganhava-se também muito pouco). O chefe de redacção era um jornalista chamado Armindo Blanco, que nos anos 40/50 era um grande talento, um grande crítico cinematográfico. Pois eu comecei a fazer aí umas reportagens sobre casas mal-assombradas – tinha para aí os meus 17 anos, a picar os 18 – e as minhas casas mal-assombradas tiveram uma certa repercussão na época, até que a Censura começou a cortar, vá-se lá saber porquê (vejo hoje que as casas mal-assombradas no fundo podiam ser uma metáfora do Portugal daquele tempo). Aquilo começou a chatear-me. O Armindo Blanco já tinha saído para o grupo "Século" dos Pereira da Rosa, e é nessa altura que recebo um convite para trabalhar, como colaborador, na revista "O Século Ilustrado", de que o Redondo Júnior era chefe de redacção. Estava lá todos os dias mas recebia à peça. Eu aí começo também a fazer um determinado tipo de reportagem social, tanto quanto era possível fazer na época [inícios da década de 50]. Depois, o Armindo Blanco vai para o Brasil e eu substituo-o nos comentários de cinema, enquanto o Redondo Júnior escrevia sobre teatro. Aquilo que eu fazia não era nada uma crítica de cinema, aquilo era uma tribuna política. Estava-se em pleno McCarthismo, a perseguição aos cineastas americanos e isso servia-me de pretexto para discretear sobre a inexistência de democracia nos Estados Unidos.» [ibidem]
A notoriedade que esse trabalho lhe dá abre-lhe as portas do próprio jornal "O Século", que era comummente considerado a grande universidade do jornalismo em Portugal, e aí vem a adquirir elevado traquejo no mister de jornalista. «Em 1952, sou chamado pelo chefe de redacção do jornal "O Século", o Acúrcio Pereira, figura lendária do jornalismo. Eu nunca tinha entrado na redacção do jornal, mesmo trabalhando no mesmo edifício. Aquilo metia respeito, uma catedral do jornalismo (como lhe chamou o Zambujal). Então, o Acúrcio diz-me que o sr. Rosa e o sr. dr. Guilherme – era assim que se falava do velho magnata João Pereira da Rosa e do filho que lhe sucedeu como director – enfim, eles queriam-me na redacção do jornal. E pela primeira vez fui jornalista do quadro, com a categoria de redactor. Os Pereira da Rosa respeitavam o meu trabalho e entendiam-me, mesmo sabendo que eu era contra o regime e eles eram a favor. Aquilo era outra gente, hoje já não há patrões assim. [...] Eu fui muito bem acolhido n' "O Século". Toda a gente gostava de mim, de esquerda, de direita... Aliás, a redacção d' "O Século" era muito curiosa, porque tinha de tudo, era uma autêntica democracia. Tinha fascistas, monárquicos, comunistas, socialistas, anarquistas. A malta convivia admiravelmente. O Acúrcio nem sequer permitia qualquer quezília por motivos de ordem política – e as pessoas respeitavam isso. A gente saía dali às 3 ou 4 da madrugada, de maneira que a redacção era inundada, digamos assim, pelas grandes figuras do teatro e do fado. Eu recordo-me de ver lá o Villaret, que era muito amigo do Acúrcio Pereira, chegava e começava a recitar para a redacção; recordo-me, por exemplo de um cantador de fados, o Filipe Pinto, que ia lá com os guitarristas... E depois a gente mandava vir as ceias do "Arroz Doce", um restaurante ali perto. Levavam-nos lá um bacalhau com grelos e um vinho tinto e a gente estava ali até às tantas a conversar... [...] Deixavam-me trabalhar com a liberdade possível. Fui várias vezes ao estrangeiro em reportagem internacional, e fiz reportagem por todo o país. Acabei por ser expulso em 1960, porque me envolvi na "Revolta da Sé".» [ibidem]
Baptista-Bastos conta-nos qual era o seu papel na revolução e os termos em que veio a ser demitido do jornal, volvido mais de um ano: «Tinha 24 anos quando fui inscrever-me na campanha do Delgado em 1958, ali na Avenida da Liberdade. Foi aí que conheci o grande arquitecto Cassiano Branco, estava lá à porta da sede, todo careca, um homem temível. Eu era um miúdo desenvolto e ele gostou de mim e entusiasmou-me. A campanha deu no que deu... e, no começo de 59 sou convidado pelo Urbano Tavares Rodrigues – hoje já se pode dizer – a participar num golpe de Estado em preparação e que tinha todas as condições para triunfar – garantia ele – porque estavam envolvidos largos sectores do Exército, dos católicos e da sociedade civil. Lá vou eu... Qual era a minha função? Abrir as portas d' "O Século" aos revolucionários e preparar um artigo para a vitória, o artigo de fundo do jornal, que tinha por título um cacófato: "O triunfo da Revolução sem sangue". (Ainda tive muitos anos o original, depois perdi-o, deve estar aí, não sei onde...) Estava tudo previsto para 12 de Março desse ano de 1959. A certa altura da noite, devia chegar o Urbano com os seus amigos, para tomar conta do jornal, eu iria falar com os tipógrafos, estava tudo aparentemente preparado... Mas o golpe falhou. Acabei por ser denunciado por uma das três pessoas que tentara aliciar na redacção (não digo o nome, porque já morreu e essas coisas eu perdoei, enfim...). E passado um ano, vejam bem, cai-me em cima o Carmo e a Trindade: no dia 10 de Abril de 1960, estava a substituir n' "O Século Ilustrado" o Redondo Júnior que tinha ido aos Estados Unidos, saí para ir beber um café na Brasileira e, quando volto, estava tudo à minha procura e uma telefonista chamada Madalena disse-me: "Olhe que os patrões estão reunidos e estão à sua espera!". Eu não fazia a mínima ideia do que era... sou chamado, vejo aquela gente toda com cara de caso, os patrões, com excepção do velho João Pereira da Rosa, enfim, os Pereira da Rosa todos, o Guilherme e o Carlos Alberto, os tios e o sobrinho. E depois perguntam-me: "Então você esteve metido numa coisa destas?" E eu: "Sim, quer dizer, eu não concordo com esta política portuguesa, com a Censura, eu tenho viajado pelo estrangeiro, lá fora gosto daquilo... e tal... e quando volto a Portugal sinto uma angústia terrível e então..." Nisto, o Carlos Alberto Pereira da Rosa, que era um homem admirável, cuja memória eu venero e respeito, acho até que era meu amigo, quis dar-me uma 'abébia' diante dos outros, que estavam todos em silêncio: "Bem, isso já se passou praticamente há um ano! Em idênticas circunstâncias o que é que você faria hoje?" E eu: "Faria exactamente o mesmo!". E ele, pesaroso, estendendo-me a mão: "Tenho muita honra em apertar-lhe a mão, você portou-se como um homem, tenho muita pena mas tenho de o despedir, e muito obrigado por ter trabalhado n' "O Século". Assim...» [ibidem]
A justificação dada à polícia política para o despedimento seria, no entanto, outra. «Felizmente não fui preso. Por uma circunstância que só agora conto, pela primeira vez, acho eu: quando a PIDE foi ao "Século" perguntar aos patrões porque é que eu tinha sido corrido (porque eles suspeitavam que havia qualquer coisa), o Carlos Alberto, o Guilherme Pereira da Rosa e o Henrique Pavão disseram: "Foi por uma causa interna, é que ele publicou umas coisas sobre o Fidel Castro". E a verdade é que n' "O Século Ilustrado" tinha saído uma série de fotografias com o Fidel Castro a ler "L'Esprit des Lois" de Montesquieu e... bem, eu tinha mandado aquilo para as máquinas sem ir à Censura. E eles arranjaram esse pretexto. Mas a PIDE andava atrás de mim e eu, que estava habituado à cervejaria "Ribadouro" todas as noites, deixei de frequentar lugares públicos e isolei-me. Até que um dia o Fernando Curado Ribeiro, velho companheiro das noitadas no "Ribadouro", está a conversar comigo na casa dele, "Espera aí um bocadinho!", apaga as luzes todas, chama-me à janela: "Estás a ver aquele carro, lá em baixo? Está todas as noites à tua espera". Durante uns tempos andei a saltar por quartos alugados e depois o Fernando Lopes, este que é realizador de cinema, indicou-me um quarto na Avenida de Roma, num andar que pertencia a uma tia dele. E pronto, foi assim... com alguns anos de desemprego.» [ibidem]
Nesse tempo de semi-clandestinidade, o ganha-pão de Baptista-Bastos é a tradução de livros, e pondera seriamente emigrar, até que recebe um convite de todo inesperado: ser redactor de notícias na RTP. «Vivia a traduzir livros. E um dia o Fernando Lopes disse-me que havia uma pessoa que queria falar comigo. Fomos almoçar ao Parque Mayer e aparece o Manuel Figueira, que eu não conhecia de todo. Era o director de Informação da televisão. E diz-me assim: "Nós sabemos que você se prepara ou se preparou para sair do país. Mas você não quer ficar? Olhe lá, você quer fazer os noticiários da televisão neste período das férias?" Como não podia receber o vencimento em meu nome, arranjou-se um pseudónimo. Na RTP, eu era o Manuel Trindade. E lá fui fazer as notícias internacionais: pegava na "Visnews", eles mandavam os 'dop-sheets' em inglês e eu traduzia aquilo com um cronómetro na mão. E fiz uns testes que correspondiam mais ou menos às características vocais de cada um dos locutores que leriam a minha prosa. Criei com todos uma grande simpatia: com o Fialho [Fialho Gouveia], com o Gomes Ferreira, com o Henrique Mendes, com o Manuel Caetano (que era irmão do Marcelo Caetano). Depois acabou aquilo tudo, o Manuel Figueira foi afastado...» [ibidem]
Nessa fase da sua vida, Baptista-Bastos escreveu também textos para documentários realizados por Fernando Lopes ("Cidade das Sete Colinas", "Os Namorados de Lisboa", "Este Século Em Que Vivemos") e por Baptista Rosa ("O Forcado", 1965, com fotografia de Augusto Cabrita e música de Miles Davis – "Scketchs of Spain").
Em Fevereiro de 1962, vai com Fernando Lopes para a Ericeira, a fim de fazer, durante um mês, a adaptação para cinema do romance "Domingo à Tarde", de Fernando Namora. É nesse retiro que escreve o seu primeiro livro de ficção, o romance "O Secreto Adeus". «Em 1959 e 1962 publiquei dois ensaios: "O Cinema na Polémica do Tempo" e "O Filme e o Realismo". A seguir é que descobri a ficção. Eu estava desempregado, não podia trabalhar nos jornais, por ter sido despedido d' "O Século", como já disse. Estava próximo do Fernando Lopes e o Baptista Rosa convidou-nos para fazer a adaptação cinematográfica de "Domingo à Tarde", do Fernando Namora. Eu já tinha trabalhado no cinema com o Lopes e, mais tarde, haveríamos de fazer o "Belarmino" [1964]. Como eu dizia, o Baptista Rosa contratou-nos aos dois e instalou-nos na Ericeira, por um mês, para escrever o guião. Acabámos por fazer aquilo em dez dias e eu resolvi aproveitar os vinte dias que restavam para escrever um livro. De regresso a Lisboa, mostrei o original ao meu querido amigo Carlos de Oliveira e ele não esteve com meias-medidas: "Você vai publicar isto imediatamente!". Assim nasceu "O Secreto Adeus", livro de denúncia do jornalismo que se praticava na época, com uma trama agressiva, a que não faltava o sexo e a aventura e aquele romantismo do jornalista na noite lisboeta. O nosso "Domingo à Tarde" ficou na gaveta (mais tarde o António de Macedo fez o filme com outro guião) mas "O Secreto Adeus" teve um êxito fulgurante, já fez quase uma dezena de edições e ainda hoje é lido, sobretudo pelas camadas jovens.» [ibidem]
Impedido de continuar a trabalhar na RTP, por ordem expressa do director do Secretariado Nacional de Informação, César Moreira Baptista («Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»), Baptista-Bastos fica mais uma vez desempregado, passando sazonalmente pela redacção da agência France Press, em Lisboa.
Em meados de 1963, ingressa no jornal "República". Em finais de Março de 1964, desloca-se ao Brasil, como secretário do actor Raul Solnado, que tinha sido contratado pela TV Rio (antecessora da TV Record). A sua chegada coincide com o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, e as notícias que envia para aquele vespertino não passam no crivo da Censura.
Em 1965, é admitido noutro vespertino, o "Diário Popular", ao qual permanecerá ligado até 1988. Neste jornal, vem a publicar, no dizer de Afonso Praça, «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século». «Quando cheguei ao "Diário Popular", o Brás Medeiros [patrão e estratega do jornal] pôs-me logo à vontade: "Eu sei como que é que o senhor pensa, sei onde é que esteve metido e vou dizer-lhe uma coisa: os patrões nunca lhe vão cortar uma linha – mas se a Censura cortar, isso é um problema seu e da Censura.". E foi assim mesmo. E nesta aventura do "Diário Popular" passei eu 23 anos! Viajei por mais de trinta países, escrevi sobre tudo e em todos os géneros, desde as notícias do dia aos artigos de fundo. Uma vez, em 1968, mandaram-me em serviço à Alemanha Ocidental, eu aproveitei e dei um saltinho à RDA comunista, clandestinamente. De regresso, achei que devia contar-lhes. E o Brás Medeiros: "Já escreveu?". Ele disse isto com uma severidade no olhar que eu sabia interpretar. Nunca tinha pensado falar da RDA, mas fui a correr e escrevi a reportagem, mandei-a para a tipografia e ele enviou o artigo para a Censura. Eles retiveram as provas uma data de tempo, até que um dia entra ele na redacção e pergunta: "As palavras do Bastos? Ainda não vieram? Há quanto tempo estão lá?". Quando lhe disseram que o meu artigo já estava demorado dez dias, ele agarrou no telefone, ligou para o coronel Galvão, que era um dos grandes da Censura, e disse: "Eu mandei o Baptista-Bastos à RDA, mandei-o escrever a reportagem, eu li a reportagem dele, é uma reportagem rigorosa e, se as provas não estiveram cá dentro de duas horas, amanhã mete artigo de fundo, porque eu digo ao Prof. Martinho Nobre de Melo que quem mandou escrever o artigo fui eu, quem manda na minha casa sou eu!". Um quarto de hora depois estavam lá as provas, aprovadas. Hoje em dia já não há histórias destas, já ninguém faz isto por ninguém. E também é o retrato da época em que havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista. E isso verificou-se em vários jornais, tem piada, no "Jornal do Comércio" do Fausto Lopes de Carvalho, n' "O Século" dos Pereira da Rosa, no "Diário de Lisboa" dos Ruella Ramos.» [ibidem]
Baptista-Bastos pertenceu, também, aos corpos redactoriais de outros jornais e revistas: "O Diário", "Europeu", "Almanaque", "Seara Nova", "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Época" e "Sábado".
Foi um dos fundadores do semanário "O Ponto", que teve existência efémera (inícios dos anos 80), no qual publicou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época, posteriormente coligidas no volume "O Homem em Ponto" (1984).
Em 1999, no âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Revolução dos Cravos, a direcção do "Público" convidou-o a realizar dezasseis entrevistas, subordinadas ao tópico "Onde É Que Você Estava no 25 de Abril?", as quais desencadearam alguma polémica e constituíram um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-ROM (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), distribuído juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele matutino.
Na mesma ocasião, a convite da direcção do "Diário de Notícias", Baptista-Bastos teve também a seu cargo o enquadramento do capítulo "O Efémero", da edição especial "O Milénio", iniciativa do mesmo jornal.
Como cronista e crítico, colaborou nos mais diversos órgãos da imprensa diária ou periódica: "Jornal de Notícias", "A Bola", "Tempo Livre", "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", "Expresso", "Jornal do Fundão", "Correio do Minho", "Diário Económico", "Diário de Notícias", "Jornal de Negócios" e "Correio da Manhã".
A crónica radiofónica também não lhe escapou, tendo lido aos microfones da Antena 1 e da Rádio Comercial as suas sempre avisadas reflexões sobre casos e episódios da vida pública portuguesa. Na TSF - Rádio Jornal, foi o primeiro comentador da popular rubrica "Crónicas de Escárnio e Maldizer". Antes, em 1970, a convite de Carlos Cruz, gravara um EP com quatro crónicas, musicalmente ilustradas por António Victorino d'Almeida, que foi apreendido pela PIDE.
Em 1990, Baptista-Bastos foi um dos entrevistadores do Prof. Agostinho da Silva, na memorável série "Conversas Vadias" (RTP-1) e, a partir de Novembro de 1996 até Janeiro de 1998, manteve nas noites da SIC o programa "Conversas Secretas", no qual entrevistou uma vasta galeria de pessoas célebres (e menos célebres) oriundas dos mais variados sectores da sociedade portuguesa. Retomou a realização de entrevistas para o canal SIC-Notícias, no programa "Cara-a-Cara", de Janeiro a Agosto de 2001.
No campo da ficção, após o já referido "O Secreto Adeus", publicou os seguintes romances: "O Passo da Serpente" (1965); "Cão Velho entre Flores" (1974), «obra das mais fortes e belas da literatura portuguesa deste século», nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues; "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura" (1981), que Óscar Lopes considerava «o livro dos livros novelísticos da sua geração, senão de toda a literatura portuguesa de aquém 1950»; "Elegia para um Caixão Vazio" (1984), "A Colina de Cristal" (1987), galardoado com o Prémio Literário Município de Lisboa e com Prémio P.E.N. Clube Português de Narrativa; "Um Homem Parado no Inverno" (1991); "O Cavalo a Tinta-da-China" (1995); "No Interior da Tua Ausência" (2002), agraciado com o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários; e "As Bicicletas em Setembro" (2007).
Baptista-Bastos está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês.
Muitas das suas crónicas e entrevistas estão publicadas em livro. Um desses títulos, "As Palavras dos Outros" (1969), é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão», na opinião de dois dos seus pares, Adelino Gomes e Fernando Dacosta, respectivamente, tendo sido recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.
Entre os numerosos prémios que recebeu, na qualidade de jornalista ou de ficcionista, contam-se: Prémio Feira do Livro (1966), Prémio Artur Portela da Casa da Imprensa (1978), Prémio Nacional de Reportagem/Prémio Gazeta do Clube de Jornalistas (1985), Prémio Casa da Imprensa (1986), Prémio "O Melhor Jornalista do Ano" (1980 e 1983), Prémio Porto de Lisboa (1988), Prémio Gazeta de Mérito do Clube de Jornalistas (2004), Prémio de Crónica João Carreira Bom da Sociedade de Língua Portuguesa (2006) e Prémio Alberto Pimentel do Clube Literário do Porto (2006).


BIBLIOGRAFIA ACTIVA:

Ensaio, crónicas e entrevistas:
- O Cinema na Polémica do Tempo (ensaio), Lisboa: Gomes & Rodrigues, Lda., 1959
- O Filme e o Realismo (ensaio), Lisboa: Arcádia, 1962; Porto: Nova Crítica, 1979
- As Palavras dos Outros (crónicas, reportagens e entrevistas), Mem Martins-Sintra: Publicações Europa-América, 1969; Lisboa: Círculo de Leitores, 2000
- O Sinal do Tempo (4 crónicas lidas), música de António Victorino d'Almeida, Lisboa: Zip-Zip, 1970 [EP]
- Cidade Diária (crónicas), Editorial Futura, 1972
- Capitão de Médio Curso (crónicas), Lisboa: Editorial Caminho, 1977
- O Homem em Ponto: Entrevistas, Lisboa: Relógio d'Água, 1984
- O Nome das Ruas (monografia), em colaboração com António Borges Coelho, fot. José Antunes, Lisboa: Câmara Municipal / Livros Horizonte, 1993
- José Saramago: Aproximação a um Retrato (biografia), Lisboa: Publicações Dom Quixote / Sociedade Portuguesa de Autores, 1996
- Fado Falado (26 entrevistas), pref. José Saramago, fot. José Santos, Alfragide-Amadora: Ediclube, 1999
- Onde É Que Você Estava no 25 de Abril? (12 entrevistas), Lisboa: Público, 1999 [CD-ROM]
- Retratos para Aquilino (monografia), textos de Mário Soares, José Saramago, Vasco Graça Moura, José Manuel Mendes, António de Almeida Santos, Eduardo Lourenço, Luísa Costa Gomes, Urbano Tavares Rodrigues, Baptista-Bastos, Jorge Reis e Luiz Francisco Rebello; desenhos por José Rodrigues, Alberto Péssimo, Fernando Lanhas, Maria Keil, João Abel Manta, Fernando de Azevedo, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Emídio e Rogério Ribeiro. Paredes de Coura / Porto: Câmara Municipal de Paredes de Coura / Cooperativa Árvore, 2000
- Lisboa Contada pelos Dedos (crónicas), Lisboa: Montepio Geral, 2001; Lisboa: Círculo de Leitores, 2006 [Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores, 2003]
- A Cara da Gente: Prazeres, Devaneios, Invenções e Passeatas (crónicas), Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008
- Tempo de Combate (crónicas), Lisboa: Edições Parsifal, 2014

Poesia:
- Caminho e Outros Poemas (poesia), Lisboa: Edição do autor [Tipografia Gráfica Boa Nova], 1951

Ficção:
- O Secreto Adeus (romance), Lisboa: Portugália Editora, 1963; Porto: Edições Asa, 2001
- O Passo da Serpente (romance), Lisboa: Prelo, 1965; Porto: Edições Asa, 2001
- Cão Velho entre Flores (romance), Lisboa: Editorial Futura, 1974; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2011
- Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (romance), Lisboa: Forja, 1981; Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008
- Elegia para um Caixão Vazio (romance), Lisboa: O Jornal, 1984; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2009
- A Colina de Cristal (romance), Lisboa: O Jornal, 1987; Porto: Edições Asa, 2000 [Prémio Literário Município de Lisboa, 1987, e Prémio P.E.N. Clube Português de Narrativa, 1988]
- Um Homem Parado no Inverno (romance), Lisboa: O Jornal, 1991; Porto: Edições Asa, 2001
- O Cavalo a Tinta-da-China (romance), Lisboa: Temas da Actualidade, 1995; Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008
- No Interior da Tua Ausência (romance), Porto: Edições Asa, 2002; Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 [Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, 2003]
- As Bicicletas em Setembro (romance), Porto: Edições Asa, 2007; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2010
- A Bolsa da Avó Palhaça (novela autobiográfica), ilustr. Mónica Cid, Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2007


BIBLIOGRAFIA PASSIVA:
- Letria, José Jorge. Conversas com Letras: Entrevistas com Escritores, Lisboa: O Escritor, 1994
- Marinho, Maria de Fátima. O Romance Histórico em Portugal, Porto: Campo das Letras, 1999
- Teles, Viriato. Contas à Vida: Histórias do Tempo Que Passa, Lisboa: Sete Caminhos, 2005 (http://www.viriatoteles.com/web/livros/contas-a-vida/239-baptista-bastos)


Qual foi a atitude da rádio pública quando se soube da morte de Baptista-Bastos?
Logo no dia do falecimento (9 de Maio), a Antena 2 recuperou duas entrevistas: uma feita por João Almeida, em 2008, para o programa "Quinta Essência" [>> RTP-Play], e outra realizada por Luís Caetano, em 2014, a propósito do lançamento do livro de crónicas "Tempo de Combate", para o programa "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play]. O meu aplauso!
E a Antena 1? Naquele dia, não acompanhei a emissão e, por isso, não posso testemunhar se o insigne jornalista e escritor foi, ou não, homenageado. E digo "homenageado" porque tal pressupõe algo mais do que dar a notícia do falecimento e anunciar o local onde vai decorrer o velório. Se a Antena 1 transmitiu algum programa em memória de Baptista-Bastos (por exemplo, uma entrevista), procedeu adequadamente; se o não fez, foi negligente e isso tem a reprovação dos ouvintes/contribuintes. Caso tenha havido programa, tal não dispensa, como é bom de ver, que se resgate do arquivo histórico as melhores crónicas que o emérito jornalista leu na mesma Antena 1, a fim de serem transmitidas ao ritmo de uma por dia, durante umas boas semanas. Fica a sugestão, na esperança de que não caia em saco roto!
Pela nossa parte, é com imenso orgulho que apresentamos o registo da interessantíssima entrevista que Baptista-Bastos concedeu a outro grande dos seus pares, Carlos Pinto Coelho, para o programa de rádio "Agora... Acontece!", emitido em Fevereiro de 2001.
Este tributo ficaria incompleto se não se pudesse apreciar a arte de entrevistar do próprio Baptista-Bastos, de viva voz. À falta de gravação radiofónica, deixamos o vídeo da "Conversa Vadia" com o Prof. Agostinho da Silva. Um regalo!


"Agora... Acontece!" N.º 117, de 26-Fev-2001



Baptista-Bastos entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 2':52'']



Baptista-Bastos entrevistando o Prof. Agostinho da Silva (Ep. 5 das "Conversas Vadias", RTP-1, 1990)



Capa da primeira edição do livro "As Palavras dos Outros" (Colecção "Prisma", Publicações Europa-América, 1969)



Capa da primeira edição do romance "Cão Velho entre Flores" (Editorial Futura, 1974)
Reprodução parcial do quadro inacabado "Die Braut" ("A Noiva"), 1917, de Gustav Klimt.
(http://www.klimt.com/en/gallery/late-works/klimt-die-braut-unvollendet-1917.ihtml)



Capa da primeira edição do romance "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura" (Forja, 1981)

13 maio 2017

Antena 1: uma emissora católica e apostólica? (II)



A exemplo do que se passou em Maio de 2010, aquando da visita de Bento XVI, a programação normal da Antena 1 foi totalmente elidida e substituída pela cobertura, ao milímetro e ao segundo, de todos os acontecimentos (e não acontecimentos) respeitantes à viagem que o papa Francisco acabou de fazer a Fátima. Creio que foi o próprio Jorge Bergoglio quem afirmou que vinha a Fátima como peregrino. Portanto, não se tratou de uma visita oficial do chefe de Estado do Vaticano a outro estado, no caso Portugal. Ora, sendo uma viagem de cariz estritamente apostólico, a rádio pública devia ter mais pudor e recato, em obediência ao seu estatuto de entidade laica, na cobertura do evento, cingindo-se ao que tivesse valor informativo real e objectivo para a generalidade dos cidadãos (nos intercalares noticiosos). Ao cobrir de modo intensivo, exaustivo e obsessivo tudo que era de índole meramente religiosa, designadamente as cerimónias litúrgicas na Cova da Iria, a Antena 1 comportou-se como se fosse a Rádio Renascença e isso merece o veemente repúdio de quem preza o livre-pensamento e não quer ser catequizado, como é o caso do escrevente destas linhas. E digo isto perfeitamente à vontade pois, apesar de ser agnóstico, até simpatizo com o homem que o colégio cardinalício elegeu (talvez por engano) para suceder a Joseph Ratzinger no trono pontifício.
A circunstância da maioria da população portuguesa ser (culturalmente) católica não valida a opção de quem manda na Antena 1. O Estado Português e todas as entidades da sua esfera não devem envolver-se nos assuntos da fé, porque se o fizerem, colocando-se ao lado de uma determinada confissão, estão inevitavelmente a dar a entender de que aquela é que é a verdadeira e a autêntica. Concomitantemente, os que professam outros credos e os que não têm credo algum recebem o estigma implícito de ímpios e degenerados mentais. A fé religiosa (ou a não-fé assumida em total liberdade de consciência) é do foro íntimo de cada um e jamais se poderá admitir que o Estado (que representa todos) tome partido por alguma.


Texto relacionado:
Antena 1: uma emissora católica e apostólica?

25 abril 2017

Miguel Torga: "Flor da Liberdade"



Neste aniversário (o quadragésimo terceiro) da eclosão da Revolução dos Cravos, que devolveu a Liberdade a Portugal, apresentamos o poema "Flor da Liberdade", de e por Miguel Torga. O texto veio a lume no ano de 1958, em plena autocracia salazarista, mas a mensagem não perdeu actualidade. Se "recusar", naquele tempo, significava contestar e resistir à opressão, hoje consiste em exercer plenamente a Liberdade. Deixar de exercê-la – por medo, comodismo ou apatia –, é abrir caminho ao despotismo de uns quantos sobre todos.

No caso concreto da rádio pública, quando os ouvintes não se revêem no serviço (ou falta dele) que lhes é apresentado, de que modo podem dar expressão à sua recusa? Duas vias se lhes oferecem: uma é desligar a sintonia e sem mais nada fazer, dando o caso como perdido; a outra é intervir civicamente no sentido da debelação das mazelas e, consequentemente, que o "doente" se torne um ente saudável e útil à sociedade, fazendo assim jus à nobre missão de serviço público que lhe cabe prestar: informar com isenção e pluralismo, cultivar e entreter com enlevo. Optámos pela segunda via e dela não nos iremos desviar, apesar do autismo com que nos temos deparado da parte dos decisores.
Reportando-nos à Antena 1, que é dos três canais de cobertura nacional o que se encontra, presentemente, em estado de maior enfermidade, apontamos três deficiências gritantes (por ordem crescente de importância):
  1. Ausência de uma rubrica diária de poesia tendo como âmbito os autores de língua portuguesa, seja na voz dos próprios, seja na de reputados recitadores;
  2. Ausência de teatro radiofónico, que foi durante muitos anos uma marca de excelência no serviço público de radiodifusão e que constitui um património de valor inestimável que urge resgatar;
  3. Falta de pluralismo estilístico e estético na lista de difusão musical de continuidade, vulgo 'playlist', e inerente exclusão de um extenso rol de artistas portugueses de reconhecida qualidade – que se traduz no obsceno favorecimento da produção pop e hip hop, a maioria da qual de baixíssimo quilate, e na criminosa marginalização de tudo o resto, mormente da música tradicional portuguesa e do valioso repertório dos cantautores.
    Podemos considerar razoável que, sob a alçada de um regime que se apregoa de democrático e pluralista, a pop e o hip hop desempenhem hoje na rádio estatal o mesmo papel que tinha o nacional-cançonetismo sob a vigência da ditadura?


FLOR DA LIBERDADE



Poema de Miguel Torga (in "Orfeu Rebelde", Coimbra: Edição do autor, 1958 – p.52-53; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 560)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)


Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós... Também nós... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.


* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 31 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital (CD) – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho




13 abril 2017

Em memória de Fernando Campos (1924-2017)


Fernando Campos fotografado por António Pedro Ferreira


Eu sou assim: o que é histórico é histórico, o que a História não pode contar conto eu.
                    FERNANDO CAMPOS


Ficcionista, cronista e investigador português, Fernando da Silva Campos nasceu em Águas Santas, concelho da Maia, a 23 de Abril de 1924.
Filho do pintor Alberto da Silva Campos, fez os estudos universitários na Faculdade de Letras de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Clássica. Tornou-se professor do ensino liceal, tendo sido docente do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, cidade onde passou a residir definitivamente.
Paralelamente à actividade de docente, escreveu algumas obras didácticas e monografias de investigação etimológica e exegese literária, como "Prosadores Religiosos do Século XVI" (1950), "A Redacção" (1968), "A Vila de São Teotónio: uma Fonte de 'Os Lusíadas'?" (1972) e "O Arinteiro de El-Rei" (1972).
Fernando Campos iniciou já tarde o seu mister de ficcionista, pois só aos 62 anos de idade publicou o seu primeiro romance, "A Casa do Pó" (1986), que recebeu rasgados elogios da crítica e se tornou um êxito editorial, com sucessivas edições. Trata-se dum romance histórico cuja acção decorre em finais do século XVI e conta a saga das peregrinações de Frei Pantaleão de Aveiro, o autor de "Itinerário de Terra Santa" (1593). O enigma da identidade do frade franciscano, servindo de pretexto para, ao longo de todos os itinerários que percorre (Portugal, Espanha e toda a bacia mediterrânica dominada por Venezianos e Turcos, até à Palestina), esboçar um panorama mental sobre a cristandade ocidental e oriental, e sobre o contexto político português no fim de Quinhentos, tende, porém, a adquirir, desde as primeiras páginas, uma dimensão universal: mais do que rigorosa e documentada incursão pelo romance histórico, segundo o autor (cf. Notas a "A Casa do Pó", 5.ª ed., Lisboa: Difel, 1987, p. 436), «o que aí está são velhos problemas da Humanidade que, vindos de há séculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenários e saltam para outros mais alargados e vastos». Nesta obra magistral, que logo catapultou Fernando Campos para a esfera dos escritores maiores da língua portuguesa, surgem diversas figuras históricas, entre as quais Luís Vaz de Camões. O autor levou cerca de onze anos a preparar o livro, dez dos quais em trabalho de pesquisa histórica.
Nas obras seguintes, o autor recorre mais uma vez à ficção como género privilegiado para uma indagação ontológica, religiosa ou metafísica, enriquecida com uma cultura invulgar, alargada na convivência de autodidacta com leituras clássicas, filosóficas e históricas, fazendo ainda prova de uma versatilidade de registos (lírico, trágico, épico), já manifestada em "A Casa do Pó". Para cada um dos seus romances históricos, Fernando Campos faz uma cuidada e meticulosa pesquisa para poder recriar ao pormenor o enredo e caracterizar as personagens com o máximo rigor. Só recorre à imaginação quando se depara com a falta de dados históricos.
Em 1987, o escritor publicou a novela satírica "O Homem da Máquina de Escrever" e o romance "Psiché", retrato cruel da decadência de um comediante do teatro ligeiro ante a feroz concorrência do cinema, na primeira metade do século XX. Seguiram-se, em 1990, "O Pesadelo de dEus", romance de pendor metafísico protagonizado por um estudante de Filosofia e um casal de fantoches, e, em 1995, o livro que lhe valeu o Prémio Eça de Queiroz desse mesmo ano, "A Esmeralda Partida", admirável reconstituição do período conturbado que se situa entre os reinados de D. João I e de D. João II.
Após dois anos e meio de intenso trabalho de investigação e escrita, o autor deu à estampa o romance "A Sala das Perguntas" (1998), que aborda a vida do humanista português Damião de Góis (1502-1574). Na obra, aparecem distintas personalidades coevas, como Martinho Lutero, Thomas More, Erasmo de Roterdão, João de Barros e Luís de Camões. Em 1999, saiu o livro de contos "Viagens ao Ponto de Fuga" e, no ano seguinte, o romance "A Ponte dos Suspiros", protagonizado por D. Sebastião que surge em Veneza, vinte anos depois da Batalha de Alcácer Quibir, almejando obter do papa, com a ajuda do arcebispo de Espálato, o reconhecimento como o legítimo rei de Portugal.
Já em 2001, o escritor apresentou o livro "...que o meu pé prende...", incursão no género fantástico, a partir do conto popular "A Formiga e a Neve", que alguém considerou uma síntese perfeita de todas as lutas da Humanidade, de todas as verdades e de todas as mentiras. Regressou ao romance histórico, dois anos mais tarde, com "O Prisioneiro da Torre Velha", em que relata os momentos cruciais que antecederam a conjura de 1640, servindo-se das palavras escritas pela figura central da obra, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Fernando Campos já tinha em mente escrever sobre aquele vulto seiscentista desde os tempos de estudante em Coimbra, quando a convite do professor Correia de Oliveira trabalhou num projecto de edição crítica das "Cartas Familiares".
Em 2005, lançou "O Cavaleiro da Águia", romance histórico que tem como protagonista o guerreiro medieval D. Gonçalo Mendes da Maia, cognominado O Lidador. Seguiram-se: "O Lago Azul" (2007), em torno da descendência de D. António Prior do Crato; "A Loja das Duas Esquinas" (2009), revisitação da tragédia de Édipo pelos olhos de um antiquário; "A Rocha Branca" (2011), dando-nos a poetisa grega Safo entregue à paixão sob a égide das artes mágicas da deusa Afrodite; e "Revengar" (2012), o seu último romance, tendo como fonte de inspiração recortes do folhetim homónimo publicado pelo vespertino carioca "A Noite", por sua vez decalcado do filme "The Shielding Shadow" (1917), em 15 episódios, realizado por Louis J. Gasnier.
Fernando Campos está traduzido em francês, italiano e alemão.
Foi também colaborador do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", com a série de crónicas "Os Trabalhos e os Dias".


BIBLIOGRAFIA ACTIVA:

Pedagogia, investigação literária e monografias:
- Prosadores Religiosos do Século XVI (antologia organizada em colaboração com Alcides Soares), Coimbra: Livraria do Castelo, 1950
- A Redacção (orientação e exercícios), Porto: Livraria Avis, 1968, 1970, 1972
- A Vila de São Teotónio: uma fonte de "Os Lusíadas"?, in "Panorama", n.º 44 e separata, Lisboa, 1972
- O Arinteiro de El-Rei (monografia de investigação etimológica), in "Armas e Troféus", III Série-tomo 1, Jul.-Set. 1972, n.º 2, p. 196-202.
- Portugal (monografia), fotografias de Jean-Charles Pinheira, Lisboa: Difel, 1989

Ficção:
- A Casa do Pó (romance), Lisboa: Difel, 1986; Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2011 [Prémio Literário Município de Lisboa, 1986]
- O Homem da Máquina de Escrever (novela satírica), Lisboa: Difel, 1987, 1997
- Psiché (romance), Lisboa: Difel, 1987, 1988
- O Pesadelo de dEus (romance), Lisboa: Difel, 1990
- Flor de Estufa (conto), in "Imaginários Portugueses: Antologia de Autores Portugueses Contemporâneos", Lisboa: Fora do Texto, 1992
- A Fonte da Paciência (conto), in "Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian: Memórias da Infância", VIII Série, n.º 1, Lisboa, Dez. 1994
- A Esmeralda Partida (romance), Lisboa: Difel, 1995, 2008 [Prémio Eça de Queiroz, da Câmara Municipal de Lisboa, 1995]
- Ritorni (conto em italiano), in "Europa Come: 15 Racconti per 15 Nazioni", Florença: Giunti, Gruppo Editoriale, 1996
- O Inferno e o Paraíso (conto), in "Contoário Cem", Lisboa: O Escritor, 1996
- A Sala das Perguntas (romance), Lisboa: Difel, 1998, 2000
- Viagem ao Ponto de Fuga (contos), Lisboa: Difel, 1999
- A Ponte dos Suspiros (romance), Lisboa: Difel, 2000
- ...que o meu pé prende... (romance), Lisboa: Difel, 2001, 2009
- O Prisioneiro da Torre Velha (romance), Lisboa: Difel, 2003
- O Cavaleiro da Águia (romance), Lisboa: Difel, 2005; Lisboa: Divina Comédia, 2013
- O Lago Azul (romance), Lisboa: Difel, 2007
- A Loja das Duas Esquinas (romance), Lisboa: Difel, 2009; Lisboa: Divina Comédia, 2014
- A Rocha Branca (romance), Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2011
- Ravengar (romance), Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2012


BIBLIOGRAFIA PASSIVA:

- Benedito, Silvério Augusto. Para uma Leitura de "A Casa do Pó" de Fernando Campos: Uma Busca Obsessiva das Origens, Lisboa: Editorial Presença, 1995
- Letria, José Jorge. Conversas com Letras: Entrevistas com Escritores, Lisboa: O Escritor, 1994
- Marinho, Maria de Fátima. O Romance Histórico em Portugal, Porto: Campo das Letras, 1999
- Vieira, Cristina Maria da Costa. O Universo Feminino n' "A Esmeralda Partida" de Fernando Campos, Lisboa: Difel, 2002


O que fez a rádio pública em memória do eminente escritor Fernando Campos?
Na Antena 2, há que louvar o cuidado que Luís Caetano teve em recuperar a entrevista que o escritor lhe concedeu em 2007, a propósito da publicação do romance "O Lago Azul", que inseriu, logo que a notícia da morte foi veiculada, n' "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play] e depois também no programa "A Força das Coisas" [>> RTP-Play].
Na Antena 1, e tirando a simples notícia do falecimento, nada me constou. Daria assim tanto trabalho ir ao arquivo buscar uma entrevista e transmiti-la? Eu tenho a ideia de ter ouvido, certa vez na Antena 1, Fernando Campos a ser entrevistado por Graça Vasconcelos, mas se fosse escolhida outra entrevista que porventura exista no arquivo histórico, não haveria a mais pequena objecção da minha parte. O mesmo direi a respeito da leitura intercalar, ao longo de um ou mais dias, de excertos da obra ficcional do autor. Nada ser feito, como se Fernando Campos fosse uma figura insignificante das letras portuguesas, é que jamais se poderá tolerar no canal de maior audiência da rádio do Estado.

Quem também entrevistou Fernando Campos, a pretexto da edição do romance "A Ponte dos Suspiros", foi o saudoso Carlos Pinto Coelho, para o programa radiofónico "Agora... Acontece!". Uma agradabilíssima entrevista que o blogue "A Nossa Rádio" proporciona, com a maior das honras, à audição dos seus leitores/visitantes.


"Agora... Acontece!" N.º 111, de 15-Jan-2001



Fernando Campos entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 9':15'']



Capa da primeira edição do romance "A Casa do Pó" (Difel, 1986)
Concepção gráfica de Rogério Petinga.